Vida e morte na lama

As botas do polícia militar Fernandes estão impecáveis. Vê-se mesmo que chegou agora do Rio de Janeiro, porque aqui em Nova Friburgo toda a gente tem as botas, as chinelas e os pés nus empapados de lama. “Acabámos de chegar”, confirma ele, ao lado do colega com quem anda a patrulhar as ruas por trás da catedral.
Manhã de domingo, sinos, missa.
Friburgo deitou-se com chuva torrencial e medo de saques. Quem ficou à janela noite fora, olhando as ruas e os morros por trás, silenciosos, nevoentos, via uma cidade em estado de sítio, deserta.
Agora só chuvisca. “Está tudo calmo, nenhuma indicação de saque”, diz o agente Fernandes. Além da polícia, vários batalhões chegaram para reforçar a segurança, os resgates, a ajuda humanitária: bombeiros, defesa civil, exército e marinha, tropas especiais. Tudo o que é farda no Brasil parece ter subido a Nova Friburgo, cruzando-se com a mobilização de milhares de civis, vindos de fora, e a cidade em peso, ajudando.
Há uma electricidade no ar, que se mistura com o cheiro pesado da lama e de corpos. E começam a emergir os febris, clamando milagres.
“Na Igreja de Santo António a única imagem que sobreviveu foi a de Santo António!”, anuncia um rapaz à repórter, agarrando-lhe na mão. “O altar caiu, o tecto caiu, mas não caiu em cima da imagem! Eu entrei com outro rapaz, fomos os primeiros, já vê que estou todo quebrado…” Aponta a perna enfaixada. Chama-se Carlos, tem 21 anos, está pálido. “Pusemos o Jesus Eucarístico no bolso e eu trouxe Santo António no colo, dentro do casaco.”
Agora está a vir do cemitério, mas desistiu de entrar. “O cheiro é muito forte. Isto aqui mesmo já é o cheiro dos mortos…” O cheiro que nos cerca, pesado, apodrecido.
Pode ser só o lixo não recolhido, o esgoto misturado com água potável. Mas também podem ser os mortos que aqui na rua por trás estão por encontrar, debaixo de uma montanha de terra que derrubou um edifício. Uma escavadora trabalha lentamente, levantando toneladas, mas até agora nada. E isto, em pleno centro da cidade, na zona mais nobre, esquina com o antiquíssimo Colégio de Nossa Senhora das Dores, que em tempos recuados foi hospedagem da família imperial.
Do outro lado do jardim a lista dos corpos identificados começa em Adalberto Paulo Espíndola e termina em William da Silva. As pessoas fazem fila para ler, a ver se conhecem alguém.
Uma adolescente chinela no passeio de olhar vazio e uma barriga de sete meses. Chama-se Taís, e já não é adolescente, tem 21 anos. Mas este bebé também não será o seu primeiro. “Giovanááá!!!”, grita, chamando a filha de três anos que se adiantou.
E com a filha vem a vizinha Elisa, de bebé ao colo. “O barranco caiu em cima da casa e morreram nove na família do meu marido”, diz ela. São moradoras de uma favela nos arredores. “A gente veio num carro da marinha, estamos a dormir ali na antiga câmara.”
Helicópteros a abarrotar
Bolívar é de Roraima — o fim do Brasil, lá na fronteira com a Venezuela — mas está em Friburgo, junto ao camião de recolha de sangue, porque faz parte da Força Nacional, um batalhão especial de polícias e bombeiros sediado em Brasília. “A nossa especialidade é atendimento médico e estruturas colapsadas, só avançamos em situações de emergência mesmo. Tenho aqui homens da Amazónia, do Ceará, de Goiás…”
Ajuda a repórter a conseguir uma boleia para a base de onde estão a sair os helicópteros para resgate e ajuda. O tenente que vai no banco da frente voluntariou-se ontem para isto, e também é pastor da Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil.
A base foi improvisada em frente ao quartel dos bombeiros. Centenas de tropas de todas as espécies, um frenesim de carros e ambulâncias, e o que foi um relvado e agora é um lamaçal, com helicópteros a pousar e levantar constantemente.
“É a pior catástrofe do Brasil”, resume o coronel Álvaro, da Polícia Militar, que chegou ontem a Friburgo. “Isto não tem precedentes, é superior a tudo.”
O estádio do clube Friburguense também está a ser usado para helicópteros. Muitas estradas abateram ou desapareceram por completo, isolando populações a toda a volta de Friburgo. Os helicópteros são essenciais para resgate e entrega de comida, água e medicamentos.
E há lugares onde nem os helicópteros conseguem chegar, porque a lama é demasiado alta. Afundariam.
“Já trouxémos cavalos para ir onde os helicópteros não estão indo, está vendo ali?”, aponta o coronel. Um camião de cavalos e a Polícia Montada.
Um gigantesco camião do BOPE começa entretanto a avançar para a saída. Distingue-se por ser todo negro e ter a caveira que é o símbolo do BOPE, a mais dura tropa de elite da Polícia Militar. “O BOPE vai montar uma base logística em Conquista”, explica o coronel.
Conquista é uma das freguesias mais devastadas.
Junto a um helicóptero da Força Nacional um agente anuncia ao seu superior: “A gente localizou cinco cadáveres entre Friburgo e Sumidouro.” Querem saber se é possível trazer os corpos para esta base. Não podem levar repórteres a bordo por causa do espaço e do peso.
E dos Bombeiros à Polícia Militar, a situação repete-se: os helicópteros arrancam carregados de material, de vítimas ou de moradores. Os repórteres não são uma prioridade, e não são mesmo. Antes está por exemplo Sueli Baptista Gomes, esta jovem mulata com um bebé de cinco meses nos braços. “Moro em Vargem Alta, mas o caminho para lá acabou. E lá tem criança sem água…”
Ou o humorista Castrinho, uma celebridade no Brasil, que neste momento é só um ancião aflito para resgatar os sogros, e está a tentar explicar por mapa ao major Sanglard onde fica a casa.
Acabou tudo
Não podendo sobrevoar a região de helicóptero, a repórter segue de carro pela estrada que liga Friburgo a Teresópolis, onde se concentram as freguesias mais devastadas.
Pedras gigantes, do tamanho de carros, caíram do morro e ocupam metade da via. Em baixo, num vale, casas afundadas num lago cor de lama. Bosques alagados, atulhados. Pedaços de asfalto caídos no abismo.
Abrandamos, seguindo o mais possível ao meio da estrada, porque o asfalto começa a ceder pelas bermas. Passamos por cima de várias fendas.
A paisagem repete-se: se olharmos para cima não há um único morro intacto, todos têm fatias ruivas no meio do verde, bocados arrancados, derrubados; se olharmos para baixo, casas afundadas na lama.
Campo do Coelho, primeira das freguesias de emergência. Metendo por um caminho no mato, morros derrubados por cima de casas. “Ali atrás acabou tudo”, diz Diego, mecânico, 24 anos, o dono da casa a seguir à casa destruída. “Eu estava aqui, acordei como uma gritaria danada.”
Mais à frente o abismo é prodigioso. Um vale que certamente já foi paradisíaco, com casinhas encrustadas na encosta. Boas casas. Agora é uma paisagem medonha, com pedaços arrancados. “E lá no fundo, naquele morro, tem sete ou oito casas, mas não tem acesso”, conta Diego. “Desde quarta-feira estivemos carregando, tirando corpos, só hoje é que conseguimos limpar a nossa casa.”
Foi aqui, em Campo do Coelho, que na noite de terça para quarta, quando os morros caíram, morreu o antigo prefeito de Nova Friburgo e a família. “Sobraram dois filhos.”
E Diego, que andou a ajudar os outros, tem dois filhos isolados neste momento em Prainha, uma freguesia mais à frente, onde os moradores contam que está tudo arrasado. “Eles estão com a mãe. Fui lá de mota e depois a pé, pelo mato, na sexta feira. Estão bem, mas completamente ilhados, porque o caminho acabou.”
À saída de Campo do Coelho, o morador Guilherme veio ver dos porcos e do que resta da casa. “Perdi um sobrinho. Só estou aqui durante o dia, mas à noite vou dormir a casa da minha sobrinha. Também é perigoso, mas vamos fazer o quê? Aqui por cima tem muito desabrigado. E não tem água nem telefone.”
Alguém diz: “Não tem lugar para pôr os olhos.”
Tanto é o horror por toda a parte.
Os corpos ainda soterrados
Na freguesia seguinte, a escola está cheia de desabrigados.
“Se alguém me dissesse que árvores imensas iam cair no meu quintal eu não acreditava”, conta o morador Dalton ao coordenador nacional de desastres da Cruz Vermelha, Fernando Costa. “A gente nunca desmatou nada, só entrava no mato para plantar palmito!”
Mas o mato caiu-lhes em cima, desmatado em todo o mundo. Aquecimento global: um bater de borboleta.
“A gente tinha ficado muito impressionada com as chuvas de 2008 em Santa Catarina, mas aqui claramente o nível de destruição é maior”, avalia o responsável da Cruz Vermelha. “Aqui no Brasil, esta é a pior catástrofe que já vi.”
O próprio presidente da instituição, Walmir Júnior, anda nesta equipa de avaliação: “Estamos a montar um posto de emergência em Nova Friburgo”, anuncia. “O coordenador da Defesa Civil disse que os desaparecidos passam de mil.”
Segue-se a freguesia de Conquista, onde a população parece estar toda concentrada na berma, a olhar para baixo. É que lá em baixo Conquista desapareceu. É um vale alagado em lama, com casas e carros enterrados.
“Olha a minha casa lá!”, aponta Sílvio Carioca, um homem careca, de tronco nu. Trabalha com equipamentos de odontologia, coisa com um nome demasido longo para o momento, como ele próprio diz. “Olha só, a lama tapou o telhado. E tem gente ali soterrada ainda. Mas aqui atrás dessa montanha é que caiu tudo.”
Passámos sem reparar, porque não se vê. “É preciso voltar para trás e descer pelo caminho à esquerda. Lá no fundo tem Prainha. Aí é que está brabo.”
Está mesmo.
Entre Teresópolis e Friburgo, ao longo de vários dias, a repórter viu muita destruição, mas não o que se vê na freguesia de Prainha.
Desce-se por uma estrada de lama, entre cães molhados, crianças em estado de choque, casais a tiritar. Depois a lama transforma-se numa papa densa onde as botas se afundam até meio da perna. Quatro soldados abandonam o local. “Tem seis corpos ali, mas não se conseguem tirar”, explica o soldado Anísio. “A gente vai ver se uma retroescavadora  pode vir aqui.”
Junto à primeira casa em pé está Carlos Alberto, um mecânico de olho azul, atordoado, enlameado, como toda a gente, e descalço. “Tem seis corpos ali”, confirma ele.
Avançamos até ao morro por cima de troncos e tábuas. Sempre que pomos um pé fora, a bota afunda. Depois o caminho acaba. Estamos em cima do que foram casas, e por baixo há gente.
“Aqui existiam sete casas, sete famílias”, diz Alessandro, que veio do Rio para ajudar a família em Prainha. Alguns dos moradores dessas casas já foram encontrados, mas seis continuam desaparecidos. Por isso é que os moradores dizem que aqui estarão seis corpos.
Alessandro quer fazer um apelo: “Temos muita mão-de-obra, muito braço forte, mas não temos equipamento para isto.” O técnico Paulo, que está de fato-de-macaco, explica: “Aqui, você retira a lama e depois chega no tecto duma casa. Aí é preciso um martelete para quebrar o concreto. E a empresa em que eu trabalho só cedeu equipamento para furar rocha.”
Carlos Alberto estava aqui na noite de terça para quarta, na sua casa rente ao desastre. “Deu uma trovoada, e a gente ficou alerta. Aí a vizinha do segundo andar gritou que estava descendo o morro. Uns correram, outros não conseguiram correr. Esses seis estavam aqui e não conseguiram sair.”
Agora Carlos está em casa do filho e Prainha acabou.
Até chegar à fronteira de Friburgo com o município de Teresópolis, as imagens repetem-se: gente parada, aturdida, com crianças ao colo, entre gente a puxar tábuas, a varrer lama, a lavar, a ajudar.
Não há um morro intacto.
(Público, 17-1-2010)

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