Apocalipse nunca

1. No dia em que mudei para o meu primeiro sub-aluguer no Rio de Janeiro já era de noite. Ao começo da noite, no Rio, há uma hora a que as plantas começam a tremer, e então cai o primeiro pingo. Foi quando comecei a pôr a bagagem no passeio. Entre as malas e os sacos caiu o primeiro pingo. Eu estava a sair da casa emprestada onde dormira uma noite para a casa subalugada onde iria dormir um mês. Um lisboeta no Rio é um inquilino de baixa renda, e portanto isto tem de ser por etapas, como a bagagem. Quando o táxi chegou já chovia, mas o taxista saiu e ajudou.
Dizem-me que em Buenos Aires existem taxistas ainda mais encantadores que os do Rio, mas nunca estive em Buenos Aires. Com a camisa pingada de chuva, o taxista sentou-se ao volante, olhou para trás a sorrir, e quando ouviu o endereço, a uns míseros dez reais de distância, continuou a sorrir.
É por isso que o apocalipse nunca vai acontecer no Rio de Janeiro. Os cariocas têm de ganhar a vida como toda a gente, mas nunca a perdem por causa disso.
2. O dia desta minha mudança foi o primeiro que passei no Complexo do Alemão, levada por um taxista que se chamava Mozart. No Rio hoje conhecemos um Mozart e amanhã um Marconi. O meu Mozart mora no Alemão, o meu Marconi mora na Rocinha, e essa é outra das razões porque o apocalipe nunca vai acontecer no Rio de Janeiro.
Nada é demasiado grande para um carioca. Ele pega ónibus para Copacabana, fica de pé 12 horas no átrio de um edifício fazendo segurança, no fim do turno pega ónibus de volta para a Rocinha, e à noite senta-se num tijolo a ver a mulher dançar funk com o bebé no colo. Ou cozinha, limpa casa, atende telefone. E já passou fome, quem sabe ainda passa. Mas vai na praia, bate bola, batucada, canta.
Carioca pode com tudo: da derrota do Flamengo ao nome de um génio.
Ele mesmo é uma forma de génio.
3. Podemos chegar a alguns lugares sem saber nada. Já ao Brasil, chegamos sempre com excesso de bagagem. Piadas, salamaleques, mal-entendidos de 500 anos.
Sabemos o que achamos que sabemos, e não nos conformamos com o que acham de nós.
Fui ler aqueles dois “best sellers”, “1808” e “1822”, li um-e-meio, não me sai da cabeça a imagem de D. João VI sempre lambuzado, com franguinhos escondidos nas mangas do casaco. Suponho que cabe na categoria do entretenimento.
Espelho meu, espelho meu, há alguém mais feio do que eu? É a angústia do colonizador diante do colonizado. Choque e espanto.
Ainda bem que não tenho 20 anos, nem 30. Podia dar-me para o nacionalismo, ou o seu contrário.
Nomes do diabo, antes os de João Guimarães Rosa.
4. Onde íamos? Dentro daquele táxi nocturno, a caminho do meu primeiro subaluguer.
Em São Paulo as casas são mais baratas, dizem-me todos os paulistas. Eu gostei de São Paulo não lembrar Portugal. O que é velho no Rio lembra Portugal. Um paulista disse-me uma coisa duplamente cruel. O Rio é preguiçoso, esbanjador, decadente: ainda vive na corte de D. João VI.
Quem tenha experiência com cariocas no que respeita a combinações já terá dito pior, depois de esperar horas por alguém, ou dias por um telefonema, ou toda a vida por um pedido de desculpas que nunca vai existir. Até perceber que para o carioca aquilo não tem desculpa porque não tem culpa.
Os paulistas podem dizer coisas cruéis dos cariocas. Já é mais difícil imaginar os cariocas a dizerem coisas cruéis dos paulistas. Suspeito que se estão nas tintas.
Há uma imunidade no carioca. Uma soberania.
Amanhã o mundo acorda e o Rio está no topo do mundo.
Mas nunca saiu de lá.
5. Quando o táxi parou, saí de guarda-chuva para tentar tirar as bagagens e ao fim de um minuto estava ensopada. Entretanto, como se nem pingasse, o taxista já ia tranquilamente com uma mala nos braços, a caminho do portão. Corri para tentar cobri-lo com o guarda-chuva e ao mesmo tempo abrir o portão. A chuva do Rio pode ser cachoeira. Caía no chão a ribombar e nenhuma das minhas chaves abria.
— A senhora está nervosa, deixe que eu abro.
E deixando a mala do táxi à chuva, o taxista abriu o portão e levou a mala até um telheiro. Foi então que o portão se fechou connosco do lado de dentro, e a chave do lado de fora, e a mala do táxi aberta, aliás todo o táxi aberto, e tudo isto cada vez mais à chuva.
Procurámos campainhas, botões, fios, qualquer coisa que abrisse o portão do lado de dentro, mas nada. Então vimos duas cabeças passarem do lado de fora e berrámos, ou antes, eu berrei, que rodassem a chave para nos libertar.
Quando enfim conseguiram, e enfim conseguimos levar toda a bagagem para o átrio certo, o taxista continuava a sorrir como se tivéssemos saído da piscina. Não se chamava Mozart nem Marconi. Era só Marcelo, mas nascido e criado na favela como eles. Numa das favelas do Complexo do Alemão.
— Não sei como lhe pagar.
— Que nada, são dez reais.
O preço normal de uma corrida sem chuva, sem bagagem, sem apocalipse.
Paguei 50 e à primeira o taxista Marcelo não quis aceitar. Era como se ficasse por conta da história que toda a dificuldade dá. Subiu a enxugar-se um pouco e desceu dando as boas-noites.
O Rio esbanja mas é connosco.
(Público, 10-12-2010)

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