As irmãs de Nova Friburgo

1. Parti do Rio pensando voltar nesse mesmo dia. Mas ainda nem entrara em Friburgo já a chuva estava a comer a estrada, e daí para a frente havia uma cidade na lama, com milhares de pessoas de um lado para o outro, como se parar atolasse.
Às seis da tarde desisti de voltar e o jovem padre Marcos, quase um sósia do homérico Frederico Lourenço, emprestou-me o seu computador portátil. Escrevi numa sala da paróquia, onde não paravam de chegar donativos. Cláudio, secretário da diocese, corria escada acima, escada abaixo. Já noite veio dizer-me que iam fechar. Eu tinha acabado de enviar o texto para Lisboa. Tomámos café com o pároco e saímos. Cláudio, a mulher e eu, três chapéus-de-chuva.
Eram nove da noite. A noite cheirava a terra. Um recolher obrigatório tácito: ninguém. Depois o clarão amarelo de uma capa-de-chuva, ao longe, com a sombra dos morros por trás.
Dobrámos a esquina do Colégio de Nossa Senhora das Dores, onde comboios de donativos também tinham sido deixados. Eu podia dormir ali, tinham-me dito as irmãs ao fim da tarde.
Mas agora todas as portas estavam fechadas.
Tocámos à campainha: nada. Cláudio, mulato grisalho e sorridente, falou de música, de Chico, de Djavan, sobretudo de Milton Nascimento, a sua devoção. Três chapéus de chuva na noite de Nova Friburgo e todos concordámos que a voz de Milton era um milagre.
Tocámos e tocámos.
Havia notícias de saques. As irmãs teriam medo de abrir sem saber a quem. Ou simplesmente estariam muito longe da campainha. O Colégio de Nossa Senhora das Dores é um daqueles intermináveis edifícios oitocentistas, de que nunca conheceremos o fim. Cláudio resolveu experimentar o telemóvel.
2. Cabelo curto todo branco, calças e camisa, a irmã Maria da Conceição vem à porta. Mais uma robusta professora primária do que a superiora de um convento. Mas ao lado dela está uma jovem irmã igual às que eu vira à tarde, cabelo coberto por um pano branco justo e comprido, túnica de tecido tosco, atada com uma corda.
Porque o colégio pertence às doroteias desde 1883, mas a catástrofe levou 14 irmãs contemplativas da Toca de Assis a saírem da casa de Friburgo onde moram para se abrigarem aqui, explica Maria da Conceição, depois de Cláudio e a mulher partirem.
No átrio, um homem de colarinho branco tecla num telemóvel.
— Dom Edney, o nosso bispo.
Também aqui abrigado.
Fundada por suíços nestas serras 130 quilómetros a norte do Rio de Janeiro, Nova Friburgo teve o seu tempo de montanha mágica, atraindo os fracos de peito, em busca de melhor ar.
— Há 117 anos que este edifício é convento e colégio, mas antes era o Hotel Central — remata Maria da Conceição. — A família imperial hospedava-se aqui.
E cumpridas as cortesias, recolhemos
3. Longos corredores de soalho, portas de bandeira, pianos, candelabros, retratos, chão de mosaico. O esplendor do que foi, agora empobrecido.
Primeiro, de um lado e do outro, os quartos das doroteias residentes, cada uma com o seu nome na porta, algumas octogenárias, pequeninas, vagueantes.
Depois uma escada, aos pés da qual a irmã Maria da Conceição se despede, deixando-me com a jovem da Toca de Assis que parece uma pintura medieval.
Subimos. No átrio do primeiro andar há dois lavatórios e várias irmãs de túnica e lenço a escovarem os dentes. É uma imagem desconcertante, uma intimidade a que nós, que vivemos para esta vida, não temos direito. Mas todas me sorriem e abraçam como se eu tivesse chegado da enxurrada.
O dormitório feminino fica logo a seguir, passando a porta. É um enorme salão, como pode ser um salão de baile, quem sabe foi mesmo. Grandes janelas de um lado e do outro, uma porta em cada ponta. À volta, roupeiros antigos, cómodas e toucadores com tampo de pedra. No meio, mais de 20 camas de ferro pintadas de verde-água, com uma armação de ferro em forma de dossel, onde estão penduradas roupas e toalhas.
Aqui dormem neste momento as 14 irmãs da Toca de Assis, e algumas mulheres vindas do Rio para ajudar, médicas, funcionárias do governo.
Mas ainda há camas vazias. Uma das irmãs prepara uma, com um lençol e dois cobertores, sem aceitar ajuda. Depois despedem-se, deixando-me sentada na cama.
Do joelho para baixo, as minhas calças têm torrões de lama. Além das galochas, que parecem um molde castanho, deparo-me com o dilema de ter de tirar as calças num dormitório cheio de irmãs de clausura. Tento observar como fazem, mas misteriosamente passam da túnica de dia para a túnica de noite, com calças por baixo e lenço bem justo, sem que se veja um centímetro de pele.
Não estou preparada para este protocolo.
Felizmente, a irmã Ana Paula aparece a sussurrar o meu nome.
4. Ana Paula foi a primeira irmã da Toca de Assis que conheci, à tarde. Tem uma cara larga e intensa, com um pouco de acne. Uma cara de mística.
Estava debruçada à janela, perto da minha cama, eu é que não reparara. Aproveito que me chama e vou logo, adiando o problema das calças. Ficamos as duas debruçadas à janela, a olhar o pátio, com uma Virgem e uma cruz, o morro denso e escuro, as nuvens no céu ameaçando chuva. A irmã Maria da Conceição disse que está prevista uma chuva pior do que a de terça para quarta, que causou tudo isto.
— Não consigo dormir desde que chegámos aqui — sussurra Ana Paula.
Moram junto a um morro. A estrada começou a rachar. Ainda esperaram até quinta, duas noites depois da chuva. Depois um vizinho transportou-as de carro, à vez, até aqui, esta solidez imperial.
Elas que não saem para o mundo, de repente tinham o mundo a cair em cima.
— Não sabíamos que havia pessoas a sofrer assim.
Mas sabem de pobreza.
Ana Paula é uma de 12 irmãos.
— Tem pedreiro, marceneiro, pintor…
Nasceu em Minas Gerais, perto da fronteira com a Baía, e sempre quis a vida religiosa. Está com a Toca de Assis há cinco anos, em Abril de 2012 fará os seus votos: pobreza, castidade, obediência.
Olha a noite, o morro cheio de terra encharcada. A qualquer momento pode deslizar.
Se Deus tudo faz, porque será que Deus fez isso, pergunto-lhe eu?
— São os homens que constroem onde não devem. E é uma forma de ver a dor dos outros.
De dar. De transformar. Ana Paula acredita que a vida futura é que é.
Na sua casa da Toca de Assis, acorda todos os dias às cinco e meia da manhã. O dia passa-se em oração, entre as tarefas. Fazem pão, panos, cartões, para ajudar ao sustento da casa. Quando toca o sino correm a rezar.
Ela tem 28 anos.
Ao fundo do dormitório há uma porta. Do outro lado estão 20 homens a dormir. Bombeiros, médicos, gente que andou a remover cadáveres, a trabalhar.
Há dois dias houve um boato nas ruas: a represa tinha rebentado, a água ia inundar a cidade. As irmãs subiram o mais alto que puderam, este edifício aqui em frente à janela onde funciona uma faculdade. Tiveram de levar ao colo as irmãs velhinhas.
— Foi uma grande aflição.
Ana Paula vai passar a noite a correr para a janela.
5. Na manhã seguinte, quando me levanto, está de balde na mão e estende-me uma garrafa de água.
— Para escovar os dentes.
Porque não há água nas casas-de-banho. Mas eu não tenho escova de dentes e também não tenho sede. Desço com Ana Paula a buscar um balde de água ao quintal. Ela vai lavar casas-de-banho.
O convento já está todo levantado.
Na sala de refeições, uma irmã mais tardia bebe o seu café em pé. A mesa tem margarina, manteiga, algo de fruta e pão. O pão que as irmãs da Toca de Assis fazem lá na casa do morro, de onde nunca saem. Vivem dele.
É bom.
(Público, 21-1-2011)

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