1. O meu primeiro encontro com Viviane devia ter acontecido na Gávea, bairro carioca com melhor índice de desenvolvimento humano, à porta da PUC, universidade privada onde ela é bolseira. Aconteceu que nessa tarde fiquei hora e meia num engarrafamento e sem bateria no telefone. O trânsito no Rio de Janeiro continua letal, incluindo a violação de uma mulher a bordo de um micro-ônibus desde que escrevi a última crónica. Era brasileira, não americana, e estava na periferia, não em Copacabana, mas foi notícia na BBC e o prefeito Eduardo Paes declarou que ia reforçar a segurança do transporte público, tendo em conta os acontecimentos de projecção internacional que aí vêm. Isto, antes de ir a Nova Iorque combinar mais um acontecimento de projecção, ser anfitrião da Clinton Global Initiative, em Dezembro. Foi com o argumento da projecção (nesse caso, da falta dela) que na semana anterior Paes anunciara o fim do apoio financeiro à OSB (Orquestra Sinfónica Brasileira). Como o anúncio resultou em má projecção, o chamado esculacho público, Paes recuou ainda antes de ir para Nova Iorque. Até o “Globo” o criticara numa das suas colunas político-sociais e quando as críticas ao sistema vêm do sistema é sinal de que o sistema vai mudar. Agora só falta os cariocas no trânsito chegarem vivos à sede da OSB, que aliás ninguém sabe onde ficará. Era para ser na Cidade das Artes, um elefante de betão que demorou 10 anos e 500 milhões a ficar pronto, lá na Barra da Tijuca: o secretário de Cultura diz que sim, o director da Cidade das Artes diz que não. Ocupada demais para este braço de ferro, Viviane vê a Cidade das Artes da janela do 465, como eu vi ao voltar do nosso encontro. É que depois do falhanço no engarrafamento ela remarcou-me para a sua favela, aquela que no cinema foi a cara do Rio de Janeiro e no índice de desenvolvimento humano está em 113º. O que Viviane faz todos os dias é percorrer os 113 escalões cariocas que separam a Gávea da Cidade de Deus.
2. Eu nunca tinha ido à Cidade de Deus. Não é um morro que se suba a partir de Copacabana, Botafogo, Ipanema ou Leblon, nem uma daquelas favelas planas que toda a gente vê no caminho do aeroporto. É sem vista, fora da vista, longe pra cacete, e imagino com trânsito. Era uma manhã azul de domingo. Como eu vinha do Jardim Botânico, apanhei um primeiro ônibus para atravessar o túnel até à Rocinha. A “pacificação” na Rocinha, como no Complexo do Alemão, já teve melhores dias. O pós-Carnaval foi de batalha, com ajustes de contas e gente baleada. Mas cá em baixo, junto à passarela de Oscar Niemeyer, tudo fervilhante de tranquilo, filas para vans e para ônibus. E veio o 550 para a Cidade de Deus.
3. Há um caminho nas traseiras da Barra que é meio mato, meio baldio, meio favela, e esse é o caminho do 550. Vai ao longo da lagoa da Tijuca, com as torres dos novos-ricos na outra margem, depois mete para o interior e atravessa os barracos do Rio das Pedras, entre cartazes que anunciam Lourinho dos Teclados, Gavião Manhoso, Moleca Sem Vergonha. Bastião das milícias, ou seja, ex-polícias. E ainda vem a Estrada de Jacarepaguá, a subir para a Cidade de Deus.
4. Mesmo voando, o 550 levou uma hora até à paragem final, no mercado. Viviane apareceu de shortinho e havaiana, pele escura, óculos de massa, mistura de favela com asfalto, ou antes, ela mesma. Aos 22 anos, pode contar todas as histórias que as garotas aqui contam, orfãs súbitas por doença ou execução. Qualquer vida na Cidade de Deus é foda, enredo de abandonos, a começar pelo estado. Calhou que Viviane deu em ler e alguém estava atento.
5. O boteco onde ela organiza o Poesia de Esquina é mesmo junto ao mercado, frente toda aberta para a rua, cadeira de plástico com cervejinha. Viviane convenceu o dono e agora até a filha do dono participa no sarau.
— Até playboy da PUC — ri Viviane.
Aqueles garotos da Zona Sul que pagam dois mil reais por mês de propina. Viviane tem bolsa integral porque fez exame para isso, e fez exame para isso porque os professores do secundário se juntaram para lhe pagar a inscrição no exame da PUC. Agora está a acabar Ciências Sociais e entretanto inventou um sarau mensal na favela. No último houve leituras de Carlos Drummond de Andrade. De resto, quem quer traz a sua, própria.
6. Os poemas estavam lá esperando, na cabeça, mais que na mão. Por exemplo, este cavalheiro de leve barba branca que faz lembrar um pouco Luandino Vieira. Diz de cor o que escreve, e cumprimenta beijando a mão.
7. Mas nem uma vida de Brasil me podia preparar para o que Viviane então me apresentou, rua fora, depois de muito conhecido: uma diva mulata com mais de 80 anos, cercada por telas que ela mesma pintou, recitando um funk com requebrado para trás, e hum, e han. A graça é poderosa.
8. Ruas fora, a Bíblia: José de Arimateia, Ebenézer, Samaritana, Noé. Cidade de Deus, domingo de manhã, com cadeira no passeio, churrasquinho, rádio. Não ouvi missa, não vi arma, nem traficante, nem polícia. As havaianas de Viviane conhecem o caminho, pé solto, cabeça em toda a parte.
9. Almoçámos frango assado em casa da avó, que é a casa dela. A irmã comenta o estupro dentro do micro-ônibus. Viviane fala dos Estados Unidos. Teve uma bolsa para um campus da Carolina do Norte, depois foi viajar: Arizona, Las Vegas, Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque. Nunca foi à Europa. Ainda não publicou um livro. Tinha um blogue com poemas mas tirou-o do ar. Talvez mude para prosa, seja como for não é rápida. Custa-lhe escrever. E ler português de Portugal.
10. Ela ainda não tinha nascido quando eu tinha a idade dela.
— Melhor voltar no 465, que vai pela Barra, e não por Rio das Pedras.
Acabámos de almoçar, vamos sair. Ao guardar o telefone que ficou a carregar junto à estante reparo n’“O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino.
— Pô, isso é a minha adolescência — diz Viviane.
A minha também.
(Público, 12-5-2013)