Os anos dourados na Serra

Há um amor na avalanche da Serra. Os cariocas dizem simplesmente Serra quando falam de toda a região a nordeste do Rio de Janeiro. A cidade parou em comoção com a catástrofe: era a morte, era a lama, e era um amor desde a infância.
Caetano Veloso terminou uma das suas últimas colunas no “Globo” dizendo: “É entristecedor ler sobre o que se passou em cidades que amamos desde pequenos.”
Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto, Teresópolis, Nova Friburgo foram residência de Verão e terra prometida, da família imperial à família Jobim, passando pelos Morelenbaum, ou, fora da música, por judeus como os Irmãos Bloch, também ditos Karamabloch.
Cavalo, cachoeira e piscina, casarões de muitos quartos ou hotéis de nome estrangeiro, trilhos pela mata atlântica, canções que duram para sempre, como a juventude nas fotografias.
É ver os álbuns de Eveline. Sábado de calor-torpor no Rio, difícil chegar ao mar sem pisar alguém. Eveline mora no fim do Leblon, pode ir a pé à praia, mas não hoje, nunca a esta hora. A entrada de sua casa é já a salinha do piano. Eveline dá aulas de canto popular e canta.
Eveline Hecker, 53 anos: tem disco a solo com músicas de Zé Miguel Wisnik, esteve nas bandas de Francis Hime, Beth Carvalho e Tom Jobim.
E quando ela abre os seus álbuns de fotografias dos anos 70, é o sítio da família Jobim que salta: ela e o então namorado Vinicius Cantuária, com quem alugava uma das casas da família Jobim; ela e Vinicius com os Morelenbaum (Jaques, violoncelista, Paula, cantora) que alugavam outra casa da família Jobim; todos eles com outros músicos e os filhos e netos de Jobim.
O lugar chama-se Poço Fundo, município de São José do Vale do Rio Preto, entre Petrópolis e Teresópolis.
Mas antes de entrarmos por esse trilho, Eveline traz uma memória anterior: a da sua própria família em Teresópolis.
“Desde 1966 que tínhamos casa lá. O meu pai construiu-a no lado oposto ao que agora foi afectado pelas chuvas.” Junto à antiga Granja Comary, um paraíso verde com lago, onde a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) hoje treina a selecção.
Teresópolis tornou-se um centro sazonal para a comunidade judaica, e o pai de Eveline, judeu polaco, não foi excepção. “Veio durante a Segunda Guerra. Era da Força Aérea Britânica e a diplomacia brasileira abriu a possibilidade de recolher refugiados. Ele conheceu a minha mãe aqui. Por ser filha de belgas protestantes, ela organizou um clube para acolher refugiados.” Casaram, criaram três filhas. O pai, engenheiro de formação, escrevia e cantava. A mãe tocava piano.
“A vida inteira passámos férias em Teresópolis e era uma casa muito musical”, conta Eveline. “Sempre tivemos piano e amigos que faziam música. A gente ia no final de Dezembro, e ficava até Fevereiro. Levávamos muitas amigas do Rio, até lhe chamavam Casa das Meninas.” Em torno da qual sempre voltejavam rapazes amigos. A mãe de Eveline adorava receber gente.
“A gente ia para a piscina no Clube Comary, onde agora está a CBF, e ao lado de casa tinha o Village Comary, um clube de judeus, onde a gente ia jogar vólei, ia à piscina, à sauna. Tinha uma cocheira lá perto, andávamos a cavalo quase todos os dias, colhíamos muitas framboesas, entrávamos naqueles matos com jarras imensas e saíamos com elas cheias, fazíamos geleia… Era uma festa. Muitas caminhadas a pé, subíamos a Pedra do Sino e passávamos a noite lá. Muitas cachoeiras…” Algumas perigosas quando havia tempestade: “Por causa das trombas de água, tínhamos de ficar muito atentos.”
A presença da natureza como algo que a todo o momento pode transbordar está em todas as memórias da Serra.

O cavalheiro Jobim

Na vida de Eveline, a passagem de Teresópolis para o sítio de Jobim dá-se na escola de música Pro Arte do Rio de Janeiro, onde, além dos Morenlenbaum, ela conhece Heloísa Madeira, casada com um primo de Tom Jobim. Heloísa também tinha casa no sítio da família. “Então nos convidava. Fins-de-semana, feriados, Verões…” Jobim já tinha construído a sua própria casa, no cimo da colina. “Era muito generoso. Íamos para lá, uma farra, todo o mundo cantando.”
Tom conheceu assim Eveline a cantar, e mais tarde convidou-a para a sua banda, de que os Morelenbaum também faziam parte. E ela recorda-o, até hoje comovida, como “um gentleman, um cavalheiro, um mestre”, “um verdadeiro artista”, acima de tudo. “Por exemplo, estava escrevendo ‘Longa é a tarde / longa é a vida
 / De tristes flores, longa ferida…’ [de repente a sala parece cheia de instrumentos, mas é só mesmo a voz de Eveline]. Ele estava fazendo essa letra e nos chamava para a completar. Podia colher inspiração de qualquer um de nós. E toda a vez que eu chegava estava debruçado sobre partituras complicadíssimas de Chopin, de Bach. Ele sabia que acima dele havia estes. O Tom podia ter sido arrogante, preguiçoso, e era um cara inteiramente atento.”
Já com o seu namorado Vinicius Cantuária — que tocou anos na banda de Caetano Veloso, antes de se lançar como protagonista —, Eveline passou a alugar a casa de Helena Jobim, irmã de Tom, também lá no sítio.
Relance de memória: “O Tom comendo sardinha em lata e fumando charuto à lareira. Ele adorava sardinha em lata.”

“O rio carregou…”

No documentário “A Casa do Tom”, realizado por Ana Jobim, segunda mulher de Tom, Poço Fundo ocupa o centro. A primeira parte é dedicada à casa do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e a terceira parte é dedicada à casa de Nova Iorque.
Pelo meio, Poço Fundo é onde Tom se deita a ver o céu, caminha de pijama pelo rio, masca plantas como só os descendentes de índios podem fazer, diz ele, e escuta histórias de lobisomem.
“Lá ele passou a juventude, caçando com mateiros, conversando com os locais”, narra Ana Jobim, no filme. “Tom tinha enorme admiração pela sabedoria do homem simples, talvez por isso admirasse tanto Guimarães Rosa, que conseguiu captar a riqueza da imaginação e palavreado do homem comum. Era um lugar de grande inspiração, o retiro da família. Cada um tinha sua casa, mas era tudo muito próximo. A gente se juntava nos almoços, jantares, que muitas vezes terminavam em cantorias.”
Em Poço Fundo havia um vento forte. Tom chamava-lhe vento redondo. Conhecia os ventos e a caminhada do sol. Adorava estar em casa com os amigos e a família, e pensou cada uma das suas casas. Assim foi quando decidiu construir a casa da serra.
Encomendou o projecto em 1972 ao arquitecto Wilfried Cordeiro, “seu amigo de infância, com as seguintes especificações: o sol da manhã devia bater nas janelas dos quartos; a parede sul devia ser cega, por causa do vento e das chuvas de Verão; os quartos isolados do chão, para evitar humidade; telhas coloniais grandes em tecto sem forro, pé direito de sete metros de altura; degraus nas portas de entrada, para evitar cobras”.
Mas enquanto tudo isto não existiu, viveu na casa original, da mãe, à beira do rio. Aí compôs “Dindi” e “Águas de Março”, e foi aí que os moradores de São José do Vale do Rio Preto insistiram em procurar Frank Sinatra, achando que Jobim o estava a esconder. Olharam até debaixo da cama.
Isto porque Jobim acabava de gravar com Sinatra em Nova Iorque.
Essa foi a casa agora levada pela enxurrada, o refúgio que acabou, confirma ao P2 Paulo Jobim, 60 anos, filho primogénito de Tom. “A casa que era da minha avó, e outra ao lado que a minha irmã [Beth Jobim] comprou: as duas foram embora, junto com casas de outras pessoas [fora da família]. Foram cerca de 10 casas carregadas pelo rio.”
Rio Preto.
“Me dá melancolia”, diz Paulo. “No [álbum de Tom Jobim] ‘Passarim’ tem uma música em que ele diz: ‘Minha casa o rio carregou..’ A minha mãe [Thereza, primeira mulher de Tom] tinha preocupação que o rio viesse e carregasse a casa. Botava pedras. Sempre se sentiu que era possível o rio entrar, mas desta vez subiu muito, muito.”
A casa de Paulo ficou intacta, tal como a que Tom fez na colina, e que tem estado fechada. Agora, talvez a sua filha Beth a recupere e reabra. “É uma casa muito boa, a gente já estava querendo reformar”, diz Paulo. Mas as casas à beira do rio não serão reconstruídas. “A minha irmã está pensando apenas num memorial por causa das ‘Águas de Março’, porque ninguém vai sentir-se seguro de dormir lá.”

MPB em Poço Fundo

A ligação da família Jobim a Poço Fundo começa com uma granja de galinhas criada pelo pai e pelo tio de Tom. “Depois a parte das galinhas foi à falência e a minha avó ficou com a parte actual.” Paulo Jobim, 60 anos, passa lá férias desde criança. “Brincadeira no mato, soltar pipa [papagaio], banho de cachoeira, porque no rio já era sujo. Muitas músicas foram feitas lá. Era um período de descanso em que o meu pai produzia bastante. Os arranjos do primeiro disco do João Gilberto, ‘Chega de Saudade’ foram todos feitos lá, e esse disco é a coisa mais importante da Bossa Nova.”
Na contracapa, Jobim escreveu: “Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele.” Então, leitores, quando ouvirem: “Vai minha tristeza / E diz a ela que sem ela não pode ser…”, saibam que todo o arranjo nasceu na Serra, à beira do Rio Preto. Estávamos no fim dos anos 50.
Uns dez anos depois, um rapaz violoncelista começava a sua relação com a Serra, sem fazer ideia de que Jobim costumava andar por ali. “Eu estava num grupo de música antiga dirigido por Marcelo Madeira”, conta Jaques Morelenbaum. “E ele me convidava para um vale mágico chamado Poço Fundo, onde havia uma lareira e a gente ficava fazendo música renascentista. Era um vale isolado do mundo onde a gente tocava e durante o dia eu ouvia histórias do Saci que fazia trança na crina dos cavalos e das mulas sem cabeça. Foi um Brasil que conheci ali, com ares de antigamente. Isso, no final dos anos 60, começo dos 70, a minha adolescência.”
Anos mais tarde, já com a sua mulher Paula, começou a alugar uma casa no sítio dos Jobim. “Um dia bateram à porta e era o Tom Jobim buscando uma prosa. Eu estava ouvindo Villa-Lobos [uma paixão de Jobim]. Mais tarde ele me convidou para casa dele. E depois me convidou para a banda dele. Aí, além de correr o mundo todo, a gente privava com ele lá na Serra todos os fins-de-semana e no Verão. O Tom, o filho dele Paulo [que tocava violão, fazia arranjos e produzia], o Danilo Caymmi [flautista, filho de Dorival]… Passámos muitas temporadas de deleite com aquela natureza, podendo escutar um matita-perê, aquele pássaro que emite duas notas só, como se fosse um si e um dó, que foi utilizado muitas vezes pelo Tom, e é nome de um disco dele.”
Não tem como contar a história da música popular brasileira sem falar do sítio dos Jobim na Serra.
Foi Paula quem primeiro levou Jaques lá. Quando começaram a namorar, ela já frequentava o sítio, por ser amiga de uma sobrinha de Tom. E então alugaram a casa dessa sobrinha. “A gente tinha uma piscina natural, um campo de vólei, íamos caminhando até à cachoeira e voltávamos de noite, ficávamos jogando baralho…”, conta ela. “Tinha sempre um violão, na casa do Tom tinha um piano. E depois que a gente fez parte da banda dele, o Tom comprou a casa que alugávamos e disse que não precisávamos de a alugar mais, ficávamos só cuidando dela. Aí já éramos superamigos. Passámos uns 15 anos consertando a casa. Depois o Tom morreu e com a ausência dele aquele lugar perdeu muita da graça.”
Foram deixando de ir, e tão cedo Paula não irá. “Não tenho a menor vontade, depois dessa destruição. É um cenário de guerra. Para a gente que viveu esses momentos maravilhosos, seria uma tragédia.”

Verões imperiais

Dão-nos umas chinelas gigantes, onde enfiamos os nossos sapatos, e a partir daí deslizamos pelas tábuas enceradas do Palácio Imperial, vendo móveis de jacarandá e porcelanas de Limoges, brocados e cristais, as imperiais vestes de D. Pedro II, seu ceptro e sua coroa a rodar, faiscante: 639 brilhantes e 77 pérolas.
Este é o edifício mais célebre da Serra, refúgio da família imperial brasileira durante o Verão brasileiro. Fica no centro da verde Petrópolis, cidade de casinhas e canais, Sintra com uma pitada de Veneza.
Este palácio agora museu — onde além de luxos e manias podemos ver o diploma de abolição da escravatura no Brasil ou a mesa onde foi escrita a primeira Constituição — foi eleito uma das sete maravilhas no estado do Rio de Janeiro, informa uma placa no jardim. Pensando nas maravilhas que só o Rio de Janeiro-cidade oferece, a competição era dureza.
Mas Petrópolis é um orgulho nacional.
Nelson Levy, 69 anos, filósofo e professor de Ética, começou a passar lá férias em criança. “Íamos para o Hotel Promenade, encravado na mata”, conta, sentado no seu apartamento com vista para a Lagoa, no Rio de Janeiro. “O Promenade tinha um lago enorme. Agora é um condomínio…” Como aconteceu a outros hotéis e casarões de família.
O que faziam os jovens veraneantes em Petrópolis, nesses finais dos anos 40, começo dos 50? “Era cavalo, piscina, pegar um ónibus a cair aos pedaços para ir ao cinema, lanchar, comprar roupa…”
Porque as férias eram meses. “Íamos no começo de Janeiro e voltávamos depois do carnaval. Hoje seria uma coisa de milionário, ficar dois meses num hotel, com café-da-manhã, belo almoço, belo jantar.” Mas na altura era coisa da média burguesia. “Havia muitas crianças, os amigos dos meus pais iam todos para lá.”
Verão era Serra, não praia. “Búzios e Angra [praias célebres, na costa carioca] só foram descobertas nos anos 50. Ir à praia é uma coisa recente. A aristocracia não se banhava no mar, para não ficar morena como os escravos.”
No começo da adolescência de Nelson, Petrópolis cansou, e a família passou a ir para Nova Friburgo. “Também tinha essa aura da serra, mas com várias fábricas importantes.” Ficavam no Hotel Bucksi, na entrada da cidade. Cavalo e piscina, como em Petrópolis, com a novidade das primeiras namoradinhas, mas tudo diurno. “À noite era recolhimento.”
Nelson sentia na Serra do Rio o que aos 19 anos sentiu quando conheceu Sintra, “uma transposição no tempo”. E durante a ditadura brasileira, quando por ser comunista esteve dois anos exilado em Portugal, volta-e-meia ia a Sintra. “Tinha uma aldeiazinha onde se comia um cabrito maravilhoso… A Serra para um carioca é o que Sintra é para um lisboeta. Agora, com a catástrofe, eu senti uma extirpação. A Serra faz parte do meu corpo.”
Nelson crê que a relação com a Serra será diferente a partir de agora: “O sonho da classe média de ter uma casa ali vai mudar. Não dá para ocupar os morros. E esse medo é como os ratos que transmitem dados, passa para vários gerações. Você vai comprar uma casa na Serra mesmo que ela não esteja em lugar de risco? Os preços vão cair.”
Está a falar do fim do seu próprio sonho: “Esse sonho que me acompanhou a vida toda, eu não tenho mais.”
Mas com muita gente não é assim.
A mãe de Eveline, que tem 80 anos, estava a morar em Teresópolis quando tudo aconteceu, e lá continua, com uma das filhas.
O que Eveline foi vendo, ao longo dos anos, antes da catástrofe, foi um caminho para a catástrofe. “Toda aquela região de Teresópolis cresceu de forma aleatória. Era uma cidade de serra de estilo europeu e começaram a crescer aqueles prédios horrorosos, e aquela ocupação irresponsável de todas as encostas.”
Ela mantém-se ligada a um grupo de fãs da Serra por mail, e discutiam muito isso. “Nos últimos meses só se falava da irresponsabilidade dos políticos, de como Teresópolis estava abandonada. Claro que houve uma coisa de catástrofe que não tem como resolver, mas também houve um abandono.”

Eretzópolis

Arnaldo Bloch, 45 anos, jornalista e escritor, é descendente de uma dinastia que o jornalista Otto Lara Rezende baptizou de Irmãos Karamabloch. E quando Arnaldo decidiu escrever a saga da família foi esse o nome que escolheu, “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras), reconstrução pícara, comovente e implacável, de uma família que veio lá dos guetos judeus da Ucrânia, ergueu no Brasil o império Manchete — revista e TV —, e depois despencou.
Mas antes da falência, nos tempos áureos, os Bloch construíram uma casa em Teresópolis ¬— Terê, como lhe chamam os cariocas — que se tornou “a” casa.
“Não sei a data em que os judeus começaram a ir para Teresópolis”, diz Arnaldo. “Acho que procuraram um clima mais próximo da origem.” Percebeu isso quando estava a preparar o livro, ao viajar até Jitomir, a cidade ucraniana de onde a sua família veio. “É uma pequena cidade cercada de colinas, pelas quais passa um rio.”
Os Bloch foram atraídos a Teresópolis quando Bóris, um dos tios de Arnaldo, foi lá vender trabalhos gráficos a um dinamarquês, descendente dos primeiros povoadores da cidade. “Então o Bóris soube que os Guinle [milionários donos do Copacabana Palace e de várias propriedades em Teresópolis] estavam a vender terrenos. E comprou um local cercado por mata atlântica.”
Isto, nos anos 40, quando os Bloch ainda eram só donos de uma gráfica, o patriarca Joseph estava vivo e a divisão de poderes entre os filhos não estava estabelecida.
Mas Adolfo, outro tio de Arnaldo, que viria a tornar-se o mais poderoso dos Irmãos Karamabloch, achou péssima a compra feita pelo irmão. “Disse que o terreno era uma merda, mal localizado, e comprou outro. E o Bóris foi e comprou outro. Ficaram numa disputa comprando mais e mais. Aí entrou a Bela [irmã dos dois e tia de Arnaldo] e disse: ‘Vamos ficar aqui, porque aqui é Jitomar.’ E construíram uma casa com peroba-do-campo [a madeira nobre que Jobim pôs na letra de ‘Águas de Março’], muito mármore, um pé-direito de seis metros, nove quartos, salas monumentais, mas tudo no estilo serrano, uma beleza.”
Obra do arquitecto Francisco Bolonha, “famoso na altura”.
Quando Arnaldo nasceu, em 1965, a casa já existia. “Então desde que me lembro passava as férias lá: Dezembro, Janeiro e Fevereiro. Iam as mães com os filhos, e os pais iam lá ter no final-de-semana. A viagem demorava uma hora e meia ou duas desde o Rio. A estrada era muito ruim.”
Levavam muita coisa, como numa mudança, e a chegada do líder Adolfo ao fim-de-semana, com a cadela Manchetinha, era sempre um acontecimento.
“No final-de-semana eram umas 25 pessoas, tios e tias, muitas crianças.” O que Arnaldo retém é “esse ar da Serra, como cantam os grilos, os aromas, a experiência colectiva de muitas crianças passando três meses juntas num lugar com trilhas, andando de bicicleta, jogando pinguepongue, brincando de desenhar”. Na dispensa da casa “havia sempre uma bobine de impressão e as crianças rasgavam um grande pedaço de papel ‘couchê’ e desenhavam”.
O carnaval dava direito a directa. “As crianças podiam ficar em claro vendo os desfiles da escola de samba pela televisão.” Havia umas refeições dentro de casa, com os adultos na sala, e as crianças na copa. E havia refeições ao ar livre. “Botavam-se mesas no varandão e era uma bagunça.”
Veio a adolescência. “A gente começou a sair para os bailes do Hotel Higino.” O mais célebre da cidade. “Depois abriu uma ‘boîte’ chamada Aquarius, e aí eu percebi que havia uma influência forte da comunidade judia, como os judeus se apoderaram de Teresópolis daquela forma associativa, uns ajudando os outros. Era uma espécie de Terra Prometida, uma colonização. Tanto que a gente fez um jogo de palavras, Eretzópolis. Acho que via mais a comunidade judia em Terê que no Rio.”
Arnaldo diz que ainda sonha com Terê. A casa dos Bloch chamava-se Casa da Manchete, mas as crianças chamavam-lhe só Comary, o nome da região. Talvez alguém um dia a transforme numa Combray como a de Proust.
“A casa ainda existe, está nas mãos de um primo. Foi uma das coisas que a falência não varreu. Mas por causa do livro [‘Os Irmãos Karamabloch’], a gente está brigado com esse primo.” Nos últimos 20 anos Arnaldo foi lá apenas “uma duas vezes, para escrever”.
E entretanto muito mudou. “O varandão era cercado de plantas e agora é mais devassado, uns pinheiros que estavam atrás foram cortados. A cidade cresceu demais, encostas que eram pura mata se favelizaram. O poder municipal começou a usar a concessão de terrenos como estratégia eleitoral.”
Quando a catástrofe aconteceu agora, Arnaldo olhou para ela como “qualquer catástrofe brasileira”: “O massacre da Candelária [seis crianças e dois sem-abrigo mortos por polícias militares em 1993] me fez sofrer mais. Esta catástrofe também matou ricos mas sobretudo matou pobres, e eu não vivi nessas condições. Então não senti como se fosse uma coisa minha.”
Certo, é isto: “O poder público não ama o cidadão.” Quando as chuvas começaram, na noite de terça para quarta, Arnaldo estava no cinema a ver o último Godard, “um filme que questiona a relação do estado com o público”, justamente. “O estado não sabe amar e o indivíduo ama. O estado sempre quer ser um e o indivíduo quer ser dois.”
Falta discutir tudo. “Como a questão do desmatamento, das áreas de risco, do aquecimento global contribuíram para isto. Morte sempre choca, mas o que choca mais aqui é a omissão, e não só pública. No Rio de Janeiro, as pessoas vão no Mundo Verde [loja de produtos naturais], dizem que é absurdo o que está a acontecer na Amazónia, mas passam um final-de-semana numa casa que já desmatou e fez um campo de golfe. E o povo pensa mais em Deus que nas questões práticas da sua sobrevivência.”
E agora, as pessoas vão deixar de ir para a Serra? A Serra deixará de existir para as novas gerações? Arnaldo acha que não. “Existe uma juventude que tem uma relação com as trilhas e vai muito para a Serra. As pessoas buscam o verde. E adoram ir para a Serra comer fondue, botar uma coisa mais quente e tomar um vinho com a namorada.”
Mais, crê este descendente dos Bloch, todo o clima actual do Rio, eufórico, empreendedor, aponta para a reconstrução. “O Rio está vivendo um ímpeto muito grande de não deixar a bola cair. A solidariedade foi um sinal disso. Está todo o mundo muito empenhado em ajudar. E Teresópolis abriga a CBF. A três anos da Copa do Mundo, tudo será reconstruído muito rápido.”

(Público, 3-2-2011)

2 comentários a Os anos dourados na Serra

  1. As memórias também valem pelo que nos dão de bom para recordar. Aí está toda a sua força. São tão fortes quanto a força das cachoeiras de fluxo imprevisível. E podem, sempre, ser resgatadas. Nada morre dentro de uma memória. Nem a morte.

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