Uma noite de chuva matou mais de 200 pessoas nas serras do Rio de Janeiro

Todos os anos a chuva mata no Brasil, mas a noite de terça para quarta-feira foi tão brutal na região a norte do Rio de Janeiro que depois de a sobrevoar o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, disse: “Nunca vi nada igual.”
Em apenas uma noite choveu o equivalente ao previsto para todo o mês de Janeiro, e as inundações e desabamentos de encostas em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo fizeram pelo menos 230 mortos, à hora de fecho desta edição.
Centenas de casas foram destruídas, desalojando milhares de pessoas. Dezenas de milhares ficaram sem luz, telefone e água. Caíram postes de electricidade e árvores, arrasando edifícios e carros. Uma tromba de água levou uma represa a transbordar, alagando a região em volta. Em alguns bairros, as fotografias tiradas de helicóptero mostravam ruas cobertas de água barrenta. A catástrofe obstruiu estradas e caminhos, impedindo acessos e socorro. Há gente soterrada e à espera de socorro, mas muitos lugares só eram alcançados por meios aéreos.
De manhã o temporal parou e durante todo o dia o céu manteve-se aberto, mas o Instituto de Metereologia prevê mais chuvas fortes nos próximos dias.
“Esse é o momento de ver o que pode ser feito para resolver a situação dessas pessoas, buscando, principalmente, desobstruir as estradas e garantir o acesso de serviços e apoio para devolver a normalidade à população”, disse o vice-governador Pezão, depois do voo de helicóptero.
O governador Sérgio Cabral pediu à Marinha meios para o deslocamento de homens e equipamentos, e falou com a presidente Dilma Rousseff, que enviou equipas dos ministérios da Integração, da Defesa, da Saúde, do Desenvolvimento Social, do Meio Ambiente e dos Transportes. Brasília vai destinar 700 milhões de reais (320 milhões de euros) a ajudar a região afectada.
As polícias Civil e Militar foram chamadas com helicópteros e as operações de socorro envolveram corporações de bombeiros de todo o Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense (a leste da capital).
A imprensa brasileira mobilizou helicópteros e acampamentos para a cobertura.
Mar de lama
Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo — onde muitos moradores do Rio têm quintas ou casas de férias — fazem um arco para nordeste da capital carioca. Em Teresópolis, onde aconteceram a maior parte das mortes, foi decretada calamidade pública.
Segundo a prefeitura, em nota enviada ao PÚBLICO, as chuvas que atingiram Teresópolis durante cinco horas consecutivas representaram “o equivalente a um mês de chuvas, causando uma série de danos, com alagamentos, quedas de barreiras e interdições de várias áreas”. Às três da manhã o prefeito “accionou o Gabinete de Emergência e iniciou o Plano de Atendimento às vítimas”. Há “cerca de 800 pessoas na operação de atendimento aos atingidos pela chuva”, e as famílias desabrigadas e desalojadas estão sendo encaminhadas para uma escola. “Uma estrutura emergencial está sendo montada, com tendas e salas para o recolhimento de alimentos e donativos.”
No Vale Cuiabá, em Nova Friburgo, o caseiro Manoel Cândido da Rocha Sobrinho, disse à “Folha de São Paulo”: “Moro aqui há 25 anos. Nunca tinha visto algo assim. Moro em um local mais alto, mas quando olho para baixo só vejo um mar de lama. A maioria das pessoas se salvou subindo em árvore ou correndo para lugares mais altos.”
Foi em Friburgo que quatro bombeiros morreram quando um prédio desabou, em plena operação de socorro.
Todos os anos a chuva mata — não apenas no Rio, em São Paulo os temporais dos últimos dias têm causado várias situações de emergência — e todos anos se discute o que fazer. “É tragédia para lá de anunciada, mas como nada é feito, os brasileiros continuam morrendo em decorrência das chuvas fortes”, escrevia ontem Miriam Leitão, colunista do “Globo”. E citava um professor de Planeamento Urbano da USP, de São Paulo, João Sette Whitaker, segundo o qual “as cidades não entenderam ainda a importância que essa questão das águas tem e, por isso, não levam adiante nem políticas de urbanização de longo prazo nem medidas preventivas”.
(Público, 13-1-2010)

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