Inveja dos Anjos

1. Dylan Thomas apareceu na praia. Chamaram-me, voltei a cabeça, e era a cara dele à minha frente, com aquele topete de caracóis e sem álcool. Dylan Thomas aos 20 anos.
— Você é o Dylan Thomas — disse eu.
— Eu sou?! — ele ficou feliz.
— Cara, e ele é poeta! — rematou a amiga que me chamara, ajustando a alcinha do biquini.
Todo o biquini será recompensado em São Sebastião do Rio de Janeiro, num domingo de Dezembro. Um sol de 40 graus e a perna do vizinho terminava na minha. Milhares de biquinis e de sungas no espaço vital de um Cristo abrindo os braços. Sunga é o contrário do calção até ao joelho. Cariocas usam sunga e não trazem toalha, ensinou a minha amiga. Praia no Rio tem um protocolo, Dylan Thomas inclusive, pele branca, sunga preta.
O Rio não é o País de Gales. Este hemisfério não é a Europa. Aliás, será que a Europa ainda existe? O Rio de Janeiro pensa na Europa como vôvô e vóvó, álbum de família. A gente vai lá, sopra o pó, diz “puxa vida!”, se comove.
Depois volta ao vivo, à praia.
— Vamos na praia? — perguntara a minha amiga de manhã.
E antes que a minha boca europeia se abrisse:
— Domingo na praia é experiência antropológica.
Quase trabalho, para tirar a minha culpa.
2. Então fui de ônibus, desci a duas quadras do mar, comprei o “Globo”. Tinha uma matéria sobre as novas festas infantis de limusine, Primavera-Verão 2010-2011: a limusine apanha aniversariante e amiguinhos e passeia-os pelo Rio com doces e sucos servidos em “flute”. Não tinha nenhuma matéria sobre a pujança financeira do próprio jornal, mas 2010 vai ser o melhor ano de sempre do “Globo”. Não é o mesmo hemisfério que a Europa e será o mesmo planeta? Paguei um euro e meio pelo meu café de pé no Talho Capixaba, mercearia “gourmet”. O preço é daqui para cima em toda a Zona Sul.
Quando cheguei ao calçadão, a favela do Vidigal descia até ao mar, logo do meu lado direito. Do outro lado do morro, era dia de mercado na Rocinha. Somando todos os morros do Rio, dá mil favelas.
3. Na véspera eu vira um anjo suar.
Febre de sábado à tarde no centro no Rio de Janeiro. Vagabundos, corpos em papelão, um cheiro de queimado. E num primeiro andar sobre tudo isto, uma galeria acolhia um lançamento de poetas lendo poetas. Conheci louras musas sem idade que continuam a nem olhar nos olhos. O mito Chacal, com quem me sentei há 15 anos num chão da Gávea, ainda morava na Gávea e disse de cor Hélio Oiticica, esse amigo de vagabundos que também escrevia.
Janelas totalmente abertas, todo o mundo debruçado.
Todo o anjo é terrível, diz Rilke, mas anjos do calor, já conheceram?
O meu anjo suava com uma camisa de xadrez por cima de uma t-shirt. Foi o último a ler, num biguebangue que era o mundo mudando de hemisfério no século XXI. Suava e tremia, 15 minutos para sempre. Um anjo não tem limite.
4. E isso foi antes da coisa toda começar.
Domingo, depois da praia, a minha amiga levou-me ao teatro. Centro Cultural do Banco do Brasil, um colosso no centro da cidade. Cá em baixo, Livaria da Travessa, exposição sobre Arte Islâmica, ciclo de cinema Tsai Ming-liang. Lá em cima, um corredorzinho de espectadores à porta de uma sala-estúdio. Olhei para o programa: “Antes da Coisa Toda Começar”, Armazém Companhia de Teatro, direcção de Paulo de Moraes. A imagem de uma caveira. Seria um “Hamlet”?
E quando as luzes se apagaram, foi Hamlet, Tempestade e Tragédia Grega, Lou Reed e Piaf, Grotowski e Deep Purple. O texto era uma energia omnívora. Eles atacavam o baixo e a bateria, cantavam, morriam, ressuscitavam. Os bastidores vinham para a frente, os espelhos partiam-se perante a Europa.
De repente, olhei para trás e um dos actores estava por cima de nós como um anjo. Nunca o vira antes mas tive a certeza de que já o tinha visto. Era um árabe de nome grego, no centro do Rio de Janeiro.
5. O melhor teatro do Brasil, dizem sempre os críticos, está em São Paulo. Mas a companhia Armazém está no Rio mesmo, nos Arcos da Lapa. Já fez Shakespeare e Tragédia Grega, e uma Alice no País das Maravilhas. Além de tudo o mais, eles próprios desenham os cenários e escrevem, são eles que escrevem. A minha amiga, que também escreve, saiu a chorar da peça antes desta, “Inveja dos Anjos”.
Quando cheguei a casa abri o livro sobre favelas que estou a ler e li: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos / sem amor nada seria.” Coríntios, versão Legião Urbana. Depois Caetano começou a cantar na minha cabeça “Anjos sobre Berlim…”, como um anjo do calor.
Cariocas não trazem toalha, trazem canga, que é um pano de praia, ensinou a minha amiga lá na praia, quando me apresentou os amigos.
Sim, Dylan Thomas está vivo, usa sunga, mora em Copacabana, vai à praia junto à bandeira verde e rosa da Mangueira, ainda não começou a perder o pé, e olha só, conheci-o chegando da água. Estupidamente perguntei-lhe se sabia como Dylan Thomas tinha morrido. Estavam 40 graus e ele estava sentado na minha canga. Não era pergunta que se fizesse.
É como a pergunta de Rilke aos anjos: “Quem se eu gritar / me ouvirá?” No Rio, Dylan Thomas vai dizer: “Grita que eu vou.”

(Público, 17-12-2010)

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