Lula-Imprensa brasileira: as contas finais

A imponência começa cá fora: o edifício do “Estado de São Paulo” é um imenso quarteirão, com várias entradas. O átrio reluz de brilho e tradição. Antiquíssimas máquinas impressoras atestam mais de um século de vida.
O “Estadão” é um símbolo daquilo a que São Paulo chama “os quatrocentões”, a elite descendente dos fundadores, bandeirantes e grandes fazendeiros de café, liberal na economia e conservadora nos costumes. 
A secretária do director espera-nos à saída do elevador no sexto andar, e depois são átrios e antecâmaras, até uma salinha de espera. Esta salinha comunica com a sala do secretariado, que depois dá acesso a uma sala de espera, que dará acesso ao gabinete do director. São Paulo no seu topo: cerimónia, privacidade, demarcação de hierarquias.
Nada que se afirme no Rio.
Lá fora está uma tempestade, com o trânsito todo paralisado na Marginal Tietê, uma das grandes vias rápidas da cidade. A repórter chegou dez minutos atrasada e agora vai esperar uma hora. Em todos os contactos anteriores o director Ricardo Gandour foi célere e gentil, mas também é hora de ponta no jornal.
A secretária encaminha para a segunda sala de espera, a tal entre o secretariado e o gabinete do director. Livros, troféus, uma mesa de reuniões, janelas sobre a marginal e o rio.
Ricardo Gandour aparece desculpando-se, falando da edição do dia, convidando a sentar. É director de conteúdos, o que quer dizer tudo menos os editoriais das páginas 2-3, das quais se ocupa exclusivamente outro director, seu par.
Quem hoje abra o site do “Estadão” vai encontrar uma bandeirinha em cima a dizer: “Há 516 dias sob censura.” E todos os dias o jornal publica a mesma nota sobre o caso, desde que uma decisão judicial impediu a publicação de artigos relativos a um filho de José Sarney, ex-presidente da República e actual presidente do Senado. É matéria sobre a qual Ricardo Gandour já falou ao PÚBLICO, a propósito de um caso em que uma colunista afastada se queixou de censura do jornal (13/10/2010).
Mas agora que o governo Lula termina, marcado como foi por constante tensão com a imprensa dominante, que avaliação faz Gandour do comportamento deste presidente em relação à liberdade de imprensa? Contas finais: é possível associar Lula a alguma tentativa de censura?
“Não”, responde sem hesitar. “O Brasil vive plena liberdade de expressão. No entanto, o discurso presidencial em relação à imprensa em vários momentos foi hostil. E o discurso presidencial é sinalizador em relação à sociedade da qual fazem parte os juízes. Então você tem decisões nesse sentido contra as publicações. Se o presidente reiterasse que a imprensa deve ser livre para publicar o que quiser, ele talvez influenciasse noutro sentido. O clima criado pelo presidente pode influenciar.”
Gandour acha que não tem de haver qualquer tipo de impedimento judicial à publicação. “Qualquer pessoa pode pedir um direito de resposta e processar. Agora, uma medida para impedir uma matéria que nem se sabe como vai ser é coerção do pensamento.” Mas frisa: “Jamais houve qualquer tentativa de censura no governo Lula. Estou apenas a falar do que é o poder sinalizador do presidente.”
A tensão Lula X Imprensa foi tão grande que no seu discurso de vitória Dilma defendeu a liberdade de imprensa várias vezes, e desde então voltou a reforçar esse compromisso.
“Foi um discurso muito positivo, ponderado e calmo”, diz Gandour. “Procurou atenuar o clima que vinha sendo construído. Acho que foi um sinal de que poderá imprimir ao seu governo uma personalidade mais própria do que muitos imaginam.” Ficou surpreendido? “Não esperava que desse logo esse sinal.”
Nas margens
A revista “Carta Capital” é o oposto do “Estadão”: recente, pequena e de esquerda. A redacção ocupa uma sala, com o director Mino Carta visível ao fundo, num gabinete envidraçado de porta aberta onde só há uma máquina de escrever, não um computador.
Mino fundou as revistas “Veja” e “Isto É”, onde fez a primera capa de revista com Lula, em Fevereiro de 1978. Foi eleito Jornalista do Ano pelos correspondentes estrangeiros em 2006.
É um veterano e não se cansa de lançar farpas ao espírito da imprensa hoje dominante. “Em nenhum lugar do mundo civilizado os media em geral se colocam todos de um lado, como no Brasil. Os media brasileiros são um instrumento na mão de uma minoria favorecida. Estão nas mãos de quatro famílias.” E as críticas não páram aqui. “A imprensa brasileira é muito ruim, as pessoas não sabem escrever. Frequente uma escola de jornalismo no Brasil: são péssimas.”
A tradição da imprensa em bloco vem de longe, diz: “Quando Getúlio Vargas se elegeu em 1950 e criou a Petrobrás, os media brasileiros postaram-se em bloco contra ele, que acabou por se suicidar em 1954. Depois os media lutaram em bloco contra a candidatura de Juscelino Kubitschek. Quando Jânio Quadros renunciou em 1961 advogaram a intervenção militar, para impedir a posse de Goulart. E no golpe de 1964 pediram aos militares para intervir.”
Nenhum jornal lutou contra ditadura?
“Nenhum, zero. Quem teve um papel foi a pequena imprensa, dita alternativa, que resistiu. Depois houve a revista ‘Veja’, que dirigi a partir de 1968 e da qual saí em 1976 por exigência do presidente Geisel. Eu pedira um empréstimo à Caixa Econónica Federal para a revista, e a Caixa negou porque o ditador de plantão exigia a minha cabeça. Tenho essa grande honra.”
Hoje a tradição da imprensa de “servir a elite” continua: “Eles querem um país de 20 milhões e uma democracia sem povo.”
Mas a própria Dilma sentiu necessidade de assegurar respeito pela liberdade de imprensa. Porque fez ela isso? “Porque foi vergonhosamente atacada. E ao dizer isso estava a assegurar que seria a presidente de todos os brasileiros.”
Pujança financeira
Ricardo Gandour não comenta a posição do jornal durante a ditadura. O que tem a dizer é isto: “Nos seus 136 anos, este jornal sempre tomou posições. Apoiou a república, a abolição da escravatura, a causa paulista.”
E eleição a eleição, os seus candidatos, explicando em editorial os motivos. Agora em 2010, escolheu Serra. Gandour não leu o editorial antes e faz questão de dizer que “a área de opinião é completamente separada da redacção”, mesmo aqui ao lado.
“Este jornal tem uma história rectilínea, de grande compromisso com as suas causas. É um jornal liberal, que acredita na economia de mercado e é crítico em relação ao tamanho do estado, por acreditar que pode ser pernicioso à sociedade, distorcer a livre iniciativa.”
E tal como a generalidade da imprensa dominante brasileira, o Estadão não se pode queixar da crise. Numa coisa Lula e imprensa coincidem: o momento é de pujança financeira.
“O ‘Estado’ cresceu a circulação em papel 12 por cento, passou de 240 mil para 280 mil exemplares, com 320 ao domingo”, informa Gandour. “E na Internet a audiência cresceu 88 por cento, com 108 milhões de páginas vistas por mês.”
É um quadro geral: “Nos últimos dois anos, acho que mais de 20 jornais foram fundados ou relançados com crescimento só no Rio, São Paulo e Belo Horizonte.” A que é que Gandour atribui isso? “Ao crescimento da economia.”
Um crescimento destacado em todos os balanços de imprensa, nestes últimos dias, sem excepção do “Estado”. Se a colunista Dora Kramer diz que o governo Lula não trouxe “avanço significativo nenhum, em saúde, educação, infraestrutura, segurança pública”, dias depois nas páginas de opinião Carlos Alberto di Franco escreve: “Responsável direto pela incorporação de milhões de brasileiros que viviam à margem do mercado, o fabuloso crescimento do consumo é um vigoroso atestado de inclusão.”
Economia pujante para mais gente: é quase um consenso. Exemplo de nota dissonante: a prestigiada colunista de economia Miriam Leitão escrever no “Globo” que “truques dos números oficiais e carisma do presidente inflam desempenho econômico de gestão que aumentou gastos e investiu menos do que diz”.
Especiais Lula
No domingo antes do Natal, tanto a “Folha de São Paulo” — rival do “Estadão” — como o “Globo” — o grande jornal do Rio — publicaram cadernos especiais Lula.
Quem acompanhou a campanha presidencial, pôde ver nos comícios de Lula e Dilma cartazes anti-“Folha de São Paulo”. A tensão era explícita. Mas nesta sua edição de balanço, o título de 1ª página da “Folha” era: “Lula entrega país melhor, mas imposto é recorde.” E o editorial intitulava-se “Saldo Favorável”: “Ao observador isento o exame dos resultados durante os dois governos consecutivos indica um saldo muito favorável”. Exemplos? “A economia cresceu 37,3. As exportações do país mais do que triplicaram. A inflacção caiu de 12,5 para 5,6 ao ano. A taxa básica de juros reais também cedeu, de 15 para 6. O desemprego foi reduzido pela metade. A dívida externa foi paga.”
A seguir, neste editorial, vinham os problemas: “apesar de avanços”, educação, saúde e infraestruras “continuam a ostentar má qualidade”. Quanto a costumes políticos, “o desempenho foi deplorável”. E na política externa uma “desnecessária proximidade com autocracias como Cuba e Irão e pela compacência com outros violadores de direitos humanos”.
Mas tudo pesado, estes oito anos representam “uma relevante melhora nas condições de vida dos mais pobres”, escreve a Folha, concluindo: “O presidente Lula deixa o governo como estadista democrático que honrou boa parte dos compromissos assumidos numa trajectória épica.”
Sondagem DataFolha: O governo Lula é bom para 83 por cento, regular para 13 por cento e ruim ou mau para 4 por cento. Se somarmos os bons aos regulares dá 96 por cento de aprovação.
Presidente recorde
Nesse dia, o título de capa do “Globo” era justamente: “Presidente deixa o poder com popularidade recorde, mas poucos avanços em educação, saúde, saneamento, insfraestrutura e reformas”.
Lá dentro, um completo caderno de 28 páginas, sob o lema “Nunca antes na história deste país”, frase de Lula que é glosada à exaustão.
Inclui um texto de Frei Betto, nome central na Teologia da Libertação, que esteve ligado ao governo no programa Fome Zero e se demitiu quando esse projecto foi substituído pelo Bolsa Família. O governo Lula é “o mais positivo de nossa história republicana”, avalia ele agora, com vários parágrafos de exemplos. “Tomara que a presidente consiga superar a deficiência congénita de sua gestão: o matrimónio por conveniência eleitoral entre o PT e o PMDB.”
Quanto às contas finais do “Globo”:
Muito dinheiro para o Rio de Janeiro, e muitas visitas, devido à “grande afinidade de Lula com Sérgio Cabral”. Isto, em véspera das maiores apostas feitas no Rio em décadas: Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.
Escândalos: o Mensalão em 2005, que levou à queda do todo-poderoso líder da máquina do PT, José Dirceu; e Erenice Guerra, em 2010.
Saúde, quatro ministros diferentes, e saneamento “ainda uma calamidade”: “Em pleno século XX, 56 por cento dos domicílios não têm rede geral de esgoto”. Mais problemas: não-avanços na reforma agrária, fronteiras do narcotráfico abertas, “estradas, aeroportos e portos perto do caos”.
Mas internacionalmente, foi “o maior período de prestígio internacional do país na História recente”, escreve o “Globo”, mesmo sabendo que Lula “fala grosso com os EUA e fino com Irão e China”.
O “Globo” lembra também o lançamento de grandes obras nacionais, como o comboio de alta velocidade Rio-São Paulo-Campinas, várias ferrovias e hidroeléctricas, ou a transposição do rio São Francisco.
E lista as citações mais inesquecíveis de Lula, talvez porque de facto nunca antes na história deste país alguém falou de forma tão espontânea.
Como sabe quem tenha visto o documentário de João Moreira Salles, “Entreatos” — nos bastidores da campanha de Lula em 2002, aquela em que finalmente ele foi eleito pela primeira vez — o ainda presidente brasileiro é, ou pelo menos era, leitor de jornais. Mas faz questão de dizer que não tem esse hábito. “Eu não tenho isso faz tempo. Eu tenho problema de azia.”
Para os jornais é uma festa, e ele não deixa por menos.
(Público, 29-12-2010)

Um comentário a Lula-Imprensa brasileira: as contas finais

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