“É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou.”

“… não tinha luz, não tinha água….”
“… a estrada sumiu…”
“…. eles morreram…”
Autocarro Rio de Janeiro-Teresópolis, ontem de manhã. Silêncio, e gente ao telefone, a saber da gente. Silêncio e uma mulher a soluçar.
Avançamos para Norte e depois para Nordeste. Teresópolis fica entre Petrópolis e Nova Friburgo, a meio da região serrana que de terça para quarta feira foi devastada pelas chuvas. A grande subida começa uma hora depois da partida. É a formidável Serra dos Orgãos, com morros que metem medo, de tão altos e nus. Cá em baixo a vegetação é luxuriante. Hortênsias azuis vizinhas de bananeiras. Atlântico tropical.
Mas que estamos bem na serra vê-se pelos anúncios de queijos.
É paisagem de veraneio e férias. Muitos cariocas têm aqui casa, ou alugam pousadas. Há chalés, mansões, campos de cavalos. Mas também há encostas favelizadas, com barracos de tijolo. Ricos e pobres.
O autocarro contorna as curvas devagar, o abismo cresce, primeiros sinais de encostas caídas, uma Ambulância de Resgate. Mais um inquietante horizonte de morros. “Grota do Inferno” anuncia uma placa.
O céu está cai-não-cai, cinza, chumbo.
Subimos e subimos. Aparece o pico conhecido como Dedo de Deus, uma rocha em forma de dedo gigante, célebre entre alpinistas. À esquerda uma cachoeira transbordante e o autocarro entra em Teresópolis.
Nenhum vestígio de destruição na cidade. Mas vestígios da calamidade, sim: raparigas com faixas a pedir comida e roupa, engarrafamentos com carros que vieram trazer ajuda, jipes da Defesa Civil e carros de Bombeiros.
Na prefeitura, Sílvia e Mara actualizam o número de vítimas só em Teresópolis: 158 mortos [que ao começo da noite já serão 208], 1300 desalojados, 1200 desabrigados. “Desalojados são os que ficaram sem casa mas estão a ficar com parentes. Desabrigados são os que não tinham para onde ir.”
Estão no polidesportivo Pedrão, a duas ruas daqui. Carros e carrinhas a descarregarem sacos e caixas. “Roupa! Roupa! Roupa!” Os sacos passam de mão em mão. Em horas, a sociedade civil carioca mobilizou-se. E passando a entrada é difícil não ter um choque. Porque lá dentro é um gigantesco acampamento, com velhos e crianças enrolados em mantas. Toda a pista está coberta por colchões, gente e trouxas enroladas. E as bancadas a toda a volta repletas de sacos.
Por exemplo Robson, este mulatão de tronco nu, ao lado de uma menina. Está aqui com 10 pessoas da família, e cinco são crianças. “A terra caiu e derrubou tudo, casa, carro, não sobrou nada”, conta.
Foi a meio da noite, de terça para quarta, quando uma tromba de água rebentou sobre os morros. “Eram três da manhã, estávamos em casa a dormir. Quando caiu a primeira terra a gente conseguiu fugir. Escutámos na hora em que a água bateu. Começou a cair árvore, tudo começou a fazer barulho.”
Mas Robson fala sereníssimo. “Não precisamos de nada. Tem água, tem comida, tem roupa. Está tudo bem.” Só falta a mãe. “Ficou isolada, num lugar onde agora ninguém entra nem sai, no bairro de Caleme.”
A pé na enxurrada
Caleme é uma freguesia metida no mato, junto ao morro. Para lá chegar faz falta um táxi que não se incomode com a lama e sobretudo a ajuda preciosa de Jorge Maravilha, um camaraman da prefeitura que chama a toda a gente Maravilha e toma a peito a missão de fazer chegar a repórter lá ao fundo.
O taxista avança entre encostas de barracos que dão lugar a sebes luxuosas, até que à nossa frente aparece um morro com uma grande lasca de terra arrancada. Uma das que desabou, engolindo casas, carros, postes e estradas.
“Nossa Senhora, vai ter de desabitar tudo aquilo!”, exclama Maravilha, apontando as casas na encosta. “Vamos torcer para que não chova mais.” Mas já está a chover. “Ontem filmei cadáveres em cima de árvore como bola de natal.” O taxista reforça: “Sou da terra e nunca vi nada assim.”
Passamos um clube de golfe e um clube hípico, contornando uma escavadora coberta de lama. Tufos de hortênsias, lá em cima helicópteros. Uma placa anunciando Condomínio Roseiral.
Casas luxuosas. “Superluxuosas”, emenda Maravilha. “Cinematográficas.”
E agora a rua acabou. O táxi, que já chegou aqui porque é um 4×4, tem mesmo de parar. Imaginem um piso de paralelipípedo. Agora imaginem esse piso destruído por uma bomba. É o que temos à frente dos olhos. Caminhamos sobre montanhas de pedras, misturadas com troncos.
Será uma longa caminhada. Lama, água barrenta, árvores arrancadas ao longo das bermas, postes de electricidade caídos à nossa frente. E um carreiro de gente indo e vindo, de chinelas ou de galochas, transpirada, enlameada.
“Lá em cima vão com calma, porque o clima ‘tá foda”, avisa um conhecido de Maravilha, que vai voltar à cidade. “Tem corpos no chão.”
Continua a chover.
A mulata Rosa vai de chapéu aberto e chinela ao nosso lado. “Vou ver da minha irmã, das minhas sobrinhas. Fui até à delegacia [onde estão os nomes dos mortos], mas os nomes delas não estavam lá.” Milhares de pessoas circulam assim, em busca de parentes. Há centenas de desaparecidos. “É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou. E os telefones não estão funcionando.”
Aqui choveu em uma noite o que devia ter chovido num mês.
Rosa pára de repente porque o caminho está interrompido por uma enxurrada. Para continuar, temos de meter pela sebe de uma grande propriedade. O dono está a deixar toda a gente passar pelo caminho interno em direcção ao morro, explicam os guardas Ivan e Cláudio, que vão orientando quem passa.
“Aqui ao lado morreu muita gente”, diz Ivan, apontando a encosta. “Tem ricos e pobres, mas 90 por cento dos mortos são os menos favorecidos.”
Porque não têm quem alugue um helicóptero — como fez por exemplo um músico da banda Kid Abelha para resgatar os filhos, aqui — e sobretudo porque moram em casas piores, e em lugares mais arriscados.
“É um absurdo a prefeitura permitir que construam nessas áreas”, indigna-se Ivan. O camaraman Maravilha tenta relativizar: “Ah, não tem como prever. O morro desceu todo.” Ivan insiste: “O que é que o prefeito fez para proteger o pessoal que mora aqui?”
Marco António Roit, dono da propriedade, aparece a caminhar no relvado aparadíssimo. Parece uma propriedade inglesa, mas com os trópicos nas costas. “Isto era de uma família de grandes industriais e fazendeiros, os Guinle, donos do Copacabana Palace”, explica. Tem 47 anos, é empresário de construção civil. Na noite de terça para quarta estava em São Paulo. Só conseguiu chegar aqui na tarde de quarta. “Abri logo a passagem porque a rua estava destruída. Para que a comunidade pudesse passar, ambulância, defesa civil… As pessoas estavama desesperadas. O pessoal da propriedade recolheu três corpos e colocou-os ali no gramado.”
Atravessamos o atalho dentro da propriedade até ser possível voltar à ex-estrada. Passamos por baixo de um poste de electricidade. Trepamos a raízes arrancadas.
“Tiraram mais dois corpos agora”, diz um rapaz que vai em direcção contrária. “Era um casal dormindo junto.”
Como em Pompeia.
Continua a chover, mas a maior parte das pessoas caminham sem chapéu. “‘Tá ‘brabo’ ali…” alerta um homem, apontando para a frente.
O bebé no muro
Agora o morro meio desabado está mesmo à nossa frente, e a estrada é uma torrente de água. As pessoas estão a passar por uma longa tábua suspensa. “Não olha para baixo, olha em frente”, vai avisando Maravilha, que quer ajudar toda a gente.
À direita, uma casa destruída, com o rio de barro atravessando as salas, arrastando árvores. Gente exausta, encharcada, de luvas. E à esquerda gente a chorar, saindo de um portão.
É a entrada de uma casa com um relvado. Um grupo rodeia um impermeável preto. Quando nos aproximamos vemos formas humanas debaixo do impermeável, pés a saírem, embrulhados em mantas.
“Aqui estão três adultos e um bebé”, diz o cabo Rodrigo Melo, da Polícia Militar. É daqui mesmo, da freguesia. Conhecia dois mortos pelo nome, o tal casal: “Liliane e Robson. E o bebé tinha dois meses. Encontrámo-lo agora, há uns 15 minutos.” Não era filho do casal. “É de uma família ali”, aponta o cabo. “Foi tirado daquele muro. Veio arrastado e parou ali no muro.” Baixa a voz. “Estava prensado.” Fica em silêncio.
Ficamos todos em silêncio.
“Olhe, a tia do neném está chegando ali…”, diz o cabo Rodrigo.
As pessoas juntam-se todas em volta de uma rapariga. Um dos voluntários levanta o plástico preto. A rapariga debruça-se. Confirma que é o sobrinho. As pessoas desfazem a roda. Ela afasta-se. O plástico fica afastado, deixando ver uma trouxinha embrulhada num lençol branco. “Chamava-se Iuri”, diz um dos voluntários.
Homens e rapazes cheios de lama. “O dono desta casa liberou para a gente botar aqui os corpos.” Todos estavam aqui na noite de terça para quarta.
“Escutei como se fosse um estalo muito forte”, conta o cabo Rodrigo. “Era a cabeça-de-água que estourou na pedra. Eram umas três da manhã. Aí saímos de casa e começaram os gritos. As pessoas queriam descer para ajudar, mas deparavam-se com a força do rio. E as pessoas a gritarem por socorro, a serem arrastadas, jogadas contra o muro, a tentarem subir…”
Clayton, 24 anos, estudante de Direito da universidade de Teresópolis, “nascido e criado aqui”, não dorme desde que começou a ajudar. “Retirei corpos da lama, fui buscar água, ajudei na condução, agora estou tomando conta dos corpos. Todos os que estão ajudando são moradores do bairro. Solidariedade nunca é demais. O bairro inteiro está sem dormir. Não tem luz, não tem telefone, a água acabou. Eu moro ali naquela rua destruída pelo rio, mas a minha casa não corre perigo. Acho eu.”
Contou 22 corpos só neste lugar, desde ontem.
Subindo à rua destruída, Wanderleia, 42 anos olha para o rio, em catadupa, cercado de raízes e árvores. “Morreu uma senhora ali, que a água levou”, aponta ela. “E aqui mais dois.” Não ouviu o estalo ou estrondo de que muitos falam. Acordou a meio da noite com “um cheiro muito forte de raízes, de mato”, e a cunhada a gritar. “Peguei nas crianças e saímos correndo.”
De regresso, caminhando, cruzamo-nos com dezenas de voluntários com sacos de mantimentos e roupa, em direcção ao morro.
Uma negra meio surda brada no meio da rua, ou do que foi a rua. “TUDO TEM UM TEMPO!” Chama-se Sueli Machado e tem 62 anos. Primeiro dormiu lá no polidesportivo, depois mudou-se para um abrigo da Igreja Metodista. “Perdi a parte da frente da minha casa, o meu carro foi embora no rio, e o rio virou um mar de areia. Agora vim ver. Preciso de tirar as minhas coisas.” E já ao longe grita: “PERDI O ANEL MAS FICARAM OS DEDOS. E A FÉ EM DEUS!”
No autocarro para o Rio de Janeiro, um homem completamente enlameado abraça um menino de galochas totalmente cobertas de lama. “Descemos pelo mato 50 minutos, a abrir caminho com uma faca, e depois caminhámos três horas”, conta.
Deixaram tudo para trás. Soltaram os animais. É a casa de férias, num condomínio. “Morreu muita gente lá e a estrada acabou. Ficou totalmente destruída.”
Ao sair do autocarro, com a sua roupa suja, e os seus sapatos empapados de lama, o homem estende-nos o cartão, feliz de ter chegado à rodoviária. Chama-se Sergio Bruni. É o vice-reitor da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro.
(Público, 14-1-2011)

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