Maior catástrofe das últimas décadas expõe atraso do Brasil

O crescimento vertiginoso do número de mortos, que à hora de fecho desta edição ultrapassava já 520, veio confirmar a catástrofe nas serras do Rio de Janeiro como a pior na história recente do país, e um dos dez piores deslizamentos de terra no mundo, segundo a ONU.
Indignação e perplexidade sucedem-se: como é possível que a Austrália esteja inundada e morram 27 pessoas e nas serras do Rio uma chuva brutal faça desabar os morros e morram 520?
“É um absurdo o que se gasta de dinheiro neste país em coisas absolutamente supérfluas, e não se gasta dinheiro em prevenção”, desabafa ao PÚBLICO Sergio Bruni, vice-reitor da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro, que conseguiu sobreviver aos desabamentos junto à sua casa de férias, em Teresópolis (ver depoimento nestas páginas). “Estamos atrás do Uganda nisso, ao mesmo tempo que somos a oitava economia do mundo. Não consigo entender. Se avisassem com antecedência, a gente teria saído antes. Depois, não adianta. Falta um sistema de prevenção sério.”
Sobretudo tendo em conta esta herança: “Usam-se politicamente as pessoas menos favorecidas, autorizando a construção nas encostas, e isso é crime. Perde-se a vida, mas não se perde o voto. Então a gente vê isto, gente morrendo, saindo só com a roupa no corpo.”
Casas em área de risco são “a regra e não a excepção”, admitiu anteontem a presidente Dilma Rousseff, depois de sobrevoar a região atingida. E reconheceu: “Houve no Brasil um absoluto desleixo em relação à população de baixa renda, que como não tinha onde morar foi morar em fundo de vale, beira de rio, beira de córrego e encosta de morro. Vimos regiões onde as montanhas se dissolveram, sem presença do homem, sem nenhuma ocupação irregular. Mas vimos também regiões onde a ocupação irregular do solo provoca danos à vida e à saúde das pessoas. Chuva forte e deslizamento vão existir. Nossa missão é evitar que mortes aconteçam.”
Não se trata de falta de dinheiro, porque os dados que agora estão a emergir mostram como o Brasil tem gasto muito mais a remediar do que a prevenir: segundo a Organização Não Governamental Contas Abertas, o país gastou 167,5 milhões de reais a prevenir e 2,3 mil milhões a remediar.
Ou seja, a prevenção teria saído 14 vezes mais barata.
Cidade do Rio resolveu
Porque é que a fortíssima chuva que de terça para quarta-feira derrubou morros em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo não causou mortos nas favelas do Rio?
Porque a cidade do Rio de Janeiro começou a prevenir há vários anos, diz o arquitecto Manoel Ribeiro, interventor em favelas desde os anos 90. “Há um historial de deslizamentos nas encostas, mas os técnicos da GeoRio fizeram um trabalho extraordinário nas favelas, de contenção e drenagem, e há 15 ou 20 anos que não ocorrem deslizamentos. Mesmo agora, com estas chuvas, você vê que não há.”
Portanto, com actuação concreta é possível eliminar o risco em áreas de risco. Mas o que se passou nas zonas serranas foi muito para além das áreas de risco. Os desabamentos ocorreram também em encostas sem construção e afectaram regiões planas, como o luxuoso Vale de Cuiabá, onde aconteceu o drama da família Connolly, que perdeu oito pessoas.
Os Connolly estavam a alugar essa casa à família da vereadora do Rio Andrea Gouvêa. “É um vale com uma tradição de turismo e ecologia, com muitas pousadas e uma população local há mais de cem anos”, descreve a vereadora ao PÚBLICO.
Em suma, uma zona perfeitamente consolidada, e de boa construção, que tradicionalmente não seria de risco, mas com as mudanças climáticas passou a ser.
“Há uma mudança significativa dos regimes climáticos, e as cidades periféricas não estão preparadas para isso”, alerta o arquitecto Manoel Ribeiro.
É essa também a visão do economista Sérgio Besserman, presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura do Rio de Janeiro, e um dos grandes especialistas brasileiros em alterações climáticas.
“O Brasil tem uma agenda do passado, do presente e do futuro”, sintetiza ao PÚBLICO. “No passado, o estado não ajudou quanto a habitação, e a população foi morar onde podia, sem qualquer planeamento, nos lugares de maior vulnerabilidade. É todo um ‘stock’ de problemas que se não resolve rapidamente. Junto com muito populismo, deixar construir para obter votos.” A cidade do Rio tem uma mapa de quantas casas estão em ricso no município, diz Besserman: são 18 mil. “Mas em outros municípios do estado não houve condições para fazer isso.”
Depois, a agenda do presente tem a ver com as ferramentas tecnológicas mais modernas, e sistemas de defesa civil mobilizando a população. “O Rio já tem esta agenda, mas a grande maioria das cidades do Brasil ainda não entrou nela.”
E finalmente, a agenda do futuro implica estudar a fundo as alterações climáticas: “Porque estes acontecimentos se vão tornar mais intensos, e áreas que não são de risco vão passar a ser, em função do aquecimento global.”
Entrar no século XXI
A actual catástrofe não tem a ver com enchentes, mas com deslizes. “É mais parecida com uma avalanche de neve.” O Brasil “tem os recursos económicos para lidar com isso e está muito atrasado na montagem de um sistema de Defesa Civil que permita articular governos locais e governo nacional”.
Por exemplo, em todo o mundo há cinco computadores com a maior capacidade de modelagem de mudanças climáticas. “Quatro estão no primeiro mundo e um está no Brasil, no Instituto de Pesquisas Espaciais São José dos Campos, em São Paulo. É com ele que a prefeitura do Rio trabalha. E sabemos que se a situação hoje é grave, vai ficar pior.”
Mas entretanto, muitas cidades à volta ainda estão no que Besserman chama a agenda do passado. “Precisamos de entrar no século XXI quanto a um sistema de Defesa Civil. As mudanças climáticas exigem novas respostas.” E considera um bom sinal a recente posse de Carlos Nobre, “um dos grandes especialistas mundiais em alterações climáticas”, como secretário no Ministério de Ciência e Tecnologia. “Ele já disse que adaptação às alterações climáticas é uma prioridade.”
(Público, 15-1-2011)

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