Flu com dilúvio

— Que idade você tem? — berra o rapaz, e não espera pela resposta. — Sabe que idade eu tenho? Vinte e seis anos. Eu tenho vinte e seis anos! Esperei toda a vida por essa vitória!!!
Não conheço o rapaz de parte alguma, mas estamos esmagados um contra o outro, a pingar água. Cara, cabelo, roupa, como se tivessemos saído debaixo de água. Na verdade saímos, porque fora deste toldo continua a chover torrencialmente e a ponta dos meus dedos está enrugada. Há horas que chove torrencialmente. O Fluminense ainda estava em campo com o Guarani quando o céu começou a desabar, e foi por aí fora, noite dentro. Inundações por todo o Rio de Janeiro.
É por isso que eu e o rapaz nos encontramos nesta situação.
Eu vinda da favela da Rocinha, de uma varanda onde toda a gente estava a dançar funk à chuva, pé descalço, roupa colada ao corpo, embora não propriamente por causa do Fluminense ser campeão, porque o Fluminense não é clube de favela, mas sempre é carioca, e todo o pretexto é bom para rolar um funk e rebolar a bunda, lá na Rocinha.
E o rapaz, sei lá, vindo do jogo, ou de algum boteco com TV, vestido como todo o mundo nesta esquina do Baixo Gávea cheia de restaurantes, camisa tricolor do Fluminense, bêbado de muita cerveja mas ainda assim não tão bêbado como os milhares aos saltos no meio da rua, da água castanha que corre como uma enxurrada à altura dos joelhos, com todo o lixo da Zona Sul a boiar, e onde não tem água tem caco de garrafa.
É o Dilúvio em versão carnaval, com braços levantados, namorado carregando namorada nas costas, bandos abraçados a chorar, tudo tricolor: verde, branco e grená.
E quem ficou preso na festa esbraceja num desespero em busca de táxi para sair dali, para qualquer lugar. Não há táxis, nem hipótese de sentar, porque os restaurantes estão alagados.
O rapaz pinga água e afinal talvez sejam lágrimas.
— Você vai na praia? — berra, e a falta de resposta não o desencoraja. Parece que o Espírito Santo desceu sobre ele, com uma cerveja bem gelada. — Sabe o que são vinte e seis anos esperando?
Foi quando o Fluminense ganhou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Esta é a segunda.
(Público, 14-12-2010)

Um comentário a Flu com dilúvio

  1. Me vi nesse texto que li na época da publicação, mas só agora me dei conta que não havia comentado.
    Também esperei 26 anos pelo título do Fluminense, que é o time que possui tanta poesia quanto essa página escrita por você…

    Responder

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