A noite de terça para quarta

1. Estou a escrever isto antes de apanhar um autocarro para a catástrofe. A linha Rio de Janeiro-Teresópolis estará a funcionar a partir das seis da manhã. Mais de 120 pessoas morreram lá, no fim da linha, na noite de terça para quarta. Cinco horas de chuva tipo catarata, 120 mortos (e somando toda a zona serrana a nordeste do Rio, a contagem vai a caminho de 300).
Na noite de terça para quarta, quando começou a chover, eu estava em trânsito, entre entrevistar uma urbanista sobre o futuro descomunal do Rio de Janeiro e entrar numa Loja Americana à procura de uma varinha mágica — literalmente aquilo a que os brasileiros chamam um “mixer” e nós usamos para fazer sopa.
A Loja Americana é um armazém do povo que precisa de poupar, e a rapariga da caixa fez-me poupar: disse-me que eu podia fazer sopa na liquidificadora que já existe cá em casa.
Eram quase nove da noite. Imagino que nas encostas de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo a gente jantava. Estamos em Janeiro, ou seja férias de Verão. Muitos cariocas têm casa lá na serra. Festas, crianças, cachorros numa excitação.
Como o Bento.
Eu tinha pensado escrever hoje sobre o Bento, a Preta e a Bela, os três cachorros cá de casa. Mas enquanto circulava entre o renascimento urbano e os pequenos electrodomésticos, veio a  chuva e mudou tudo.
2. Não, a chuva não muda, cai desde sempre. São os homens que mudam.
Os homens mudaram a natureza, mas não conseguem mudar as cidades para que não se morra da natureza. O Rio de Janeiro continua lindo e a gente continua a morrer. Chove e pára São Paulo, chove e morre-se em São Paulo, mas sobretudo chove e morre-se no estado do Rio de Janeiro.
Sérgio Cabral, governador condecorado com a conquista do Complexo do Alemão, gritou por socorro quando a chuva parou, na quarta-feira de manhã. A presidente Dilma Rousseff enviou ministros, helicópteros, 700 milhões e depois veio ela mesma. Mas a chuva é anualmente muita, fora o que os homens andaram a fazer à terra, e fora o que construíram onde não deviam e como não deviam.
Numa noite choveu um mês e quase 300 pessoas morreram disso.
3. Na noite de terça para quarta, quando subi a ladeira até casa, vinda da Loja Americana, já corriam dois rios velozes, um de cada lado do passeio, excesso de água rolando pela encosta. Nem uma brisa, chuva vertical, os trinta graus de Janeiro-à-noite, as plantas numa felicidade.
Fechei a porta, abri as janelas, vi as notícias. Na Barra da Tijuca, Amy Winehouse cantara um bocadinho mais do que na véspera. Em vez de apenas 1h, vá lá, 1h20. Mas os cariocas que pagaram acima de cem euros pelos bilhetes estavam desapontados, para não falar dos paparazzi. Nem uma briga, nem uma prisão, no máximo o biquini fora do sítio. De resto: Amy na piscina do hotel a encomendar pizza a todas as refeições, para humilhação do “chef”. Amy na piscina do hotel a embrulhar a pizza como um “wrap”. Amy na piscina do hotel a acompanhar a pizza com champanhe. O hotel tem cinco estrelas e fica em Santa Teresa, um bairro de colinas e casinhas, onde até sobe eléctrico, como Lisboa, mas mais verde, mais cheio de mato. No ano passado, desabaram encostas em Santa Teresa quando choveu.
Amy deve ter voltado da Barra da Tijuca para Santa Teresa à hora em que a chuva começou a cair como se fosse de uma vez.
4. Eu estava a falar com uma amiga no Skype e deixei de a ouvir. De repente, uma massa de água batia na pedra do pátio, abafando qualquer voz.
Pus auscultadores para continuar a falar. A minha amiga tinha aberto uma porta. Viver é perigoso: abrimos uma porta, o coração para. Vivemos para que isso aconteça.
Falámos durante uma hora. Eu via a chuva e de vez em quando o clarão de um relâmpago tomar o jardim. Não ouvia os trovões, mas a Preta e a Bela deviam estar bem aninhadas em algum canto, porque têm medo.
Não pensei no Bento, porque ele fora enviado para Petrópolis de castigo, depois de alegres malfeitorias.
Quando me fui deitar, a catarata continuava a jorrar. Esta casa fica numa pequena encosta. A minha ladeira faz esquina com a ladeira que sobe para a favela. Há mototáxis lá em baixo, mulatões à espera de clientes, dois reais. Sempre que subo uma favela penso na chuva. Casas a pique nos morros.
5. — Mas na favela é rocha — disse o Marcos, que mora aqui e cresceu na Rocinha. — Eles furam mesmo a rocha. Enquanto que lá na serra é terra.
Esta conversa aconteceu há pouco, quando lhe fui dizer que ia pegar um ónibus para a região serrana. Na manhã de quarta-feira, já se contavam vinte mortos, e a partir daí foi sempre a subir.
Agora não chove, mas vai chover.
Leio sobre aqueles que a chuva levou: a estilista e a babá; o empresário que foi de helicóptero resgatar a mulher e a filha mas perdeu quase toda a família; centenas de pessoas em vigília à espera do reconhecimento dos corpos; bairros inteiros desaparecidos.
E penso no Bento, de castigo lá na serra. Porque algures nesta vida perigosa ele entrou em minha casa mesmo sem eu abrir a porta.
(Público, 14-1-2011)

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