Superpuma 30: duas toneladas de ajuda, entre Petrópolis e Friburgo

Ciclovias, campos de voléi, aulas de Tai-Chi-Chuan: asssim se passavam os dias no Parque de Exposições de Petrópolis até à catástrofe de Janeiro.
Petrópolis é a Sintra do Rio de Janeiro, e o seu centro continua intacto, mas ao lado, no vale de Cuiabá, choram-se mortos, há gente com fome e sem casa, e risco de epidemias.
A emergência tomou tudo, e é por isso que o Parque de Exposições agora é uma roda de voluntários, funcionários e centenas de militares. As Forças Armadas chegaram com camiões e helicópteros para montar uma base. As quadras desportivas tornaram-se heliportos. Os pilotos da Força Aérea estão a fazer dezenas de voos diários.
A paulista Carolina avança entre as tendas, à procura do coronel Henry. “A empresa do meu namorado funciona aqui, e eu vim como voluntária”, conta ela ao PÚBLICO. “Nem pedi dias ao meu chefe, eu simplesmente disse que estava indo.” Uma amiga lá em São Paulo ajudou a recrutar toneladas de donativos, esses camiões estão a chegar, e agora Carolina quer saber onde poderão ser mais úteis. Na recepção, a equipa da prefeitura diz-lhe que estão a abrir mais três pontos de recolha de donativos, tal é a avalanche de ajuda.
Segundo pedido de Carolina: um voo de helicóptero para que o dono da empresa possa ter noção das áreas devastadas. Por isso anda à procura do coronel Henry, as permissões são com ele.
Mas já estamos no começo da tarde, e de manhã é que saem as missões de reconhecimento.
Não largar a casa
“De manhã seguimos para os vales devastados, mapeando casa a casa, em busca de gente que ainda esteja isolada”, explica o coronel De Marco, que acaba de aterrar com uma missão de vários militares e civis. “Depois damos alimentação, água mineral e hoje fizemos um cerco às populações de Santa Rita para vacinação. A maioria fica com medo que seja para tirá-los de casa e tivemos de ir casa a casa convencê-los. Ninguém que está lá quer sair de lá. E eles só têm condição de sobrevivência se a aeronáutica levar mantimentos. É uma área muito devastada.”
Ilze, médica de clínica geral em Petrópolis, acompanhou esta missão. “É uma comunidade isolada, mas agora já está tudo controlado.” Vacinação antitétano e rastreio da leptospirose, infecção causada por água contaminada com urina de rato, comum em catástrofes destas.
A bordo vinham também quatro homens do INEA (Instituto Estadual do Ambiente), sujos, exaustos e queimados do sol. “Fizemos a travessia Cuiabá-Teresópolis a pé”, diz Neto, o mais jovem. “São uns 20, 25 quilómetros no meio da água, do mato, da lama.” Tiveram de usar as facas para abrir caminho, carregados de comida e medicamentos, guiados por um rapaz do lugar. “Chamava-se António, era da Fazenda de Santo Afonso, localidade de Santa Rita, e alguns parentes dele tinham morrido.” Apesar disso, ou por isso, não parou de ajudar.
O que viram ao longo do caminho foi “devastação total” e “todo o mundo colaborando”. Mas “sem estas aeronaves da Força Aérea tudo seria bem mais difícil”.
No helicóptero do lado, o coronel Cunha acaba de voltar do Vale do Cuiabá. “Fomos resgatar 19 bombeiros que tinham sido deixados em zonas de difícil pouso.” O piloto não pôde sequer pousar, encostou ao chão.
Ajuda do Matogrosso
O sol desce. O coronel Henry diz ao PÚBLICO que na manhã seguinte será possível embarcar num dos helicópteros maiores. Mas subitamente recebe uma mensagem dizendo que um camião com toneladas de ajuda vinda do Matogrosso do Sul vai chegar, o que dá origem a nova missão.
“Vamos embarcar ajuda para uma fazenda isolada e depois para Bom Jardim”, diz ele. “Quer ir?”
Bom Jardim fica em Nova Friburgo, na outra ponta da região de catástrofe. Ou seja, esta missão vai sobrevoar tudo. Serão 40 milhas, o percurso mais longo que a Força Aérea está a fazer, e com dois pousos. “O seu helicóptero é aquele”, aponta o coronel Henry. O Superpuma 30, parado e aberto, à espera da carga, ao lado de outro superpuma que o acompanhará.
Então um gigantesco camião avança pelo Parque de Exposições, passando os chapéus de palhinha dos piqueniques, e, num vai-vem, dois carros de bombeiros começam a carregar os dois helicópteros com caixas de pacotes de leite, pacotes de fraldas, garrafões de água ou sacos de sapatos.
O piloto do Superpuma 30 é o jovem tenente Luís Fernando, 28 anos, carioca nascido na Ilha do Governador, Baía de Guanabara. Pertence ao 3º do 8º Grupo de Aviação do Rio de Janeiro. “Este helicóptero leva uma carga máxima de 8500 quilos”, explica ele. “Em cada surtida estamos a transportar duas toneladas.”
É por isso que é bem mais fácil para a Força Aérea embarcar repórteres: os 80 quilos que contam por cada passageiro extra são mais irrelevantes do que num helicóptero de pequeno porte. “Vamos aterrar primeiro na Fazenda Soledad, onde eles estão a precisar de cestas básicas”, explica o tenente, enquanto os bombeiros e os cinco tripulantes continuam a encaixar a ajuda no estômago do helicóptero.
Um caixote semi-aberto deixa ver peúgas coloridas muito bem dobradas. Os pacotes XL de fraldas ajudam a acolchoar a carga. E dois dos tripulantes sentam-se por cima do amontoado geral, porque só há quatro lugares sentados.
A repórter vai voltada para a porta aberta, ao lado do sargento Marques Souza, o homem com a missão mais arriscada a bordo: é aquele que se prende com um cabo de aço ao interior do helicóptero e depois fica meio fora, meio dentro, a ver se nenhum ramo ou obstáculo dificulta descolagem e pouso.
“Helicóptero é muito melhor que avião”, tranquiliza ele. “Se houver alguma emergência pousa em qualquer lugar.”
E as pás começam a girar, numa rotação ensurdecedora.
Levantamos suavemente de porta aberta e em segundos estamos por cima de tudo.
Só então a porta se fecha. Tem duas grandes janelas, o que permite ao sargento, e aos outros dois tripulantes voltados de costas para nós, e de frente para a outra porta, vasculhar as serras em busca de quem precise.
Céu e inferno
A paisagem é prodigiosa, verde, aveludada, luxuriante, com cascatas e morros dramáticos, rochosos, a irromper entre as colinas. E isto, a perder de vista.
Mas milha a milha, confirma-se no céu o que se viu no chão: nenhum morro parece intacto. Todos têm bocados arrancados, grandes feridas ruivas no verde, escavadas pela chuva. E no fundo de cada vale, lama. Por vezes lama em extensões desertas. Por vezes lama atolando casas.
Há zonas onde as casas são claramente ricas, com piscinas a brilhar ao sol, jardins cuidados, mansões. Há zonas de grandes fazendas, com campos de cultivo perfeitamente desenhados. E há zonas faveladas.
A região serrana tem de tudo. Alimenta o Rio de vegetais e recebe o Rio nas férias e nos fins-de-semana. E entre uma coisa e outra dá trabalho a quem não é dono de nada.
O Superpuma 30 vai rente às ervas, às flores, à rocha, inclinando-se para cá e para lá, como um insecto. E então começa a descer.
O sargento Marques Souza abre a porta e põe metade do corpo de fora, para vigiar o pouso.
Telhados, um morro semi-derrubado, uma ponte destruída, fumo, cabeças. É a Fazenda Soledad, alagada, atolada e isolada. Crianças, mulheres, homens, cães, tudo se concentra a ver o helicóptero aterrar. É gente pobre, entre casas pobres, os trabalhadores. O casebre principal tem escrito em letra infantil, “Comida caseira”.
“Fazemos cachaça aqui”, diz o mulato Amarildo, “auxiliar de produção”, o que deve querer dizer basicamente tudo. “Mas a ponte ficou destruída e não podemos passar.” Uma das adolescentes que mira os soldados correndo com caixas tem o pé enfaixado num saco de plástico. “Cortei-me num arame farpado, mas já levei vacina. Está tudo bem.”
Está tudo bem. Eles só estão isolados e dependem de quem voe para lhes trazer comida.
Corrente humana
Os militares correm de volta ao helicóptero. Num ápice estamos lá em cima outra vez. Do céu tudo volta a parecer soberbo.
Aparece então uma cidade, Bom Jardim.
E num campo de futebol centenas de centenas de pessoas em fila. Estão todas à espera do helicóptero. Já lá está o outro superpuma, que não parou na fazenda. Mas a chegada deste não deixa de ser um acontecimento.
Há toda uma plateia no cimo do morro, e outra plateia por trás da rede em volta do campo. E dentro do campo, mal as portas do helicóptero se abrem e sai o primeiro tripulante, forma-se uma corrente humana.
Atletas e crianças, mulatas de calções e avós vão passando caixas e sacos de mão em mão, a grande velocidade. Parece que nunca fizeram outra coisa na vida. Mas são todos voluntários que nunca tinham feito isto, como se percebe conversando com um, e depois outro e outro, sem que o movimento se detenha.
“A gente está dando ajuda a quem perdeu tudo”, diz Rodneia, t-shirt cor-de-rosa e calções de ganga, doméstica. “Só estou ajudando o pessoal da enchente, fazendo almoço para eles”, diz Zenilda, cabeleireira.
E há Wesley, tronco nu, descalço, 11 anos. Laerte, 44 anos, pedreiro. Marlon, 23 anos, desempregado. Amanda, 25 anos, contabilista.
Eram mesmo duas toneladas? É que só passaram minutos e o Superpuma já está vazio.

(Público, 22-1-2011)

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