Cachoeira, flores ao mar e fogo

1. Toda a gente devia poder viver uma virada no Rio.

Virada é a passagem de ano, que aqui começa dias antes. A minha começou na noite de 30, quando Dylan Tupiniquim abriu as magias.
Estávamos na livraria Argumento. Uma aniversariante celebrava. Não sei de que falava a mesa dela mas na nossa éramos três, e dois eram filhos-de-santo. Dylan, fiquei a saber naquele instante, frequenta terreiro de umbanda, e a amiga dele Thereza frequenta terreiro de candomblé.
Eu nunca ouvira falar de umbanda. Tal como o candomblé, tem os seus orixás, os seus terreiros, os seus espíritos tomando corpo. Um corpo não escolhe os espíritos, os espíritos escolhem um corpo. Dylan e Thereza são escolhidos, um no umbanda, outro no candomblé. Além de poeta, ex-bailarino e futuro actor, ele incorpora. Além de poeta, leitora de búzios e especialista na tragédia de Abelardo e Heloísa, ela incorpora.
Até à meia-noite, hora a que a livraria fechou, Dylan e Thereza introduziram-me a Oxossi, senhor da floresta, Oxum, mãe da água doce, Iemanjá, mãe da água salgada, Iansã, mãe do fogo, orixás muito activos durante a virada, quando recebem as oferendas de milhões de brasileiros.
Eu ia dizer milhões de brasileiros religiosos ou ateus, mas a verdade é que ainda não encontrei um brasileiro ateu.
— Sabe onde é que você tem de ir amanhã? — rematou Dylan, irradiante. — Tomar banho de cachoeira. Limpa tudo.
2. O carioca está tão habituado a dizer que vai acontecer que é um acontecimento quando de facto acontece. Então na manhã seguinte Dylan liga às 11h, tal como prometera, e a primeira coisa que diz é:
— Viu? Não cumpro as minhas promessas?
Tendo em conta que a nossa noite pós-orixás acabara às quatro da manhã na rocha da favela do Vidigal, mais que promessa, é proeza. E ainda passa no bairro para me apanhar, trazendo um amigo também.
Pianista acompanhante de um cantor que não ia dar certo mas deu, o amigo chama-se Grilo e acaba de se tornar psicanalista. Só saiu de casa porque nunca foi à cachoeira e Dylan o arrastou.
Vindo menino e moço do interior, Dylan Tupiniquim faz do Rio uma festa. Zero de displicência.
Apanhamos um táxi e subimos naquela placa que diz “Horto/Vista Chinesa”. Desde que cheguei que tenho vontade de ir ver o que seria essa tal vista. E agora a cidade desaparece. Nenhuma casa. Floresta densa.
— É a Tijuca — diz Dylan. — A maior floresta urbana do mundo.
Urbana porque não saímos da cidade. De repente podia ser a encosta mais tropical da Ilha das Flores, naquela parte cheia de cachoeiras e trilhos. Mas não é uma ilha no meio do mar, é o Rio de Janeiro. De facto, porquê sair algum dia desta cidade?
A Vista Chinesa é um mirador com um pagodezinho de onde se vê o recorte extravagante do Pão de Açúcar, da Lagoa, dos morros entre a Lagoa e Copacabana, e as praias de Ipanema e Leblon. Depois, continuando a subir, o próprio céu desaparece, oculto por tantas copas. Até que o táxi pára junto a uma cachoeirinha. Quando vai embora, para nós é só o começo.
— Agora vamos subir — anuncia Dylan, tirando as havaianas. Ao lado do pé dele ardem duas velas. Promessas aos orixás.
Para cima são pedras, troncos, terra coberta de folhas. Há que trepar, um pé no ramo, uma mão na pedra, outra na pedra acima. Mãos e pés vão ficando cheios de terra à medida que o corpo sobe, flectindo cada músculo adormecido. Uma entrega à floresta.
Há lajes tão oblíquas que é preciso agarrar uma corrente de ferro. Há uma árvore enraizada numa pedra em que é preciso subir pelas raízes como se fossem degraus, e depois tentar não ficar preso dentro da árvore.
E finalmente há a cachoeira, uma grande poça com pedras e troncos, muito mais fria que o mar. Chão de areia, água pela anca, avançando até à fenda onde a cascata desaba. E aí, a pressão não dá para manter os olhos abertos, nem o silêncio. É tão avassalador que as pessoas gritam e riem de si mesmas, como se estivessem a nascer, ou a passar para outro lugar.
Na descida, o corpo está novo, parece que respira.
Dylan Tupiniquim abraça-se às árvores. Canta para Oxossi.
Na laje muito inclinada experimentamos descer e subir com os pés oblíquos, colados ao chão, como se não pudéssemos cair.
Chegando ao asfalto nem sombra de táxis. Voltamos a pé. Cheira a uvas esmagadas na vindima. É das jacas, essas frutas que nascem no tronco das árvores e parecem uns pandas verdes e cegos, pendurados por um fio.
Na verdade são mortais.
Uma vez Dylan viu uma rapariga à sua frente levar com uma jaca na cabeça. Como não caiu de muito alto, ela não morreu, só desmaiou.
3. A cachoeira limpou tudo, estamos prontos para as flores. Pelas ruas de Ipanema, bancas e baldes cheios de palmas brancas, a flor tradicional de Iemanjá. Compro sete porque estou longe de casa, e o sete multiplica. Chinelamos a caminho do Arpoador.
Em que cidade do mundo podemos chinelar pelo centro, de calções e pano-de-praia no dia 31 de Dezembro, e o mar estar morno?
Mas morno não quer dizer manso, e Iemanjá enrola-me à primeira onda, espalhando as flores por sua iniciativa, e de caminho quase levando o biquini.
Água salgada, dourada, transparente, depois da água doce de Oxum.
4. Ao fim da tarde chove. Há dias em que não chove no Rio de Janeiro, mas ainda não vos sei dizer quando é isso. Chove tanto que quando é chuvinha como agora nem é chuva, e às dez da noite os quiosques ao longo da praia estão cheios.
Não combinámos que íamos ser todos portugueses a meio de Copacabana, à espera dos fogos da virada, mas calha que de repente somos mesmo. Todos nunca vimos os fogos, ao contrário dos nossos amigos brasileiros. E de repente, estão dois milhões de pessoas à nossa volta, o que assim dito parece terrível, mas não. Dois milhões ao longo dos vários quilómetros da praia de Copacabana. Amanhã vamos ser um pontinho na capa do jornal “O Globo”, quase todos vestidos de branco — a virada tem todos estes rituais: banho de cachoeira, flores ao mar, calcinha nova para as meninas, roupa branca para todos. Mas o espaço é tanto, mesmo entre dois milhões, que conseguimos caminhar até à água e esperar os fogos com a maré por cima dos pés.
À nossa frente está uma linha de barcos iluminada.
Primeiro o céu fica vermelho e rosa, num balé. Depois, à meia-noite os barcos começam a disparar para o céu e jorra champanhe por cima de nós enquanto a maré vai e vem.
Vamos estar de boca aberta para o céu nas fotografias. Rimos porque o céu cai às cores no nosso nariz durante 16 minutos, numa espécie de infância geral.
Os ricos estão à janela, em festas, em coberturas. Cá em baixo, o povo do morro mistura-se com o povo turista. Copacabana é o grande anfiteatro do mar. Rapazes correm e mergulham com raparigas ao colo, meninas negras de trancinhas alisam os seus vestidos brancos.
Às três da manhã, táxis e autocarros passam lotados, e milhares de pessoas caminham pelas ruas do Rio de Janeiro.
(Público, 7-1-2011)

Um comentário a Cachoeira, flores ao mar e fogo

  1. adorei a forma como descreveu a cachoeira do horto, senti me de novo ali.
    como nao amar essa cidade. cidade mais que maravilhosa cidade incomparável.
    obrigado pelas suas palavras.

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