Natal com Lula e Luizão

1. São dez da noite no Rio de Janeiro e a ventoinha por cima da minha cabeça continua a rodar.
— Esse calor é de Janeiro! — dizem uns.
— Esse calor é de Carnaval! — dizem outros.
Mas ainda vamos no Natal.
E os meus amigos da Europa presos na neve.
A Susana Moreira Marques, que esteve presa em Londres e agora está num barco para Santander, onde apanhará boleia para o Porto com um camionista.
A Cecília, dona desta casa com plantas e ventoinha que se prolonga nas árvores do Parque Lage ali adiante, e mais adiante nas palmeiras prodigiosas do Jardim Botânico. Trocou o Rio pela Europa em Dezembro, eu ganhei esta casa por um mês e onde dormirá ela agora?
Mas calor não quer dizer seca. Madrugada dentro, o Rio está em “estado de atenção” por causa das “pancadas de água”. Desde 1 de Dezembro, conto por uma mão os dias sem “pancadas de água”. A gente foge aos gritinhos, encolhe-se, desaparece. É o triunfo das plantas, um festim.
E a água cai em torrente dos morros, entre os pés dos favelados.
2. Nunca tinha fechado o ano no sul do mundo.
Os botecos do Rio têm pais natais vestidos de flanela vermelha com rebordo de pêlo branco, e árvores de natal cobertas de pó a fazer de neve. Inverno no mundo é quando o Natal quiser. O Rio entrou em pleno Verão na terça-feira, mas as decorações são todas de Inverno, porque é Natal. As árvores têm luzinhas enroladas que piscam à noite, abricós e jaqueiras, coqueiros e casuarinas, ipês e paineiras, figueiras e acácias-rubras, todo o esplendor que é a natureza do Rio, enfeitada de Natal.
E no meio da Lagoa, essa gigante Árvore que milhares de pessoas pararam para ver. Houve fogos, o céu explodiu em vermelho, era a inauguração. E a cada dia lá está A Árvore, entupindo um pouco mais o trânsito à volta da Lagoa, já de si iluminada, e agora piscando as suas luzinhas de Natal, além das luzinhas de todo o ano que são as favelas na noite, presépios de pirilampos aos pés do Cristo, sempre branco, mais alto que tudo.
O morro do Corcovado é certamente a prova da omnipresença de Deus. Não há ponto do Rio de Janeiro onde o Seu Filho não nos olhe de frente, ou nos dê as costas.
3. E os cariocas saem da praia para ir buscar o “panetone” ou a torta encomendada para a consoada, e as padarias têm menus especiais, com fila de sandália e chinelo.
Natal versão Férias Grandes.
Aliás, as férias grandes são agora. Os aeroportos estão lotados para voos internos e externos. Quem tem dinheiro viaja para a Europa, para Nova Iorque, para o Nordeste, ou está nos “shoppings” a fazer compras, ou parado no trânsito. Natal é dinheiro, e isso vê-se nas ruas centrais de São Paulo e do Rio de Janeiro neste mês de Dezembro, o último de Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva na presidência, até ver: tudo engarrafado, tudo a ir ou a voltar de gastar dinheiro. Aquilo a que os economistas chamam incentivo ao consumo.
E as mocinhas e os mocinhos da favela que alimentam, e vendem, e depilam, e engraxam, não param.
4. Luiz Inácio, tua mãe botou o nome e o povo chorou a ver no cinema: “Lula, o Filho do Brasil”.
Eu vi no ónibus, a voltar de São Paulo, seis horas de viagem. A bateria do meu portátil semi-queimado por uma vela dá para um filme e meio, depois acaba. O meio, sacrificado, acabou por ser “Tropa de Elite 1”, que aluguei com atraso, quando todo o Rio já lotou nas salas “Tropa de Elite 2”. Mas antes consegui ver inteiro “Lula, o Filho do Brasil”, candidato a Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares.
É filme para chorar. A gente vê aquelas paisagens secas de Pernambuco, lá no Nordeste mais pobre. Casebres rodeados de cactos, mães de muitas crianças esfarrapadas, um pai de boca torta, a cuspir cachaça, que parte para longe antes de mais um filho nascer. O filho nasce, a mãe pega nele, diz:
— Tu vai te chamar Luiz Inácio.
Mas toda a gente começa a chamar-lhe Lula. E um dia a mãe chega com todos os filhos ao Porto de Santos, Estado de São Paulo, convencida de que o marido a mandou chamar. Não mandou, e cada vez cospe mais, cospe e bate nas crianças quando elas vão à escola. E um dia a mãe vai embora com as crianças para mais perto da capital, onde estão as fábricas. Então Lula, que já foi engraxate, que já vendeu laranja, que já carregou alface, torna-se operário em São Bernardo do Campo, diploma de Torneiro Mecânico. A mãe chora, e os espectadores também.
E nas noites de horas extraordinárias este filho do Brasil há-de perder um dedo numa máquina. E no hospital dos pobres há-de perder mulher e filho no parto. E já líder sindical há-de perder 31 dias de liberdade em plena ditadura. No fim do filme, ainda o PT não nasceu mas qualquer um já seguia Lula, limpando a última lágrima.
Agora, ao fim de oito anos de presidência, ele vai sair. Foi o pai natal dos pobres mas os ricos que se riem dele nunca estiveram tão ricos.
5. A meu lado no ónibus, entre o pré-Natal de São Paulo e o pré-Natal do Rio, ia um homem que nunca olhou para o ecrã dos filmes. Aos 10 anos teve um descolamento de retina e depois glaucoma. Está completamente cego.
Quando o ónibus parou, fui com ele comprar um bilhete de volta a São Paulo para a sexta-feira seguinte.
— Eu moro no Rio, mas a minha namorada está em São Paulo.
Vai visitá-la aos fins-de-semana. Sem cão, só com uma bengala, tanto degrau, tanto passeio partido, fora o trânsito. Nem consigo começar a imaginar o que é ser cego no Rio.
Mas o Luizão dá-me uma oportunidade: em Janeiro vou assistir aos treinos dele na Urca. É atleta para-olímpico, várias vezes campeão de “golball”. Eu devia ter adivinhado pela firmeza da mão no meu ombro.
E assim, juntos, atravessando a Rodoviária, chegámos ao Rio de Janeiro na véspera do Natal.

(Público, 24-12-2010)

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