Khadafi vai cair antes do Carnaval

1. Estou a tentar habituar-me a isto.
“Mas chegoooooou o Carnavaaaaaaal
E ela nããããããããão desfilooooou
Eu choreeeeeei, na avenida, eu choreeeeeeei”
São dez e meia da noite e desde as dez e meia da manhã ouvi este samba umas dez vezes e meia. Da minha porta vejo a comunidade: favela Cerro-Corá. Passei o Verão sem a ouvir, mas agora chegou o Carnaval. O casario está todo aceso. O Marcos diz que deve ser um churrasco. Quando disse isto era de manhã. É um churrasco “non stop”. E o som como se estivesse na minha porta.
“Mas chegoooooou o Carnavaaaaaaal
E ela nããããããããão desfilooooou
Eu choreeeeeei, na avenida, eu choreeeeeeei”.
Samba é tristeza que balança, disse Vinicius de Moraes, aprendi hoje outra vez.
Estou a tentar habituar-me, juro. Khadafi perde mais cidades líbias. Os manifestantes rasgam o livro verde do tirano. Mas eu acabo de voltar de uma palestra sobre o Carnaval onde durante duas horas não cliquei na Al Jazeera.

2. Quando o Marcos está de folga fica zanzando. É bom conversar com o Marcos por muitas razões, e por muitas palavras. O Marcos é o rei do jardim, dos bichos, das plantas e da criança que mora neste jardim e se chama Pedro. Quando o Pedro for grande quer ser o Marcos.
Eu também.
Então no Carnaval o Marcos fica zanzando na Lapa. Ele gosta de lá. É “show” de bola. Lá ou na Rocinha, que foi onde ele cresceu. Amanhã à noite lá vai ele para a Lapa, encher a cara. É a única noite em que pode fazer isso porque domingo está de folga. Lá tem o Bloco da Lapa. Há o Carnaval da Avenida e o Carnaval dos Blocos. No Carnaval da Avenida, aquele que todo o mundo vê na televisão, quem está lá a assistir são os gringos e os turistas, diz o Marcos. O povão desfila e fica a espreitar por cima das arquibancadas. Porque é muito caro pagar para ver. É caro demais, diz o Marcos. Então ele não vai, nem pensar. Ele vai na Lapa, tem Bloco lá. Carnaval de rua é Bloco. Tem Bloco de tudo, diz o Marcos. Até tem Bloco Gay. É só sapatão e veado. Eu não ouvi falar?

3. Não. Sei nada do Carnaval, totalmente zero. O Médio Oriente são amendoins perto do Carnaval: blocos, baterias, quadras, escalas, tocar o surdo! A Sapucaí de hoje e a Presidente Vargas de ontem. Samba-enredo, samba de carnaval e marchinha. O Bola Preta!
Pedi socorro aos amigos e todo o mundo falou no Bola Preta, um Bloco com dez milhões no centro do Rio, sábado de manhã. A Christiane vai perder, só chega sábado à tarde, mas falou no Baile do Sarongue e nas fantasias do Saara. O Fred, foi só começar a falar: os caretas, os moderninhos, os saudosos. O Ramon diz que vem comigo à Mangueira amanhã à noite. A Tatiana quer fugir mas antes descobriu que Sérgio Cabral (pai) ia estar na Biblioteca de Botafogo.

4. Sérgio Cabral (pai do actual governador do Rio) é o ínclito pesquisador do Carnaval. Como cheguei à Biblioteca de Botafogo com meia hora de antecedência ainda consegui folhear na sala de leitura o seu histórico “As Escolas de Samba — o que, quem, onde, como, quando e porque”. No começo tem uma fotografia do autor entrevistando Cartola na Mangueira. Parece uma aldeia em África. Terra batida, estendal de roupa, eles sentados numa clareira. Li no prefácio que Cartola nasceu bem perto de onde moro, nas Laranjeiras. Foi ele quem escolheu o Verde e Rosa que são as cores da Mangueira até hoje.
Sérgio Cabral (pai) conviveu com todos eles, Cartola, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, que este ano vai ser homenageado no desfile da Mangueira. Os génios do Carnaval carioca.
O tema do serão na Biblioteca de Botafogo era esse mesmo, o Carnaval Carioca. Plateia cheia de torcedores, porque isto é como o futebol, e cada um tem sua escola, seu amor. Um carioca é do Flamengo como é da Portela, da Império Serrano ou da Beija-Flor. Sérgio Cabral (pai), por exemplo, é do Vasco como é da Cascadura. Escola de samba é time e devoção. Sérgio Cabral contou que tem vontade de chorar até hoje ao lembrar o samba-enredo da Mangueira dedicado a Villa-Lobos em 1966. “A viúva estava na arquibancada”, contou ele. “Ela se levantou e a Escola toda parou. Lá eu chorei mesmo mas aqui estou bancando o homem.”
Eram os tempos em que o desfile era na Presidente Vargas, antes de haver o sambódromo da Avenida Marquês de Sapucaí.
“Agora não tem emoção”, disse Sérgio Cabral (pai). “É muito apressado, tem andamento de marcha. Então a bateria também perdeu subtilezas.” Bateria é a orquestra da Escola, todo aquele som que sai desfilando.
Os ínclitos lamentam a espectacularização do Carnaval: cada vez mais dinheiro, mais alegorias, mais “show”, mais visual. E a música? E o pé no chão?
E carioca que se preze quer um Carnaval carioca, defende Sérgio Cabral (pai). Até já tem trio eléctrico no Rio, como se fosse a Bahia. Até música sertaneja. Para além dos gringos e dos ricos.
Mas o ínclito Sérgio Cabral acredita que 2011 pode ser o Carnaval mais emocionante dos últimos anos por causa daquele incêndio que devorou milhares de fantasias de três escolas de samba, incluindo a Portela. “Provavelmente eles vão fazer algo que vai emocionar o público.”
Entretanto os rebeldes líbios avançam para Tripoli.
O meu time é que Khadafi caia antes do Carnaval.

(Público, 25-2-2011)

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