Operação Guilhotina

1. É bom aterrar no aeroporto António Carlos Jobim. Porque se chama assim e porque antes de se chamar assim já ficava no Rio de Janeiro. Melhor só aterrar no aeroporto António Carlos Jobim ao amanhecer, como me aconteceu anteontem. Quando o avião começou a descer, todo o horizonte era uma linha de fogo. Sempre que aterro no Brasil sinto-me a chegar de outro planeta, mas nunca como anteontem essa sensação foi tão forte. Talvez porque eu nunca tinha vindo do Médio Oriente para o Brasil.
Uma coisa que percebemos no Novo Mundo, seja o México ou o Brasil, é como a Europa está perto do Médio Oriente: somos todos, europeus e médio-orientais, o Velho Mundo.
Vista do Brasil a praça Tahrir foram só notícias, como ainda há minutos o Bahrein no site do Globo. Mas na praça Tahrir a Europa que me chegou via Facebook estava emocionada como se aquela revolução fosse coisa íntima, sua.
E é.

2. O taxista que apanhei no aeroporto ia a ouvir notícias na rádio. Não me lembro de ouvir notícias do estrangeiro na rádio do Rio, e esta vez não foi excepção.
“O ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Allan Turnowski…”, dizia o radialista.
Agarrei-me ao banco da frente, quase matando o taxista de susto.
— O Turnowski já não é chefe?
— Não, pediu para sair.
— Pediu para sair?
— Ontem. Depois daquela operação na polícia. Não viu não? Prenderam um monte de policiais por corrupção.
Não deve ter feito ainda dois meses que estive sentada no gabinete de Allan Turnowski, a ouvi-lo jurar guerra ao tráfico e às milícias e à corrupção na polícia.
— Agora nomearam uma mulher para o lugar — informa o taxista.
— Ah é?
— É. Já tinha uma presidente. Agora tem uma chefe da polícia. ‘Tá aí! O futuro é das mulheres.

3. No meu jardim também. Mais concretamente daquelas duas garotas chamadas Preta e Bela, que ouvem o que não ouço e cheiram o que não cheiro, e repentinamente correm para cima do muro a ladrar ao invisível.
Mal abri a porta, entraram arfantes como se lá dentro houvesse um osso de dinossauro. Mas como os donos da casa principal voltaram enquanto eu estava na praça Tahrir, durei uns minutos de atenção na cabeça delas, e logo foram à vida.
A porta ficou aberta de par em par até à hora em que fui dormir, e estamos a falar do Rio de Janeiro. Muitas casas têm polícia. Esta tem duas garotas.

4. No dia seguinte de manhã desci a ladeira para ir apanhar o ônibus 369 lá em baixo. Na esquina da outra ladeira que vai para a favela os mototáxis estavam no afã do costume, levando gente às costas. No paragem do 369 não havia ninguém, sinal de que acabara de passar um. Depois chegou uma senhora com ar de já-avó, mulata, baixinha.
— Hi, deve ter passado agora mesmo — disse ela.
Decidi apanhar um táxi e levei-a de boleia, e de caminho conversámos.
— Meu nome é Gilbete, sou diarista e acompanhante.
Diarista é empregada doméstica. Acompanhante depende.
— A senhora acompanha idoso?
— Isso. É uma senhora de 91 anos muito carente. Aluga dois quartos para ajudar na renda porque também não tem muito. A gente somos amigas.
Gilbete até vai mais cedo do que a hora marcada. De resto, ela própria é mãe de quatro filhos e, confirma-se, avó de uma neta. Somos vizinhas de bairro. Quando lhe digo em que ladeira moro ela diz que costumava haver muitos assaltos. Que uma firma onde o marido trabalhava até mudou de lá para a Lagoa por causa disso.
— Mas agora está tranquilo, não é? — pergunto eu.
É a chamada pergunta induzida.
— É, está mais tranquilo.
E Gilbete salta na Lagoa, a caminho da sua idosa.

5. No Leblon, por acaso, conheço Gleici, que todas as manhãs apanha dois ónibus desde a zona oeste para vir servir a elite carioca. Aos 30 tem três filhos.
— O primeiro foi aos 15.
— E a sua família não ficou preocupada?
— A minha mãe ficou, mas o que é ia fazer? Tirar é que não, de jeito nenhum.
Tirar é abortar.
— E agora quer ter mais?
— Não. Operei.
Continua com cara de menina. Mora em Campo Grande, lá onde a milícia é um problema maior do que o narcotráfico.

6. Mais notícias da rádio. A Band News entrevista a nova chefe de polícia, Martha Rocha. “Claro que há uma mudança de paradigma, um acto de ousadia”, diz ela, firme.
Entretanto, Allan Turnowski está a ser acusado por uma testemunha de receber 100 mil reais de propina para fechar os olhos ao tráfico de produtos piratas. Outros relatos falam em 500 mil reais. Ele nega e pede provas.
A operação está a ser vista como um ataque decisivo à corrupção na polícia. Começou com a detenção, sexta-feira, de mais de 30 polícias civis e militares e 13 ex-polícias por ligações ao tráfico e à milícia.
Chamam-lhe Operação Guilhotina.

(Público, 18-02-2011)

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