As águas de Janeiro levaram as “Águas de Março”

Caem pedras do céu, na subida para Petrópolis. Pedras de gelo, granizo, uma saraivada. Lá em baixo, para quem vem do Rio de Janeiro, o tempo parecia azul. Foi fechando à medida que o autocarro subiu a Serra Verde Imperial, assim chamada porque era o caminho para o retiro de D. Pedro II. O próprio nome da cidade vem do imperador: Petrópolis era a sua residência de Verão.
Sempre que a neblina levanta um pouco, aparece o abismo, cada vez mais alto. O motorista abranda, mal se vê o caminho, tanta é a chuva. Está quase tão escuro como ao anoitecer e as pedras continuam a fustigar o tecto do autocarro. Uma semana depois da catástrofe a natureza pisca os olhos, e de novo tudo pode mudar a qualquer momento,.
Mas no cimo o céu desanuvia subitamente. Foi como sair de um túnel. O autocarro passa ao largo de Petrópolis e continua pela BR040, a estrada nacional. Ao quilómetro 50 aparece uma favela entalada entre o morro e o rio. Milagre é como a enxurrada não varreu casas como estas.
O destino do autocarro é Três Rios. O PÚBLICO sai meia hora antes, junto à Lanchonete Nova Brasília, onde Vinicius de Moraes marcou encontro.
Não há nisto nenhuma fabricação. A repórter ainda nem sabe que este  Vinicius se chama Moraes, e que Tom Jobim quis conhecê-lo em criança por causa disso. Só sabe que a paisagem de São José do Vale do Rio Preto foi devastada, incluindo a casa onde Jobim compunha. Vinicius, que trabalha para a prefeitura vizinha, Areal, ofereceu-se para acompanhar o PÚBLICO lá.
Chega com um carrinho da Secretaria de Educação, enlameado de levar ajuda aos desabrigados. Ao volante vem Sidney, um afectuoso negrão que parece andar pelos 20 mas já passou os 40, e é pai de cinco filhos. No banco de trás há um saco com roupa de cama, e no porta-bagagens roupa de vestir e alimentos. Sidney precisava de levar tudo isto a uma fazenda de São José, e Vinicius pediu-lhe uma boleia.
Vamos subir o Rio Negro, ver o quer aconteceu ao longo das margens, e depois tentar achar o sítio de Tom Jobim. E é agora que Vinicius, 32 anos, se revela Moraes, e conta: “O Tom Jobim soube que em Areal tinha um menino chamado Vinicius de Moraes e queria conhecer-me. O gerente do banco de São José era muito amigo da minha mãe e foi assim que ele ficou sabendo de mim. Mas o encontro nunca chegou a acontecer.”
Jobim não chegou a Vinicius, mas Vinicius vai tentar chegar agora a Jobim.
O rio varreu
São 35 quilómetros a partir daqui, subindo o Rio Preto, com a água sempre do nosso lado esquerdo. E o que se vê é destruição contínua: água cor de barro, árvores caídas, pontes que desapareceram, casas abaladas ou derrubadas completamente invadidas pela lama, carros atolados.
Aqui não foram os morros a deslizar, sepultando casas e gente. Foi a subida do rio. Varreu as margens deixando montanhas de lama. Até agora foram encontrados seis corpos, pequeníssima parte do total na região serrana. Mas a devastação é assombrosa.
Por toda a parte há anúncios de donativos em igrejas e escolas. O trânsito é lento, debaixo de uma chuvinha. Lá na frente há um camião de água, a abastecer casa por casa. As canalizações ficaram rebentadas, e um dos problemas mais graves é a água potável.
Casa a casa, sofás, colchões e bocados de móveis estão atulhados cá fora, cor-de-terra. A enxurrada revirou o interior, cuspiu para fora. Homens de tronco nu e galochas andam de enxada, cavando. Todas as mulheres parecem ter uma vassoura, um esfregão. Tarefa de Sísifo, porque a lama parece invencível.
E depois há as pessoas que vagueiam, ou estão sentadas nos destroços. Uma semana depois da catástrofe é como se tivesse sido esta noite.
“Rapaz! Isso tudo eram casas aqui! Não tem nada!”, exclama Sidney, apontando a margem onde só se vê terra com pedaços de entulho.
À entrada, a cidade de São José parece uma daquelas vilas da Beira nos anos 70, mas depois de uma bomba de lama. Várias pontes destruídas dificultam a ligação entre as duas margens habitadas. “Aquela ponte era de ferro!”, aponta Sidney.
Há muita gente de máscara cirúrgica na cara. O cheiro é nauseabundo, mistura de esgoto com rações de animais.
A mulher salva por uma corda
O carro volta a parar no congestionamento. Do lado esquerdo, mesmo em cima do rio, duas mulheres estão imóveis junto a um prédio com o piso térreo destruído.
“O meu filho foi quem salvou aquela mulher que tinha um cachorro”, conta a mais velha. As imagens correram ecrãs pelo mundo: num prédio oscilante, uma mulher com um cão, prestes a ser levada pela corrente, foi salva por uma corda deitada por um homem que estava no cimo de um prédio cai-que-não-cai.
Era o filho desta mulher, Maria Ivone Branco Faraco, e o marido desta rapariga, Gabriela Machado Campini. Apelidos libaneses e italianos que um dia se encontraram no vale do Rio Preto.
“Ele correu risco de vida, porque o prédio balançava”, diz a mãe. “Foi um milagre de Deus. A água entrava aqui e saía ali. A moça estava em cima da casa dela, o meu filho jogou-lhe a corda.”
Chama-se Gilberto.
A mulher dele acrescenta: “Não puxou sozinho, foram cinco a puxar.” A mãe retoma: “Mas ele é que estava debruçado. Cortou o pé, ficou com a mão cheia de calos.” E o cachorro? “Mordeu na mão dela e caiu. Não conseguiu subir.”
Onde estão agora, salvada e salvador? Responde a mulher do rapaz: “Ela está ali para cima no morro, e o meu marido foi levar a nossa mudança, vai demorar.” A jovem Gabriela, trémula como se tivesse frio, não quer ficar nem mais um dia neste prédio. “A gente achou que ia cair porque estava balançando muito. Havia um carro no meio da corrente que ficava batendo nele, e uma árvore muito grande que também batia.” Gabriela saiu de casa com água pelo peito. Agora vão viver para a parte alta de São José.
“A nossa cidade acabou”, diz a mãe. “Foi o que o neto do Tom Jobim ontem falou na televisão. É uma pena, a Água de Março foi embora. Fica só a história.” Quer dizer que Maria Ivone, que está com 54 anos, conheceu Jobim? “Claro, a gente sempre via ele nos bares de São José, e comprando jornal. Os meus filhos têm até autógrafo dele.” Vinha todos os anos, vários meses, diz. Mas não vai dar para chegarmos ao lugar onde era a casa. “Não tem passagem ainda.”
Sabe-se que ruiu na catástrofe porque Daniel Jobim, o neto, contou. Ele estava perto e quando chegou tudo acabara.
Até ao joelho
Mais adiante, uma mulher loura, exausta, está simplesmente sentada num muro com duas raparigas, cotovelo no colo, queixo na palma da mão. À volta delas, os pés afundam-se na lama.
“Mas tem de ver as casas por dentro”, diz ela. Chama-se Maria Aparecida. “Aqui a lama é por aqui..” Mão a meio da perna. “Ali é por aqui…” Mão no joelho. “Nunca aconteceu isso. O meu irmão mora ali em cima, e às duas da manhã começou a ver as pessoas à beira do rio com lanternas acesas. Percebeu que estava acontecendo alguma coisa.”
Então começou tudo a sair, a ver a água do rio cada vez mais alta, alagando. “Mas as pessoas estavam como hipnotizadas, por isso não tiraram nada de dentro das casas. A água sempre sobe um pouco, a gente já está acostumada, brincamos com a água, e achámos que ia ser assim. Depois tapou tudo, tapou os carros. O corpo de uma mulher desceu e ficou ali em baixo, duro, com o olho estatelado. A gente chorando, gritando, as coisas de todo o mundo nadando na água…”
Durante anos, então, estas margens foram leito de cheia, a água sempre subia. Depois houve um dia em que subiu muito. Não seria de prever?
Coração das trevas
Em Areal — prefeitura de Vinicius e Sidney — a ideia de pôr um carro-de-som alertando as pessoas para deixaram as áreas de risco salvou todas as vidas. Mas há centenas de desabrigados, e entre eles está a família que agora vamos localizar.
Tinham-se mudado para São José, mas ainda estão cadastrados na prefeitura de Areal, portanto têm direito a ajuda de Areal, e Sidney não desistirá de chegar lá.
Então metemos pelo caminho de uma fazenda, ao crepúsculo. Uma fazenda é uma herdade. Mas a esta hora, nesta paisagem, depois do que vimos, tem algo de medonho. Vegetação densa, sufocante, rodeada de colinas, um caminho estreito, cada vez mais escuro. Andamos quilómetros, passamos casebres. Dentro das fazendas mora a gente que trabalha na fazenda. Há algo de muito antigo nisto, de colonial.
Grandes campos de chuchu (um vegetal verde em forma de pequena beringela) antecedem um matadouro de frangos. Camiões passam cheios de frangos abatidos. O cheiro obriga a cobrir nariz e boca. A noite cai.
Enquanto a alguns quilómetros São José limpa a lama, esta fazenda continua a abastecer incansavelmente o Rio de Janeiro de vegetais e frangos.
Mas por cima do matadouro fica a casa de um encarregado. É ele que está a hospedar as pessoas que Sidney procura.
Um abrigo no coração das trevas. 
(Público, 20 de Janeiro)

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