Dilma respondeu bem, mas há problemas na máquina

Na cidadezinha de Areal, região serrana do Rio de Janeiro, um carro-de-som salvou vidas. “Temos o encontro de dois rios no nosso município”, conta ao PÚBLICO o prefeito Laerte Calil de Freitas. “Pelas 8h, 9h da manhã [de quarta feira] começámos a receber muita água, e notícias de Teresópolis e São José do Vale do Rio Preto, a 40 quilómetros.”
Larte chamou um coordenador da Defesa Civil e outros técnicos. “Então tivemos a ideia de fazer uma gravação e colocar num carro-de-som, para as pessoas deixarem as áreas ribeirinhas, e enviámos camiões para trazê-las, com electrodomésticos e o que conseguíssemos tirar.”
Famílias e bens foram colocados em escolas e no centro de assistência social.
“A água subiu mais do que tínhamos pensado, e depois foram cinco horas de terror. Uma catástrofe mesmo. O rio arrastou ou derrubou 80 casas e 400 pessoas perderam tudo.” Mas ninguém morreu. “Graças a Deus. Já foi uma grande vitória, apesar do prejuízo.”
Areal não estava debaixo da tromba de água, apanhou só com o resto da enxurrada que já tinha arrasado povoações em Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo ou São José do Vale do Rio Preto — onde os desabamentos engoliram por exemplo a quinta onde Tom Jobim se refugiava e compôs “Águas de Março”.
Mas Areal conseguiu responder rapidamente. Como é que o líder local avalia a resposta do governo central?
“Quem está mais perto de nós é o governo do estado [do Rio de Janeiro], que tem sido excepcional, enviando equipamentos, pessoas, e recursos na área da saúde e das obras.” A ajuda do governo central é menos visível. Mas quando a pergunta incide sobre Dilma, Laerte aplaude: “Ela veio cá rapidamente, se colocou à disposição e disponibilizou recursos. Merece todo o nosso louvor.”
O aplauso é partilhado por Lúcia Hipólito, cientista política e comentadora, que tem dedicado o seu espaço nos “media” à região serrana. “A resposta da presidente foi muito positiva. Atendeu rapidamente o governador [do Rio, Sérgio Cabral], veio visitar, botou o pé na lama, foi vista e deu uma entrevista colectiva muito boa. Foi uma resposta surpreendentemente boa, que determinou acções do governo federal.”
Ontem, em Brasília, Dilma discutiu com os seus ministros a implantação de um sistema nacional de alerta e prevenção de desastres naturais e uma renovação da Defesa Civil.
E quem esteve na região serrana assistiu nos últimos dias a uma chegada em massa de uniformes e fardas, equipas de secretarias governamentais e tropas especiais, algumas sob a alçada de Brasília, para além das Forças Armadas. Muitos contingentes foram enviados, muitas vezes dependendo da população local, incansável, para chegar aos lugares.
Mas por exemplo na paróquia de São João Batista, em Friburgo, onde o PÚBLICO dormiu, o bispo local estava a tentar desbloquear uma série de donativos que tinham ficado retidos numa base. De outros pontos chegavam relatos de descoordenação na ajuda alimentar.
E havia filas para dar sangue, que no Rio de Janeiro chegaram a cinco horas de espera.
“Só há um lugar para dar sangue na capital, o HemoRio”, explica Lúcia Hipólito. “Como é que não se conseguem organizar hospitais universitários e clínicas privadas para recolha de sangue? As Forças Armadas estão na região, sempre responderam rapidamente. Os ministérios estão lá. A população está colaborando em massa. Mas nos escalões intermédios a coisa é ruim. Sangue, vacinação, verbas, distribuição de donativos, de água: a gestão da crise é incompetente nesses escalões.”
Dilma “deu as ordens, o problema é vê-las cumpridas”. A máquina de governação “ainda é muito pesada”, reflexo das assimetrias brasileiras: “Estamos com falta de mão-de-obra qualificada nesses escalões intermédios. A pessoa que lê a mensagem do radar, que opera máquinas sofisticadas. O Brasil cresceu muito, mas não desenvolveu esses escalões.”
O sistema de prevenção anunciado ontem em Brasília vai demorar quatro anos.
Negligência
“O serviço de meterologia sabia que ia haver uma grande concentração pluviométrica e isso não foi passado para os orgãos competentes, houve negligência”, diz Luiz César Tardin, professor de Direito e descendente dos suíços que fundaram Nova Friburgo. Passou os últimos dias a organizar donativos, sobrevoou a região e agora vai para Friburgo uma semana.
Como vê a resposta do governo à catástrofe? “Houve a intenção acções imediatas, mas a coordenação ficou prejudicada.” E os recursos libertados são insuficientes. “O governo permite que qualquer cidadão [afectado] retire 4800 reais [2135 euros] do Fundo de Aposentadoria, mas isso só dá para 2000 tijolos, 20 sacos de cimento, um camião de areia e de pedra. Não constrói uma casa. O governo devia permitir retirar o fundo todo e oferecer financiamento a juros baixos durante três anos.”
Antes da hora de fecho desta edição, soube-se que o limite subiu para 5400 reais [2400 euros].
Mas o problema não é só a reconstrução. “Esta é a região que abastece o Rio de verduras, frutas, ovos, leite, queijo, e a produção agrícola foi erradicada. Em 2010 teve dois milhões de turistas e esse número vai baixar radicalmente. Então não se trata só de perda imediata mas estrutural.”
(Público, 18-1-2011

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