A prenda do Rei para o Rio de Janeiro

O tumulto começa nas traseiras do Copacabana Palace.
Só táxis e carros da polícia podem passar, mas há tanta gente a caminhar no asfalto que os táxis avançam com dificuldade. O trânsito está cortado num raio de quilómetros desde as três da tarde e agora são quase nove e meia da noite. Centenas de carros já foram rebocados ou multados, os moradores protestam, o site do “Globo” tem vídeos de gente zangada. Mas que é isso ao pé da euforia destes milhares que caminham, tudo de calção e saia curta, tudo de alça e chinelo, a caminho do “show”?
É noite de Natal, estão mais de 30 graus e Roberto Carlos vai cantar pela primeira vez de graça na praia de Copacabana. Prenda do Rei ao seu povo querido.
Não há no Brasil artista mais querido pelo povo. É ver o que acontece quando um recém-chegado vai passear para a Urca, o gracioso bairro aos pés do Pão de Açucar, onde resiste um antigo Casino e a memória de Carmen Miranda. O Rei mora lá, somos logo informados, e o Rei é a melhor pessoa do mundo, tratando todo o mundo como se fosse igual a todo o mundo. Todo o mundo o adora.
De cadeirinha
O Copacabana Palace é todo um quarteirão. Branco, reluzente, majestoso. A corrente humana avança pela esquerda, para quem está voltado para o mar e desemboca na Avenida Atlântica, que neste momento é uma massa compacta onde ninguém conseguirá avançar muito e manter-se vivo.
Uma grade protege toda a entrada do hotel. Na varanda do primeiro andar há hóspedes de copo na mão, e mais acima as varandas têm pequenos tufos de espectadores.
Depois, cá em baixo, viva o povo brasileiro. Tem de tudo: preto, mulato, branco, alto, gordo, tatuado, velho, recém-nascido, família tradicional e par “gay”. Muita lata de cerveja rodando. Muito calendário do Rei. Muita fitinha de cetim azul e branca a dizer “Roberto Carlos” amarrada na testa. “É o jeito que ele se veste”, explica o vendedor. Cinco reais cada uma.
E os vendedores ambulantes barrados lá atrás nem podem passar com barraquinha.
Balões no céu com uma cruz vermelha, anunciando os postos médicos, carros de bombeiros, vários tipos de polícia. Crianças a treparem pelas árvores de pé descalço, acima das luzinhas que enfeitam tudo, porque é Natal.
O palco não está voltado para o hotel, está de lado, para que mais gente possa caber, areal fora, ao longo da baía. Tem 500 metros quadrados e foi montado por 400 pessoas, informa a organização. Por cima estão as letras gigantes RC e de cada lado ecrãs. Mas tudo isso é tão longe que quem chegou em cima da hora mal consegue avistar algum ecrã, quanto mais o próprio palco.
Vera Maria não está preocupada com isso. “Não é para ver, nós vamos escutar!”, explica, sentada na sua cadeirinha. Veio com as duas filhas, os dois genros e os três netos por ser tão fã que eles a acompanharam. E instalaram-se de cadeirinha no calçadão, como se estivessem na praia. Não vêem absolutamente nada, a não ser gente de pé. “É que aqui é ao ar livre”, continua a argumentar Vera. “Não é como ver em casa. Aqui é para sentir a presença dele.” Algures, lá longe. “Bota aí que a Vera manda um beijo para ele.” A filha protesta: “Mãe, ela é repórter!” Vera insiste: “Porque é a primeira vez que ele canta assim de graça para o público, é uma emoção muito grande. Tenho um retrato dele aqui, ó…” Rebusca a mala até tirar de lá um recorte amarrotado onde o Rei está a fazer publicidade a um perfume.
Passa um helicóptero. As lixeiras transbordam de latas. Há gente a chegar de cadeira de rodas. De repente a massa agita-se: o Rei vai entrar. São 21h45. Tudo a cantar em coro: “Como é grande o meu amor por você!” Filhos às cavalitas dos pais. Mulheres nos braços dos maridos. Avós a ondularem os braços.
E o Rei ataca: “Quando eu estou aquiiii / Eu vivo esse momeeeento lindo…” É o delírio. Três gerações de mulheres berram: “Olhando pra você / E as mesmas emoções / Sentindooooo…” Um mulatão berra no telemóvel: “Eu ‘tou ao lado do hotel! Eu ‘tou em frente ao Itaú!” O Rei abre para o grande final: “O importante é que emoções eu viviiiiiiiiiii!!!”E o mulatão: “Perto do carro de bombeiro!”
Agora Roberto Carlos fala ao povo, mas daqui não se percebe nada. A repórter lerá mais tarde no site do “Globo” que ele disse que Copacabana é a praia mais famosa do mundo, e que quando chegou ao Rio o seu sonho era morar aqui. Também explica que magoou o joelho a andar de mota, visto que depois dos 35 anos ninguém deve andar de mota, e portanto vai cantar o resto das canções sentado num banco.
“O som não dá para escutar!”, protesta um casal. Absurdamente, o semáforo por cima das nossas cabeças está vermelho. “Deviam ter botado mais telões, não se vê nada!” Telões são os ecrãs.
Tudo na vida
Ivan e Renato estão a cantar abraçados. Um do Sul do Brasil (Rio Grande), o outro do Norte (Belém do Pará). Um a viver no Rio, o outro em São Paulo. Mas namorados. “Não chego a dizer que sou um fã do Roberto Carlos, eu curto”, diz Ivan. “Eu também não sou fã, mas já faz parte do inconsciente brasileiro, a gente é criado já ouvindo”, completa Renato.
“Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!”, canta o povo.
Na passagem de ano chegam a estar três milhões nesta praia, para ver o fogo-de-artifício. Mas isso é ao longo de seis quilómetros. Esta noite estão 400 mil concentrados neste pedaço.
“Vem me tirar da solidão / fazer feliz o coração!”, canta uma mulata transbordante como se não houvesse amanhã. E ainda consegue beber uma lata de cerveja. Sabe todas as músicas de cor? “Ah, minha filha, a infância fala muito…”, responde, já cambaleante. Por trás está Lúcia, uma velha mulata desdentada que veio lá do subúrbio. “Todo o homem que sabe o que quer / sabe dar e querer da mulher”, canta ela. Também sabe todas as músicas? “Quer saber a minha história?”, oferece. “Eu cheguei aqui com os meus 16 anos, sou paraibana [do Nordeste] e Roberto Carlos foi tudo na minha vida.” Tudo? “É! É! As músicas. Meus momentos bons e difíceis, entendeu? Eu escuto ele em todos os momentos.”
Já há gente a sair, à cautela, antes do grande êxodo. Mas ainda há mais gente a chegar.
(Público, 27-12-2010)

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