De Portugal à praça Tahrir sem perder o Brasil

1. — A verdadeira caipirinha é com gelo inteiro — disse a “barwoman” do Colégio 27.
O Colégio 27 fica em Ponta Delgada mas a “barwoman” é brasileira. Saio do Brasil e o Brasil segue-me até ao Mosteiro de São Bento de Vitória, numa rua secreta do Porto. Depois até ao Largo de Camões, em Lisboa, onde os brasileiros fazem fila todas as manhãs. E finalmente até Ponta Delgada, ao fim de um glorioso dia de Inverno.
Não lista do Colégio 27 há caipirinha de maracujá. Maracujá é uma fruta exótica na Europa, mas os Açores são a caminho do Brasil. E, como todas as caipirinhas no Brasil, as de maracujá são feitas com gelo inteiro.
— Posso fazer com gelo picado, mas não vai ficar boa — disse a barwoman. — O gelo picado derrete mais rápido e a caiprinha fica cheia de água.
E o açúcar?
— Branco, claro.
No Brasil ninguém usa açúcar amarelo na caipirinha. Pelo menos nas caipirinhas que conheço, a começar pelas da Academia da Cachaça.
Lá veio a caipirinha do Colégio 27. Totalmente brasileira.
E depois a “barwoman” explicou que Ponta Delgada já tem uma loja brasileira onde é possível comprar por exemplo polpa de açaí, como a que se acha em qualquer esquina do Rio, batida com xarope, gelada.

2. Na manhã seguinte tive de ir à rádio açoriana. O técnico que me recebeu tinha um nome com érres. Paulista enrola os érres para dentro com a língua. O gentil técnico era paulista. Um paulista em Ponta Delgada deve ser uma espécie de travagem brusca. Como disse um micaelense de forma inesquecível, não vale a pena correr porque a ilha acaba já ali.
Mas este paulista tem o vagar das ilhas no sangue.
— A minha família é daqui.

3. Então no Mosteiro de São Bento da Vitória encontrei jovens brasileiros a emigrarem o tempo de um mestrado. No Largo de Camões encontrei jovens e menos jovens brasileiros que ainda acreditam na Europa, incluindo aquela mãe a amamentar o seu bebé na loja onde tirei as minhas fotos tipo-passe para o visto brasileiro. No Bar 27 encontrei uma brasileira emigrada a enraizar e na rádio açoriana um descendente de portugueses enraizados no Brasil que decidiu experimentar Portugal.
Muito Brasil espalhado pelo mundo está a voltar a casa. Mas há tanto Brasil espalhado pelo mundo que sempre nos seguirá, como naquele poema de Kavafis.

4. Foi assim que ontem me achei a discutir o dilema do exército egípcio com André, um brasileiro do sul. Estávamos nas imediações da praça Tahrir, num daqueles cafés cheios de homens e de fumo, entre edifícios “art-déco” enegrecidos por meio século de desmazelo. Mas como estamos em plena revolução, vários dos homens tinham fitas tricolores à volta da cabeça, e uma das raras mulheres presentes, velada até à frincha dos olhos, teclava num computador portátil.
André tem cara de norueguês, vive entre Nairóbi e Itália, venceu ataques de malária nos mais vagabundos hotéis do Corno de África e agora está a dormir num hotel menos vagabundo nestas imediações. Paga 60 libras egípcias por noite, o preço de um copo de vinho no Intercontinental, o hotel de cinco estrelas do outro lado da praça Tahrir. É um “freelancer”. Veio para o Cairo com uma encomenda de uma grande agência de fotografia. A encomenda acabou mas o trabalho não, entende André.
— “Putz”…. — diz ele, puxando mais uma fumaça de narguilé. Os paulistas é que dizem muito “putz”, uma daquelas bengalas que não querem dizer nada, género “pô” ou “puxa”, ou “caraca”. André não é paulista, mas São Paulo é a cidade brasileira de que ele mais gosta.
Discutimos o impossível: em que é que o exército egípcio está a pensar. Todos os dias cruzamos as barricadas de tanques, mostrando os nossos cartões de identidade aos oficiais. Os oficiais estão quietos. Quietos perante a revolução mas também quietos perante a polícia que na província reprime a revolução, e ainda ontem matou gente.
André diz que são os militares que estão a puxar os cordéis da revolução e que o poder será sempre deles. Eu digo que o Brasil teve 20 anos de ditadura militar e hoje, quando os jovens revolucionários na praça querem citar exemplos inspiradores além do que seria previsível (a Turquia), citam o Brasil por ter levantado a cabeça.
A revolução da praça Tahrir é esse momento: levantar a cabeça.
Eu, que vim de férias, parto em breve. Mas algures num hotel vagabundo nas imediações da praça Tahrir, um brasileiro do sul continuará a trabalhar. O trabalho dele é apanhar o momento em que a cabeça vira numa determinada direcção.

(Público, 11-2-2011)

4 comentários a De Portugal à praça Tahrir sem perder o Brasil

  1. E o Brasil se espalha por todos as cantos do mundo, buscando o que ainda não é possível encontrar por lá. Levando o que aprendeu e visando o que se pode aprender, trocando experiências. Parabéns pelo excelente texto!!!

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