“Amem a Dilma como vocês me amaram”

O amor é impaciente mas espera o que for.
Vejam Zelinha, a mulher que tomou conta dos filhos de Lula, à porta de casa dele, apesar da chuva e do frio, e com ela milhares de pessoas.
Qual música sertaneja, qual orquestra caipira, qual prefeito. O que toda esta gente está aqui a fazer, de impermeável e capa de chuva, apertada aos três e quatro debaixo de um só chapéu, ou tiritando de cabeça molhada mesmo, é esperar pelo vizinho mais amado, “O MAIOR PRESIDENTE DA HISTÓRIA DESTE PAÍS!!!!!”, como proclama de dez em dez minutos o animador em cima do palco.
Mal terminou a posse de Dilma, em Brasília, começou a concentração aqui, aos pés do 12ª andar onde mora Lula, em São Bernardo do Campo. Foi nesta cidade industrial paulista que ele se fez torneiro mecânico, líder sindical e depois político. Três vezes perdeu a presidência do Brasil antes de a ganhar. E agora, ao fim de oito anos no Palácio do Planalto, vai voltar ao seu “apartamentozinho”.
“Já falei com ele hoje”, diz Zelinha, como se estivesse à espera do próprio filho. “Liguei para a madrinha dele, ela passou o telefone, eu falei: ‘Você vai ser para sempre o meu presidente.’ E ele falou: ‘Pára, Zelinha, se não eu vou chorar.’”
Toda a rua está tomada, palco improvisado no asfalto, com uma luta constante entre a imprensa que quer subir e a organização que diz que a estrutura não aguenta.
A organização é do PT local, como se vê pelas bandeiras vermelhas de estrela branca, misturadas com balões e t-shirts militantes. Mas a grande massa é não-profissional, crianças aos ombros dos pais, mães rijas cheias de filhas adolescentes que sabem os refrões sertanejos, velhotes a coberto da chuva sob o beiral do Hospital ABC, mesmo ao lado do prédio de Lula.
 “ESTA É UMA FESTA SIMPLES, HUMILDE, COMO O PRESIDENTE GOSTA!!!”, brada o animador. “E EU QUERO DIZER PARA VOCÊS QUE O PRESIDENTE JÁ ESTÁ CHEGANDO EM SÃO PAULO!!!!” ELE VAI VISITAR JOSÉ ALENCAR E DEPOIS VEM PARA CÁ!!!!” Alencar, que foi vice-presidente de Lula, está internado num hospital. “E AGORA: DONIZETTI BRAGA!!!! VEM AQUI DONIZETTI!!!!” Donizetti é um deputado local.
Depois dele, virão nomes como Maurício Patrocínio, o deputado Genuíno e, estrela das estrelas, Sérgio Reis, cowboy da música sertaneja. Nos intervalos, o animador ensaia com o público: “VAMOS LÁ: OLÉ! OLÉ-OLÉ-OLÁ! LULÁ! LULÁ! OLÉ! OLÉ-OLÉ-OLÁ! LULÁ! LULÁ!” A chuva contém-se e logo regressa em força. “O MELHOR PRESIDENTE DA HISTÓRIA DESTE PAÍS ESTARÁ AQUI CONNOSCO, MAS PARA JÁ VAMOS OUVIR UM POUQUINHO DE VIOLA!!!!”
É o hino do Brasil e toda a gente canta. São dez e meia da noite (meia noite e meia em Lisboa). As pessoas começaram a chegar aqui às sete da tarde.
De mão em mão
O primeiro sinal de que Lula deve estar a chegar é a aparição da sua mulher, Marisa, que esperava lá em cima, no 12º andar, e agora desce para subir ao palco. “OLHA AÍ A MARISA!!! MARISA! MARISA! MARISA!”
A massa prepara o clímax. Os seguranças abrem um cordão. O animador tenta salvar os canteiros, todos espezinhados.
Carros ao cimo da rua. É Lula. “LULÁ! LULÁ! LULÁ!” E eis a cabeça grisalha de Luiz Inácio Lula da Silva a ondular no meio do povo, engolido por abraços, avançando de mão em mão, dando as mãos a quem pode.
O palco enche-se de fumo, como nos grandes momentos. O animador berra: “DEIXA O PRESIDENTE PASSAR! DEIXA O PRESIDENTE PASSAR!” O céu rebenta num ta-ra-ta-ta-ta de fogo branco. Lula, sorriso escancarado, camisa de ganga, é praticamente levado pela multidão até à escada do palco.
E logo atrás, quem é aquele, será possível?
“É o Sarney!!!, exclamam as pessoas, incrédulas. José Sarney, 80 anos, ex-presidente, actual presidente do Congresso, ancião da velha política, para muitos símbolo do que ela teve, e continua a ter, de pior. Aliado, pelo PMDB, da coligação que apoiou Lula e agora Dilma.
“Estão a içar o Sarney!!!”, deliram as pessoas, e é exactamente isso. Sarney é içado para o lado de Lula.
E com a chuva a cair oblíqua, e Lula abraçando toda a gente em cima do palco, a multidão canta, “Como é grande o meu amor por você”, um dos grandes sucessos de Roberto Carlos. “… por voooooooooocêêêêê!!!” Grande final em delírio. Lula aplaude ao lado do cowboy sertanejo, que agora canta para ele. Lula e Marisa acompanham com palmas e dançam.
Seguem-se as homenagens. Um sindicalista vem entregar uma prenda em nome do Sindicato dos Metalúrgicos, e declara: “Você é o que você é porque você é um cara muito legal, e a gente tem orgulho de ser vizinho do presidente Lula!”
Alguém do público passa uma garrafa de champanhe a Luís Marinho, prefeito de São Bernardo, que a passa a Lula, que a passa a Marisa.
“O presidente tinha pedido para a gente não fazer nada dia 1 falando que ‘costuma chover, fazer frio, e não vamos sacrificar as pessoas’”, diz Luís Marinho. “Mas o povo não aceitou.” E “ como demonstração do carinho do povo”, Marinho entrega a Lula uma grande prenda embrulhada em papel vermelho. É uma chave gigante, a chave de São Bernardo do Campo. “Nós não temos palavras para expressar a gratidão, o carinho, o amor, que temos por você. A cidade é sua e a palavra também!”
Ainda não, ainda não, porque Sarney fez um sinal.
“Sarney está pedindo para falar…”, anuncia Marinho.
Vaias no público. “Calem a boca, é má educação!”, grita uma mulher. Sarney, um pouco trémulo, agarra no microfone. “Quero dizer que o que me trouxe aqui foram os caminhos da amizade e do reconhecimento. Em Lula descobri um homem de grande densidade humana, de grande generosidade…”
“Safado!”, atira-lhe um homem do público.
Mas Sarney está de pedra, e vai mover corações. “Nunca se viu no Brasil um presidente prestigiar outro presidente. E eu vim aqui para desejar felicidade e dizer que ele sai consagrado pelo povo. Muito obrigada povo de São Bernardo!!!” Aplauso geral.
Sarney recua, Lula pega no microfone. E depois de agradecer ao “companheiro Marinho”, ao PT de São Bernardo, aos militantes, dirige-se a Sarney: “Há quatro anos disse que me queria vir entregar até à porta do meu apartamento, e veio!”
“Quando eu era presidente…”
O dia já foi longo em Brasília, mas Lula fala como se tudo estivesse a começar. Sempre à chuva, a multidão segue-o em silêncio, suspensa.
“Esta semana e as semanas passadas foram sofridas, de choradeira, de muitas lágrimas, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, no Ceará, em Pernambuco, na Baía, em inaugurações e despedidas”, conta ele. “E desde quarta-feira estive-me despedindo de funcionários em Brasília e é choradeira manhã, tarde e noite.” Isto para dizer: “Não quero chorar agora!” Sorri.
“Volto para casa de cabeça erguida. Precisava de provar algumas coisas neste país. Durante décadas fui vítima de muito preconceito. E estava imbuído da necessidade de mostrar que um metalúrgico com um diploma primário e um diploma do Senai [escola industrial] seria capaz de governar este país com mais qualidade e competência do que a elite política. Hoje posso voltar na frente do meu povo, e dizer que depois de um metalúrgico a gente consegue eleger a primeira mulher presidente!”
O que se segue será o melhor antídoto para um país em que mulher tantas vezes apanha e cala.
“Às vezes, a mulher tem quatro, cinco filhos. Tem de preparar a molecada, preparar almoço, janta, café, limpar banheiro, passar roupa, e quando a gente pergunta: ‘A senhora trabalha?’, ela diz: ‘Não.’” As mulheres na multidão estão radiantes. Um homem ri e grita: “Lula, muda de discurso!” Mas Lula não esgotou o assunto. “As mulheres aprenderam a levantar a cabeça. Querem ter direitos. E o homem para ser bom tem de repartir os afazeres da casa. Se a mulher pode lavar panela, o homem também pode lavar panela. Se a mulher pode mudar fralda, o homem também pode mudar fralda.”
A vibração é tanta que lhe falta a voz. Interrompe para pedir água. E transforma isso num momento simbólico: “Quando eu era presidente não pedia água porque tinha sempre um copinho. Agora já comecei a pedir água…”
Toda a gente ri. Foi a primeira vez que Lula pronunciou estas palavras: “Quando eu era presidente…”
“Estou muito orgulhoso de ter dado a faixa [presidencial] à Dilma. Não sabem a emoção que tive ao entregar a faixa para a primeira presidenta deste país, para provar que as mulheres vão governar com muito mais competência do que nós!”
Diz presidenta, como Dilma também disse, lá na posse, em Brasília.
Ficar na política
“Depois de oito anos de presidência, é justo que tire uns dias de férias”, prossegue Lula. “Quero descansar uns 20 dias para pensar o que vou fazer neste país. O facto de ter deixado a presidência não significa que deixei a política. Quero levar para África e para a América Latina as experiências bem sucedidas aqui no Brasil, mas quero ajudar a companheira Dilma quando ela me pedir, aliás, quando ela me convocar. Porque aprendi muito nestes últimos oito anos e é com muito orgulho que termino o mandato com maior aceitação do que quando comecei. Terminei em 31 de Dezembro com 87 por cento de aprovação, bom ou muito bom, e mais sete por cento de regular.” Então aí vem a frase que se tornou lema: “Nunca na história deste país um presidente teve a aprovação que tivemos. O mérito não é meu: é meu e de vocês!” Ovação.
E o remate final é para, de novo, envolver todos com Dilma:
“Agora, a gente tem de apoiar a companheira Dilma. Os adversários são os mesmos, mas os preconceitos são muito mais. Amem a Dilma como me amaram no governo!” A mão que não segura o microfone rasga o ar de alto a baixo, numa veemência. “Para que o Brasil seja em 2016 a quinta economia do mundo!”
Quem se lembra que ainda chove? “Muito obrigada! Valeu a pena vocês me elegerem. A partir de agora o Brasil é outro. O povo brasileiro está com a auto-estima muito avançada. Com Dilma será ainda melhro porque o povo brasileiro merece isso.”
Mãos no ar para dizer adeus.
E o céu volta a explodir, num ta-ra-ta-ta branco.
(Público, 3-1-2011)

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