A emoção de Dilma a chegar e de Lula a partir

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-operário de São Bernardo do Campo, pega na faixa de seda amarela e verde que hoje usou pela última vez, coloca-a ao pescoço de Dilma Rousseff, e abraça-se a ela.
São 16h50 em Brasília. Trinta mil pessoas assistem de pé. O presidente mais popular da história acaba de entregar o país à mulher que escolheu. Toca o hino nacional. Lula canta e chora. Depois, como nas despedidas difíceis, desaparece sem uma palavra, cumprindo o protocolo à risca. A tribuna agora é de Dilma, que pela primeira vez vai falar ao povo como presidente do Brasil.
“Pronto, acabou a era Lula”, comenta Expedito, sentado como um buda em frente à televisão, nem uma lágrima. “Sou duro de chorar. O Lula não, o Lula é um chorão.”
O Brasil tem visto. Mas o que agora vai ver é como Dilma também se emociona a ponto de interromper o discurso, beber água, recomeçar. A mulher que muitos viram na campanha como um robô chorou perante os deputados no congresso e agora vai chorar perante a multidão que se concentrou em frente ao Palácio do Planalto.
“Mas ela segura legal”, assegura Expedito. “Ela é dura.”
Nascido mineiro tal como ela, Expedito Soares, 58 anos, fez-se à vida nesta cintura industrial paulista, São Bernardo do Campo, ao lado de Lula. Jogaram futebol juntos, foram dirigir o Sindicato dos Metalúrgicos juntos, a ditadura prendeu-os 31 dias juntos, e depois fizeram juntos o PT. “Quem desenhou a bandeira do PT fui eu, com a estrela de cinco pontas.”
Há oito anos, quando Lula se tornou presidente, Expedito comprou um bilhete do seu bolso e foi a Brasília assistir à posse no meio da multidão. Sabe todos os passos do ritual.
E agora, oito anos depois, aqui estamos, frente à televisão, em São Bernardo do Campo.
Porque Lula vai voltar a casa ainda esta noite, e a casa dele é aqui.
Rolls com chuva
Lá em Brasília chovia tanto quando, no começo da cerimónia, Dilma Rousseff entrou no Rolls Royce presidencial, que o tradicional desfile pela Esplanada dos Ministérios não pode ser feito de pé, com a capota aberta.
O Rolls — prenda de Isabel de Inglaterra, há anos — deslizou a seis à hora com Dilma e a filha Paula sentadas lá dentro, uma mão de fora a acenar, e uma equipa de seguranças toda formada por mulheres correndo no meio da chuva, de cada lado do carro. Um espectáculo certamente inédito.
Expedito Soares está radiante por ver Dilma “enfrentar uma sociedade machista”. Fecha o pulso: “Ela é uma mulher assim. Vai ser muito dura, corajosa, destemida. O Lula é diplomata, é mais de ouvir, mais de diálogo. Ela é de comando. O Lula é líder e ela é comando. É de rédea na mão. Tem coisa que ela não vai tolerar, não.”
O Rolls deixou Dilma no Congresso, onde a posse vai acontecer perante deputados e senadores. Dilma faz o juramento, assina o livro, é empossada. No longo discurso que se segue compromete-se em todas as áreas: erradicação da pobreza, justiça social, combate à droga e à violência, avanços na educação e na saúde, liberdade de imprensa, investimento na cultura, crescimento “acelerado sem destruir o meio-ambiente”, uma política externa “pela paz, pela não intervenção e pela defesa dos direitos humanos”, que continue a relação com a América Latina, com os países africanos, com o Médio Oriente.
Cada bloco do discurso é pontuado por “Queridas brasileiras e queridos brasileiros”. A tónica é de “continuar a mudança”. A promessa é de “governar para todos”. E é aqui, na recta final, que a voz de Dilma treme pela primeira vez e ela tem de interromper e retomar. “A partir desse momento… A partir desse momento sou presidente de todos os brasileiros e brasileiras.” Garante que “a corrupção será combatida permanentemente”. Diz que entregou “a juventude ao sonho de um país livre e democrático”, aludindo à sua militância na guerrilha contra a ditadura, o que lhe valeu ser torturada na prisão. “Não tenho arrependimento e não tenho qualquer ressentimento nem rancor.” Quando homenageia aqueles que morreram na luta contra a ditadura a voz volta a tremer.
“Está chorando porque foi difícil”, diz Expedito. “Foi muito difícil, a ditadura.” Dentro do Congresso, há gente emocionada de pé.
“É com essa coragem que vou governar o Brasil”, remata Dilma. “Mas não só com coragem, com carinho.”
José Sarney, presidente do Congresso, encerra a sessão com um discurso. Expedito franze a cara. Não gosta de Sarney. “Está bom, está bom, libera aí a mulher, que ela tem de ir lá pegar a faixa do Lula!”, diz para o ecrã. Também não gosta de Michel Temer, o vice-presidente de Dilma, concessão ao parceiro maior da coligação que a elegeu, o PMDB. “Muito ruim esse homem. Está no lucro. Politicamente não tem discurso, nem liderança, nem articula. Não é um homem que possa ajudar se houver uma situação de calamidade. Não tem pulso. É um cara fraco.”
Dilma sai do Congresso no meio de uma multidão masculina. “Muito bom! Esses homens vão ter de engolir uma mulher, de aceitar ela.” Como aceitaram um operário.
“Olha lá o Lula!”, exclama Expedito, avistando enfim o ex-camarada com a faixa de seda amarelo e verde ao peito, à espera que Dilma complete o caminho entre o Congresso e o Palácio do Planalto. Lula dá voltas e limpa a cara com um lenço. Parece nervoso.
Está triste? Que acha Expedito? “Está triste e alegre. Sai bem apoiado. Mas deve estar triste porque de repente você está dirigindo um país e tem que ir embora. Acho que é assim como gostar muito de uma mulher e depois ela vai embora. É muito gostoso governar o Brasil.”
Com Lula e a mulher, Marisa, Expedito tratou galinha, sentou no chão, bebeu pinga. E depois seguiu a política, também, meteu-se a estudar Direito, foi deputado. Tem uma certa mágoa por Lula nunca o ter chamado a trabalhar em Brasília.
Comandante de saias
São quatro e meia da tarde.
Dilma Rousseff faz a revista às tropas, outro momento inédito. Um comandante de saias e saltos. “É muita responsabilidade!”, entusiasma-se Expedito. “Mas ela é firme.” Em vez de continência, uma vénia, e Dilma beija a bandeira.
Agora, como já não chove, volta ao Rolls mas de capota aberta, para desfilar com a filha de pé até ao Palácio do Planalto, onde Lula continua de faixa ao peito, à espera. Vão acenando à multidão, agora liberta dos guarda-chuvas. O vice vai atrás, e depois encontram-se os dois ao início da rampa branca que conduz ao Palácio.
É um frente-a-frente: em baixo Dilma e Temer. Lá em cima Lula e Marisa. Dilma e Temer avançam pela rampa. Quando os quatro se encontram Lula faz jus aquilo que todos contam sobre ele, e sempre se vê: que tem de agarrar nas pessoas. Abraça-se a Dilma. Os quatro trocam abraços. Lula bate palmas e Dilma também. Lula dá-lhe a mão, ergue as mãos juntas.
“É coisa assim de força, das nossas lutas: estamos juntos”, comenta Expedito. “A gente dava as mãos. Mas sabe como é que ele é quando a gente está no palco com ele? Ele conta piada, é bem gozador, diz: ‘Vou-te dar um beliscão na bunda.’ Deve estar falando alguma coisa assim para a Dilma.”
A televisão não capta tanto.
Saem os quatro para o parlatório, uma espécie de varanda-tribuna, de onde se fazem discursos no Planalto. É então que Marisa tira a faixa a Lula, Lula pega nela e coloca-a em Dilma.
“Agora é com você, camarada”, diz Expedito. “Está bonito, o Lula.”
Cara vermelha, a chorar. Marisa também limpa lágrimas. Lula repara e abraça-a.”
Depois desaparecem para o discurso de Dilma ao povo.
“Estou feliz como raras vezes estive na minha vida”, diz ela. “Mas emocionada pelo encerramento do mandato do maior líder popular que este país já teve.” Cita Indira Gandhi para dizer que não há aperto de mãos de mãos fechadas. “As minhas mãos estão abertas. É com esse espírito que assumo o governo desse país.” E finalmente, chorando: “O povo brasileiro e o nosso país têm condições de se transformar no melhor país para se viver.”
“Bom, muito bom”, entusiasma-se Expedito. “Eu acredito nela.”
Nas últimas imagens da televisão, Lula chora, despedindo-se de toda a gente, à saída do Planalto. A próxima imagem será aqui, em São Bernardo, ao vivo.
(Público, 2-1-2011)

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