Lisboa-Pernambuco

1. Um escândalo, casar em Maio de 2012 — e com cem balões brancos num céu azul, dois balões vermelhos no meio dos brancos, a maior lua dos últimos 18 anos. A noiva era pernambucana, o noivo lisboeta. Talvez algum dos lisboetas a bordo tenha voltado a tempo de ver o cinema português cobrir as escadas de São Bento. Porque até os noivos teriam gostado de ver isso, continuando a celebrar o escândalo de estarmos vivos.

 

2. Maio, aqui, é Outono. Casar num barco pode dar muito errado. Mas isso é o que já sabemos sobre um casamento à partida, e não podia ter dado mais certo.

O barco chamava-se Banzai. Era o último do cais, tinham dito os noivos na noite anterior. Tenho um truque para beber cachaça sem ressaca, tinha dito o noivo na noite anterior.

— Qual é o truque? — perguntei.

— Bebê-la pura — respondeu o noivo, que acabara de levar 300 cervejas para bordo, além da cachaça. — O pior é o açúcar na caipirinha.

Em tudo.

O pior é sempre o açúcar.

 

3. Se cachaça pura é a de Minas, Paraty também tem os seus alambiques. Na noite anterior à da maior lua dos últimos 18 anos já estava um luarão na praça da matriz. Os noivos tinham chegado de São Paulo no dia anterior à noite anterior e agora recebiam levas vindas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Lisboa, até da Alemanha, onde a noiva viveu só o suficiente para admirar como tudo funciona da forma alemã.

Já a noite na praça da matriz era o suficiente para ver como tudo aqui não funciona da forma alemã, e também por isso aqui estamos juntos.

É a frase favorita do noivo, aliás:

— Estamos juntos.

 

4. A noite anterior acabou de madrugada para alguns, mas às 10 da manhã todos se equilibraram nas pedras de Paraty para chegar ao cais. As ruas de Paraty foram feitas para carroças do século XVII, continuam a ser feitas para carroças, e quando chove ou a maré enche o melhor é mesmo uma carroça. Portanto, Paraty pede, em geral, que ninguém leve salto alto. E o Banzai pedia, como roupa interior, sunga e biquini.

 

5. Assim sendo, o noivo esperou no cais de paletó e bermuda. Todos esperámos, até uma nuvem de balões se formar lá ao fundo. Era a noiva vindo, irradiante, cabelo negro mais longo que a saia, uma flor cor-de-sangue. Todo o barco os seguiu até à proa para ouvir a promessa. Cem balões brancos subiram então, abrindo caminho a dois balões vermelhos, e o Banzai fez-se ao mar.

 

6. Apesar do truque do noivo, a tripulação trabalhou intensamente na produção de caipirinhas. Fora isso, tudo foi trabalho caseiro, do almoço à música, e fotografar tudo isso. Tirar a roupa demorou o tempo de avistar a primeira praia, daquelas onde só se chega de barco. Os noivos foram os primeiros a mergulhar. Antes mesmo do almoço já estava tudo tão despido como a Alemanha só sonha. Festa na água, para nadar até à praia e voltar com raminhos do que sabia a pimenta-rosa. Nada melhor do que misturá-la com cachaça e abacaxi.

E a meio do barco havia uma espécie de grande cama branca coberta onde os adultos se deitavam como crianças e com as crianças, cheios de sal e de sol.

O sol fez o seu arco. Alguns dormiam, outros vinham da água. Todos pareciam brilhar.

 

7. A mãe da noiva falou, o pai da noiva falou, os noivos cortaram o bolo, o padrinho da noiva falou no cruzamento de negros, índios e brancos: a noiva é pernambucana trineta de índia. O bolo dos noivos tinha mel e dezenas de mini-bolinhos de mel dentro de saquinhos de chita colorida, que irmãs e primas distribuíram por toda a gente, uma tradição. Identidade é tradição e tudo o que cada um lhe põe e tira.

 

8. Quantas noivas viram de túnica por cima do joelho, por cima do fato-de-banho, a lançarem o buquê para trás das costas?

Já então a lua nascia sobre a baía de Paraty. Os noivos não tinham nem contado com isso. A data estava marcada há meses, só na véspera da véspera alguém lhes falara na lua maior dos últimos 18 anos. Não sei como se via da Alemanha, mas não há maior realidade do que estar assim vivo.

O noivo diria apenas:

— Estamos juntos.

E a noiva, ofuscante de tanta luz:

— Festa!

 

(Público, 13-5-2012)

O filho de Gandhi e a bisneta de escravos

Baiana!”, exclama Carlos Machado, parando a sua bicicleta na lama.

Bom dia meu presidente!”, responde ela. “’Tá numa de bike, agora?”

Sempre andei de bike”, devolve ele.

Há que falar alto porque toda a rua está virada do avesso, com escavadoras, britadeiras e um formigueiro de homens, macacões florescentes a dizer: “Rio — Obras”. E é assim andando por toda esta zona portuária do Rio de Janeiro que um ambicioso projecto de renovação quer transformar no Porto Maravilha, coincidindo com os preparativos para o Mundial de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

A presidência de Carlos não tem nada a ver com estes mega-acontecimentos. Ele é presidente local dos Filhos de Gandhi, mítico bloco de carnaval fundado na Bahia em 1949 e no Rio de Janeiro em 1951. Herdeiros da cultura afrobrasileira, tomaram a herança de Gandhi como um manifesto.

Associação cultural e recreativa Filhos de Gandhi — aulas de capoeira, dança afro”, diz a placa numa fachada em ruínas. Carlos não estava lá dentro. Acaba de chegar para o encontro com a repórter e cruzou-se com a vizinha Baiana por acaso. Trouxe a chave para abrir o cadeado da porta. Em frente à porta, um sem-abrigo levanta-se, caminha trôpego entre as escavadoras e a lama. Quando Carlos empurra a porta, aparecem paredes sem tecto, uma ruína a céu aberto, um velho rádio aos brados.

É para parecer que tem alguém dentro”, explica ele. “Estamos tentando ver se colocamos uma cobertura e arrumamos dinheiro para fazer a reforma. Há 60 anos isto era um laboratório de pesquisa de biologia da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Pegou fogo e foi invadido por moradores de rua, virou uma favela, cheia de entulho, não tinha banheiro, nada. Quando a gente chegou tinha 32 famílias aqui dentro.”

É uma longa história. Carlos conta que há 13 anos o prédio lhes foi cedido pelo governo do estado do Rio de Janeiro, com a condição de fazerem obras e pagarem um aluguer simbólico. Pediram ajuda para que as famílias fossem recolocadas, isso não aconteceu. O espaço andou entre governo do estado e prefeitura, e a situação actual é que Carlos e o seu bloco estão a ser instados a sair.

Esta zona portuária fica entre a Baía de Guanabara e a Central do Brasil, de onde saem os comboios para a periferia. E foi justamente na Central que nasceu o braço carioca dos Filhos de Gandhi. “O nosso apogeu foi nos anos 70, quando desfilávamos com 3000, 4000 componentes, junto com os blocos Cacique de Ramos, Bafo de Onça e Boémios de Irajá [lugares da zona norte carioca]. Eram os grandes blocos de embalo, aqueles que saem fantasiados mas não têm um tema.”

E quem fundou os Filhos de Gandhi? “Os estivadores do porto, junto com com alfaiates, sapateiros, moradores deste bairro da Saúde, trabalhadores da região. A Central era o grande ponto de encontro, e a Saúde era o grande ponto do pessoal do samba.”

No apogeu carioca do bloco, diz Carlos, o bloco-pai, lá na Bahia, desfilava apenas com centenas. “E quando começou o nosso declínio começou a ascensão deles. Gil e Caetano voltaram do exílio e resolveram dar apoio aos Filhos de Gandhi da Bahia.”

Caetano canta: “Virá que eu vi / O axé do afoxé Filhos de Gandhi.” E Gil tem toda uma canção: “Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré
/ Todo o pessoal
/ Manda descer pra ver
/ Filhos de Gandhi…”

Entretanto no Rio o declínio foi duro. “Hoje desfilamos com 200, 300 componentes na Avenida Rio Branco [uma das principais do centro] e em Copacabana. Mas estamos crescendo. Quando eu assumi a presidência desfilávamos com dez.”

 

Parte do quilombo

 

Electricista, 61 anos, Carlos é neto de um madeirense. Havia muitos portugueses neste bairro, a que ele teima em chamar Saúde, apesar de uma parte agora ser Gâmboa. “Os moradores têm vergonha de dizer que moram na Saúde porque este triângulo entre a Praça Mauá [junto ao cais], a Central e a Rodoviária era conhecido como zona de prostituição, de assaltos. Hoje está melhor.”

Os Filhos de Gandi querem ficar e encontraram um bom argumento. “Hoje o nosso espaço faz parte do quilombo Pedra do Sal.”

Os quilombos são antigos espaços onde os escravos se refugiavam. Estão a ser protegidos legalmente, com descendentes de escravos a ganharem direito ao lugar. A Pedra do Sal era o ponto onde se descarregava o sal no tempo da escravatura e foi onde o samba nasceu no Rio de Janeiro: sambistas que trabalhavam como estivadores. “Quando estava a ser feita a delimitação do quilombo, eles incluíram o nosso imóvel”, explica Carlos. Se a formalização do quilombo for em frente, terão direito a ficar no prédio.

Somos a mais antiga representante da cultura afrobrasileira no estado do Rio de Janeiro”, diz. “Por isso é que o estado não nos tirou daqui à força, ia ter problemas com a negritude.”

E Carlos até se envolveu na luta contra expulsões de moradores relacionadas com a recuperação do porto. “Isto faz parte do Porto Maravilha, que foi acelerado por causa da Copa e das Olimpíadas. E isso incluiu expulsar moradores, metendo o pé na porta. Aí conseguimos organizar um movimento há um ano e  meio para segurar esse ímpeto.”

Carlos tenta apanhar no telemóvel Damião Braga, o estivador que lidera o quilombo, e como não o encontra propõe irmos até lá. A Pedra do Sal fica aqui por trás, no Morro da Conceição.

Mas por causa das obras é preciso contornar várias ruas. “Estão fazendo uma rede de esgotos”, diz Carlos, levando a bicicleta pela mão. “Com certeza que isso é bom. A obra do Porto Maravilha vem melhorar a qualidade de vida, mas está faltando salvar a permanência dos moradores, que são classe média baixa e pobres. Com a reurbanização, vem a classe alta e estes moradores estão indefesos. Passaram aqui 50 anos, quando a região era um descaso e na hora que vai melhorar são botados para fora? A prefeitura está oferecendo imóveis mas longe daqui.” E novos espaços estão a aparecer. “Vai virar uma nova Lapa [zona boémia do Rio]. Várias casas de espectáculo já foram abertas.”

Subimos pelos antigos jardins do Valongo, a caminho do Morro da Conceição. À medida que a perspectiva se levanta aparece o Morro da Providência, onde nasceu Machado de Assis e depois a primeira favela do Rio. Sempre de braços abertos, o Redentor espreita mais ao fundo.

Os escravos eram trazidos para aqui, cheios de piolhos, de feridas e aqui raspavam-lhes o cabelo, davam alimentação”, conta Carlos, apontando a antiga Casa da Engorda, na subida. “E as feridas dos grilhões eram tratadas na Pedra do Sal.”

No topo avista-se a Baía da Guanabara, do lado oposto ao Redentor. Passamos a cadeia onde estiveram presos os Inconfidentes da célebre revolução mineira e ruas de casinhas coloridas, flores de estuque sobre a porta, como a da dona Rosa que aos 91 anos apanha sol e acha que não há lugar melhor. O Morro da Conceição é um mimo, uma escala de aldeia.

Descendo pela outra encosta, desembocamos na Praça Mauá, antiga zona de boates de marinheiros, onde só sobra a boate Flórida. Adiante, um tapume diz: “Maravilha para quem?” Carlos acrescenta: “É o grande questionamento que a gente faz.” E vai bater à porta de Damião, o líder do quilombo. Ele não está mas vem à janela a negra Mari Lucia Luzia, a quem chamam Lucinha, sua mulher. O quilombo, explica ela, são 25 famílias. “Só estamos à espera da titulação.”

Carlos despede-se. Ela vai mostrar a Pedra do Sal, logo adiante.

Sou descendente de escravos”, diz, pondo o pé em cima da própria pedra, uma grande laje onde às segundas e sextas roda uma bela roda de samba. “Ali em cima é que os escravos eram comercializados.” As paredes parecem aguarelas, com figuras a subirem a ladeira.

 

(Público, 11-5-2012)

O caso do bicheiro que chegou a Brasília e agita o Brasil

Nenhum nome tem feito tanto ruído no Brasil como o de Carlos Augusto Ramos, aliás Carlinhos Cachoeira, um bicheiro que está a ser acusado de “corrupção, peculato, formação de quadrilha armada e vazamento de dados sigilosos” e à hora de fecho desta edição continuava numa cela do Rio Grande do Norte.

Tradicionalmente, os bicheiros são os praticantes de jogo do bicho, apostas ilegais mas populares há mais de um século. O negócio de Cachoeira é mais moderno: “slot machines” ou, na versão brasileira, máquinas de caça-níquel, também ilegais no país. E implica uma complexa rede de influências que abrange o Senado, multiplicada em manchetes de jornais, capas de revistas, transcrição de escutas da polícia, revelação de vídeos em restaurantes cinco estrelas e mesmo entrevistas com a jovem namorada do bicheiro, entretanto convidada para posar nua na “Playboy” — ela recusou.

Este é o Brasil de Carlinhos Cachoeira. Começa em Goiás (estado no centro do Brasil), com a exploração das máquinas de moedas ao longo de quase 20 anos e chega a Brasília com a ligação ao senador Demóstenes Torres, então no partido DEM, agora sem partido. Pelo caminho veio ao de cima um braço carioca do escândalo: as relações entre Cachoeira e a construtora Delta, campeã de contratos com o governo do Rio de Janeiro. E (pela mão de um inimigo político, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho) apareceram vídeos do actual governador Sérgio Cabral em viagens luxuosas a Paris e Mónaco, na companhia do dono da Delta, Fernando Cavendish, respectivas mulheres ou acompanhantes e membros do gabinete de Cabral.

O escândalo Cachoeira rebentou a 29 de Fevereiro, quando a Polícia Federal prendeu o bicheiro e outros cúmplices, desarticulando uma quadrilha de cerca de 80 membros, metade dos quais funcionários públicos, incluindo polícias. A 25 de Abril iniciou-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), oficializando a extensão política do caso. E ontem a Comissão de Ética do Senado decidiu por unanimidade abrir um processo contra Demóstenes Torres, considerando que ele mentiu ao dizer que a sua relação com Cachoeira era só de amizade, que nada recebeu do bicheiro e sempre militou contra os jogos de azar.

 

Análise do polvo

 

É o caso de um empresário que usa suas relações políticas para se dar bem nos negócios”, relativiza ao PÚBLICO Ilimar Franco, analista do jornal “Globo” em Brasília. “Um empresário que fez ‘lobby’ no Congresso, ao lado de outros, para legalizar os casinos no Brasil. Foi pego em pleno voo, pois seu maior poder de fogo é no Estado de Goiás, cuja importância política é periférica. Ele estava tentando abrir as portas em Brasília e no Rio de Janeiro, via Fernando Cavendish e a construtora Delta. Mas foi abatido na subida.”

Marcelo Beraba, editor do “Estado de São Paulo” no Rio de Janeiro vai mais longe, vendo o caso do bicheiro como um “iceberg” que tem emergido. “Carlinhos Cachoeira já era conhecido da polícia, já tinha sido envolvido em outros escândalos”, lembra. “Além das actividades ilegais tinha uma fachada legal de laboratórios e uma grande rede de interesses. O que não se sabia era a extensão do seu poder de corrupção. A grande surpresa neste caso até agora é a revelação de que dominava um senador com uma forte imagem pública ligada à ética, Demóstenes Torres, então no conservador e oposicionista DEM, uma grande parte dos políticos do Centro-Oeste, a construtora Delta, e tinha influência nos três poderes e em vários outros estados.”

O que é revelador de mecanismos presentes na sociedade brasileira, diz Beraba: “A lentidão da justiça, a impunidade, a falta de vontade de fazer valer as leis e instrumentos de controle, o sistema político que montámos, que estimula a corrupção política, a sobrevivência de oligarquias regionais — tudo isso facilita o surgimento de grupos criminosos com capacidade de dominar sectores da política e da economia.”

A imprensa mais à esquerda, como a revista “Carta Capital”, tem destacado ainda outra dimensão deste caso: as ligações de Cachoeira a uma revista tão lida quanto a “Veja”. Escutas telefónicas revelam que o bicheiro usou sistematicamente a revista como veículo para denúncias que lhe eram favoráveis. A “Veja” alega que o Cachoeira era fonte e as denúncias revelantes.

Segundo a “Carta Capital”, a imprensa mais à direita desvaloriza o caso Cachoeira por ele envolver sobretudo a oposição e não o PT, quando o escândalo do Mensalão — que envolve o PT no tempo da presidência Lula — ainda nem foi julgado.

 

(Público, 9-5-2012)

Retrato em branco, pardo e negro

1. No eixo Ipanema-Leblon ninguém diria, mas a maioria da população brasileira não é branca. Foi uma novidade do último censo: pela primeira vez em décadas o Brasil apareceu como um país sobretudo mestiço ou negro. Entretanto, nos liceus, nas universidades, nos escritórios, os negros em destaque continuam a ser a excepção. Destacam-se negros no desporto e nas artes, sobretudo na música. O negríssimo Seu Jorge é um símbolo sexual, mas experimentem dizer isso no eixo Ipanema-Leblon. Elas vão dizer: com todo o respeito, isso não.

E tenho as maiores dúvidas de que a linda Camila Pitanga fosse a sensação nua de que toda a gente neste momento fala — a propósito do filme “Eu Aceitaria as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” — se não fosse uma afrodescendente tão morena-clara, nariz fino, cabelo quase liso, mantendo da herança negra aquilo que o canône brasileiro admite: pele morena e lindos lábios (que até já foram capa para um disco de João Gilberto).

Aliás, o filme é basicamente ela, pele morena e lindos lábios, ainda que a generosidade de Caetano Veloso o veja ir além.

Mas Caetano, mestiço que como ninguém sonha o Brasil mestiço, é o único jovem poeta de carne e osso que eu sigo.

 

2. O que o censo diz é isto: em 190,7 milhões, 96,7 milhões declararam-se negros ou pardos (o termo para mestiços usado pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que conduz o censo). Isto significa 50,7 % da população, com 7,6 % a declararem-se negros e 43,1 % pardos.

Desdobrando em número de gente: o Brasil tem 14,5 milhões de negros (um Portugal e meio) e 82,2 milhões de pardos (mais de oito Portugais).

É a segunda maior população mestiça do mundo depois da Nigéria.

 

3. Os avós de todos eles são os africanos trazidos à força, os índios catequizados à força e a mistura à força de africanos e índios com brancos, sendo que esses brancos eram os portugueses. Há 200 anos o Rio de Janeiro tinha o maior porto negreiro do mundo, recentemente redescoberto nas obras de recuperação da zona portuária. Involuntariamente, a febre da Copa e das Olimpíadas desenterrou os ossos da história: o porto do Rio foi entrada para cinco milhões de negros até 1831, quando o tráfico começou a ser contrariado. E ainda demorou meio século até a escravatura ser proibida, em 1888.

Seguiram-se vagas de imigração não-negra para o Brasil: judeus em fuga às perseguições na Europa, árabes e turcos das regiões mais pobres, alemães, italianos, portugueses, japoneses. No século XX, o Brasil dos censos foi, por um triz, maioritariamente branco.

Mas nos liceus, nas universidades ou nos escritórios parecia exclusivamente branco. Os negros com ensino médio ou superior ou emprego formal eram a excepção.

E os ossos negros da história foram ficando para trás.

 

4. Em 1993 a Unesco começou a traçar uma “Rota dos Escravos” no mundo, com a colaboração de todos os países onde essa herança é relevante. Só na semana passada, o Brasil divulgou o seu “Inventário dos lugares de memória do tráfico atlântico de escravos e da história de africanos escravizados no Brasil”. Um trabalho que indica “os 100 lugares representativos da maior tragédia de mudança forçada da história”, disse ao “Globo” o antropólogo Milton Guran, responsável brasileiro pelo estudo. Países “com menos histórico de escravos negros, como o Paraguai ou a Argentina” já tinham feito o inventário há anos.

 

5. Este último Censo Demográfico 2010, cujos resultados ainda continuam a ser divulgados, dá conta de muitas outras desigualdades na sociedade brasileira.

Desde 2000, o trabalho formal aumentou quase 10 % — os trabalhadores protegidos socialmente são agora mais de 70 % — e o rendimento da população cresceu 5,5 %. Mas também mais de 70 % dos trabalhadores ganha menos de 500 euros. E esses estão sobretudo no Norte e no Brasil rural.

Ou seja, enquanto que em São Paulo ou no Rio se negoceia o metro quadrado mais caro do mundo, e os preços em geral começam a estar à altura disso, embora só uma minoria ganhe salários à altura disso, o rendimento médio no Nordeste é de 377 euros.

E nos subúrbios do Rio ou São Paulo, os que ganham menos, os que têm de usar transportes públicos, são os que levam mais tempo a chegar ao trabalho. No estado do Rio, quase um terço da população leva mais de uma hora para chegar e há municípios onde 20 por cento leva duas horas, porque os transportes simplesmente não estão integrados.

Então o que o novo censo mostra é um país a avançar nos índices de desenvolvimento humano — como há dias destacou o Nobel Amartya Sen, que aqui esteve em palestras —, com a taxa de mortalidade infantil a cair para metade (de 29,7 para 15,6). Mas também um país assimétrico que, sendo a sexta economia do mundo, ainda tem quase metade da população sem o ensino básico completo e a receber salários que não acompanham o crescimento.

É desse lado da assimetria, o dos que há muito são pobres e ainda são pobres, que estão os negros e mestiços. Segundo o censo, o rendimento médio mensal de negros, pardos e indígenas é praticamente metade do da população branca e amarela. E a taxa de analfabetismo é mais do dobro.

 

6. Então leio na imprensa brasileira editorialistas e colunistas ultrajados com a recente decisão unânime do Supremo Tribunal Federal de julgar constitucionais as cotas para negros e pardos nas universidades públicas. Porque o Brasil, escrevem, passa a ser um país racializado. Porque a raça, escrevem, passa a ser um critério. Claro, ninguém quer que a raça seja um critério, a começar pelos negros e pardos que são a maioria do Brasil. Mas, claro, a questão é que a raça já é, tem sido, sempre foi, um critério. As cotas não criam um critério, invertem um critério para que ele desapareça.

O Brasil do futuro não quer ter critérios raciais, quem discordará disto? Será um sinal de que já não precisa deles, desenterrou os ossos negros da história, foi em frente. Mas são sempre os que têm presente que põem o futuro à frente dos outros.

E como mostra o censo, esse Brasil do futuro, onde um casal preto e branco será comum, ainda não é.

 

(Público, 6-5-2012)

 

 

Andréa del Fuego: “Aprendi a escrever com o livro”

Os prémios não servem para nada? “Saramago me deu um grande parto”, sorri Andréa del Fuego, 37 anos. Na semana em que o seu primeiro romance “Os Malaquias” chega às livrarias portuguesas, o seu primeiro filho, Francisco faz dois meses. “O prémio José Saramago é que pagou o parto que eu queria, com a equipa que eu queria, parto humanizado.” Então, “não se pode contar com um prémio”, mas já valeu ter sido a vencedora de 2011. Foi recebê-lo a Portugal de barrigão e agora, enquanto o livro ramifica por aí, o bebé tornou-se uma aventura a tempo inteiro em casa, em São Paulo.

Andréa cresceu na periferia industrial paulista, São Bernardo do Campo, a mesma cidade onde Lula da Silva se fez operário e líder sindical. Mas as férias eram sempre no sul de Minas, na casa dos avós Nico e Maria. É a reinvenção desse sul de Minas, num passado que Andréa não viveu, que faz de “Os Malaquias” um texto poderoso na actual literatura brasileira.

Difícil não ficar agarrado desde o começo, o momento em que os três irmãos Malaquias — “Nico olho azul, nove anos, Antônio, miúdo, seis, Júlia, barriguda, quatro” — ficam orfãos, nas primeiras décadas do século XX. Acontece de noite, quando todos dormem, no fundo da Serra Morena.

Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.

O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.

Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da electricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta.”

Vale a pena citar estes três parágrafos porque eles são uma espécie de núcleo que já contém o livro: uma escrita tesa, visceral, em que natureza, animais e homens se fundem numa única matéria, interferindo no destino uns dos outros além da morte. Mesmo quando deriva para o realismo mágico, o texto  nunca perde a sua fisicalidade radical, por vezes microscópica, da superfície às células. O lugar está vivo, as personagens estão vivas, quem conhece este interior de Minas vai reconhecê-lo, mas quem só conheça por exemplo o interior de Trás-os-Montes também se pode reconhecer.

No tempo de vida de Nico — o avô de Andréa — uma barragem vai inundar o vale mudando a vida para sempre. E alguém pelos vales do Sabor saberá também do que aqui se fala, esse fluido que corre entre a terra e os homens até alguém o quebrar.

 

Contos eróticos

 

A estreia de Andréa del Fuego foi em 2004 com “Minto Enquanto Posso”, contos que ela hoje não reeditaria. “É um erótico meio de realismo mágico, um pouco ingénuo. Mas foi importante para sair do armário.”

Escrevia há anos sem pensar ser escritora. Crescera num bairro de habitação social em São Bernardo, o pai tinha uma loja de assistência técnica, os amigos eram todos filhos de operários. “Passei a infância revirando o lixo dos outros. Adorava revirar lixo.” Aos 17 anos mudou-se para casa do namorado, fotógrafo, quase dez anos mais velho. Estão juntos até hoje, é ele o pai do bebé. E como morava em São Paulo, Andréa mergulhou na megalópole. Estudou publicidade, começou a fazer produção para revistas, para cinema, chegou a ser estagiária em “Terra Estrangeira” de Walter Salles. “Eu só queria fazer meus continhos ali na gaveta. Quem os lia era o meu marido.” E porquê contos eróticos? “O erotismo era uma força imensa, digna de ser escrita. Levar transcendência ao corpo, que é o sagrado, a força da união.”

Até que o editor de uma revista leu e fez duas sugestões. A primeira era que ela deixasse de ser Andréa Fátima dos Santos e passasse a Andréa del Fuego. A segunda era que começasse uma coluna de sexo, com conselhos, num programa de rádio. “Uma coisa humorada. E foi muito divertido.”

Começou a “encaminhar a vida para a escrita”. Usou um blogue como espaço de experimentação, os contos foram saindo. Tinha quase um livro pronto quando a avó morreu, em 2003, lá na Serra Morena. “A editora quis tirar uns contos e pediu outros. Tive de escrever contos eróticos enlutada. Isso deu uma mudança na voz literária. Foi a morte iniciática.”

Porque a avó Maria — a mulher que veio a casar com Nico, como lemos em “Os Malaquias” — era a grande figura da infância de Andréa, nas férias lá no sul de Minas.

Um delírio essa casa, abria a janela da cozinha e era um cheiro de café que não acabava, as minhas tias fazendo tapetes de lã”, lembra Andréa. “Eu ficava ali enebriada no meio desse engenho, uma casa autosuficiente, com sete tias comigo debaixo do braço, andar de noite na estradinha de terra para as festas. Plantava-se o café, criava-se porco, a comida era conservada na gordura, daí se fazia o sabão para a roupa.” E o tio-avô Antônio, anão como no livro, fazia mil tarefas.  “Costurava, cortava lenha, era responsável pelo fogão, fazia vassouras, botava roupa no varal, cuidava das crianças. Faleceu durante a escrita do romance, quase com 90 anos.”

Nico e Maria tiveram 14 filhos, daí tantas tias, tanto trabalho. “O meu avô fazia o tear com que as minhas tias teciam. Todo o mundo trabalhava muito mas ninguém reclamava, ninguém parecia exausto. O meu avô Nico era muito tranquilo e a minha avó era de um carisma! Era como se cada um dos 14 filhos fosse único. Ela tinha o domínio emocional da casa, muito suave, muito sedutora.”

Tanto na casa da serra como na casa da cidade mais perto, Carmo do Rio Claro. “Quando a represa de Furnas aconteceu, o meu avô Nico reconstruiu a casa num lugar mais alto e começou a construir uma casa na cidade.” Mas na morte de Maria todos voltaram à casa da serra e aí Andréa jurou: “Eu vou escrever sobre esse lugar.”

 

Ajuste fino

 

Inicialmente, o livro chamava-se mesmo “Serra Morena”. “Foi o editor, Eduardo Coelho [então na Língua Geral, antes de ter saído para fundar a sua própria editora, Móbile] que disse: ‘Acho que este livro não é sobre o lugar, é sobre as pessoas. O que você acha dele se chamar ‘Os Malaquias’?” Andréa achou bem, e não só isso. “Houve um ajuste fino que gostei muito de fazer com ele, tirar uma palavra e aparecer essa tensão que não tinha antes.”

A primeira versão foi feita entre 2003 e 2005. “Depois deixei esperando, lia e não gostava, sabia que não estava bom.” Voltou lá, trabalhou com Eduardo. “Quando saiu foi um alívio. Era uma questão eterna, eu estava com ele sempre na cabeça.”

Num texto que escreveu sobre a feitura do livro, Andréa diz que as passagens de realismo mágico funcionaram como uma espécie de amortecedor emocional. Como assim? “Percebi isso ao reler”, explica. “Se vou descrever um personagem que cai num bule de café [Nico], não preciso de poesia, mas quando Júlia toma uma sopa me dou ao luxo de ser mais poética. Fui aprendendo a escrever com o livro. O realismo mágico ajudava a não ter que falar directamente desses personagens que existiam em mim, dava um distanciamento. Eu podia manipulá-los para conseguir inventar, como se não fizesse parte daquela família. Não olhar para dentro de si, mas para fora. Se não, ia acabar defendendo demais os personagens, facilitar demasiado a vida deles.”

Frieza, crê Andréa, é bom. “A escrita é um processo completamente racional. Você pode partir de uma emoção mas para desenhar isso, para deitar parágrafos inteiros fora, não pode ser emocional. Se não fica aquela coisa poética, caótica, que é um fluxo de memória e emoção. E quando eu faço isso fica péssimo.”

Sair do real “com uma linguagem real” é o que Andréa quer fazer cada vez mais. “Escrever coisas absurdas numa linguagem normal. A linguagem concisa, limpa, diz que nada está fora do lugar, mas tudo está fora do lugar. O livro que estou a escrever agora é cheio de absurdos mas estou tentando uma linguagem concisa, limpa, como se nada estivesse acontecendo.”

Será um romance, talvez juvenil — como outros contos e novelas que Andréa entretanto publicou —, mas ainda não é certo. Recebeu uma bolsa da Petrobras, o que significa que tem data para ser entregue, e pela autora não seria assim: “Ficaria com ele mais uns cinco anos. É maravilhoso não precisar de fazer frilas [colaborações], mas o problema de uma bolsa são os prazos.” De resto, como os prémios, as bolsas e outros apoios servem para muito: “Muitos escritores saíram da gaveta. É um grande momento. Nas festas literárias [que se têm multiplicado pelo Brasil], você recebe e ainda divulga o seu livro. Há uma cadeia produtiva que vai aumentando.”

Publicado no Brasil pela Língua Geral, “Os Malaquias” teve uma primeira edição portuguesa no Círculo de Leitores, na sequência do Prémio José Saramago, e chega agora ao circuito das livrarias pela Porto Editora.

 

(Público, 4-5-2012)

Rio-Afeganistão-Rio

1. Há uma fila para entrar. Vejo nos braços à minha frente a mesma misteriosa imagem: um soldado com um saco de plástico na cabeça soprado pelo vento. É uma fotografia do húngaro Balazs Gardi feita no Afeganistão. Está na capa da “Zum”, a revista semestral de fotografia do Instituto Moreira Salles, que neste fim de tarde carioca lança o seu segundo número.

Não sei se o que há de jornalismo na “Zum” é o futuro do jornalismo ou se o jornalismo já acabou, mas para quem se interessa pelo mundo em 2012, do Gana à Cidade do México, de Kandahar ao Rio de Janeiro, o relevante é que a “Zum” exista. O instituto já fazia uma revista semestral de ensaio, a “Serrote”, João Moreira Salles continua a viabilizar o jornalismo literário na mensal “Piauí”, e agora a “Zum” são 180 páginas de fotografia com excelente impressão, comentários e depoimentos.

O Rio tem a fama e o proveito de se interessar sobretudo pelo Rio mas vai lotar esta sala para ouvir Balazs Gardi.

 

2. Muitos fotógrafos fizeram boas imagens no Afeganistão. Toda a gente pode fazer boas imagens num iPhone. Balazs Gardi fez grandes imagens no Afeganistão com um iPhone. E é também por isso que a capa da “Zum” é misteriosa: habituámo-nos rapidamente a ver fotos de iPhone e já estávamos habituados a ver fotos do Afeganistão, mas não costumamos ver as duas coisas na mesma fotografia. Balazs Gardi não é fotógrafo por causa do iPhone. Porque é fotógrafo decidiu explorar as possibilidades de uma boa câmara num aparelho ultraleve imune à poeira. Descobriu que o iPhone estava destinado ao Afeganistão.

— A única coisa que não faço com ele são chamadas — diz à plateia.

 

3. Todos os repórteres são herdeiros daquele mandamento de Robert Capa: se uma fotografia não é boa é porque não está suficientemente perto. Uma grande reportagem começa por ser estar o mais perto possível. A fotografia na capa da “Zum” tem isso, Balazs Gardi está mesmo ali, com tudo o que fez dele um fotógrafo e um iPhone. O resultado é uma grande fotografia feita com iPhone que qualquer pessoa não podia fazer: uma grande fotografia depois de largas temporadas no Afeganistão desde 2001, muito pó, muita morte, muitas fotografias que não estiveram suficientemente perto.

Para qualquer pessoa fazer uma boa imagem com iPhone basta um filtro. Balasz Gardi tem o dom, o treino, a dedicação e o filtro, como comprovam as fotografias nas páginas interiores da “Zum”. Uma imagem pode ser um acaso. Várias séries de imagens são as várias narrativas de um trabalho. Tempo.

 

4. Nascido em Budapeste em 1975, Gardi começou a trabalhar como fotógrafo nos anos 90, num diário húngaro. Cobriu tudo, do desporto à política.

— A Hungria é um país com 10 milhões — explica aos cariocas. — O orçamento era muito pequeno e foi ficando cada vez menor.

Podia estar a falar de Portugal.

Em 2001, logo a seguir ao ataque às torres, foi enviado para o Afeganistão. Esperou no Paquistão para conseguir entrar, voltou a Budapeste, entrou pelo Tajiquistão. Seguiram-se outras viagens, até que veio a guerra do Iraque e o Afeganistão deixou de ser uma prioridade, ou seja, deixou de haver orçamento, por pequeno que fosse, para ir ao Afeganistão. Mas Gardi não queria correr de guerra em guerra, continuava interessado no Afeganistão. A isto juntou-se um episódio com a “Newsweek”: uma das suas fotografias foi publicada com uma legenda que dava a entender que a culpa de um ataque fora dos taliban, quando na verdade fora dos militares estrangeiros.

— Tentei que a revista corrigisse — conta. — Mas estas e outras experiências pressionaram-me a trabalhar sozinho, a publicar como independente.

Integrou então o projecto “Basetrack: one eight”, fundado em 2010 pelo fotógrafo americano Teru Kuwayama com uma bolsa da Fundação Knight. A ideia era acompanhar o 1º batalhão do 8º regimento de fuzileiros navais americanos ao longo de vários meses no Afeganistão, criando um site que as famílias e próximos pudessem ir visitando, constantemente ligado às redes sociais, Twitter e Facebook, onde as fotografias eram publicadas. Os vários integrantes do Basetrack rodavam, passando cada um semanas com os soldados. Aplicavam-se as regras do “embedment” (jornalismo condicionado às restrições militares) e expunham-se os cortes publicamente. Gardi mostrou à plateia do Moreira Salles imagens de texto e fotografia com partes censuradas a negro. Clicando por cima lê-se a explicação para a censura. As visitas dispararam no Facebook. Até que tanta exposição incomodou os militares.

— Não fomos expulsos, mas pediram-nos para não voltar. Eles tinham sido corajosos ao acolher o projecto, mas têm as suas próprias fronteiras e este nível de transparência era demasido para eles.

A regra deveria ser aplicar a censura para proteger operações ou vidas. Mas muitas vezes a censura aplicava-se para não mostrar métodos de lidar com os afegãos, ou soldados de cabelo grande ou sem botas, como naquela fotografia em que um soldado posa de arma e farda e Crocs.

Teru Kuwayama acredita que a ideia expandiu as possibilidades do jornalismo e pode ser concretizada em cenários muito diferentes. Não sei se é possível conjugar os interesses das duas partes sem ruptura, se isto ainda se pode chamar jornalismo, ou se me sinto confortável com o facto destas imagens terem o charme sépia de todas as imagens feitas com o Hipstamatic ou o Instagram, ou seja, o facto de o seu charme ser a sua distância da realidade. Mas nunca tinha visto fotografias do Afeganistão como estas.

Uma tempestade de areia em Cabul, um mercado em Bamiyan, combates em Helmand, um táxi a caminho do aeroporto, os destroços de uma bomba suicida, famílias a tirarem água de um poço, um homem a rezar num campo de refugiados, fuzileiros a fazerem musculação, as tatuagens no corpo dos fuzileiros: os assuntos não são novos, mas as imagens sim. E isso faz com que, apesar do céu não ser daquela cor, ou seja, apesar de a fotografia a mostrar como ela não é, esta guerra seja de novo visível

 

6. A primeira vez que Balazs Gardi aterrou no Rio de Janeiro, em 2007, vinha justamente de seis semanas no Afeganistão. Fotografou na Rocinha, então tomada pelo tráfico armado.

— O que mais me surpreendeu foi encontrar armas como eu via no Afeganistão em plena cidade — diz-me, no fim da palestra.

Agora não as veria, mas o tráfico mantém-se, no meio da polícia. Quem lá mora queixa-se de mais insegurança dentro da favela do que no tempo do tráfico armado. A guerra continua, a questão é vê-la.

 

(Pùblico, 29-4-2012)

Supremo Tribunal brasileiro aprova cotas raciais nas universidades

 

 

Por 10 a 0 os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro aprovaram quinta-feira cotas raciais nas universidades públicas . Em concreto, os membros do STF julgavam a constitucionalidade das cotas aplicadas na Universidade de Brasília desde 2004: 20% das vagas para negros e pardos. O partido Democratas (DEM) tinha acusado a medida de ser anticonstitucional por pôr em causa o princípio da igualdade. O STF pronunciou-se e decidiu de forma unânime que era constitucional. E isso significa que todas as universidades públicas brasileiras podem a partir de agora aplicar cotas raciais no acesso dos estudantes.

A decisão é histórica por trazer ao de cima todo um debate sobre as vantagens e desvantagens da discriminação positiva e, de forma mais ampla, confrontar o Brasil com a sua herança negra e o racismo que continua a prevalecer de forma mais ou menos directa.

Toda uma plateia de movimentos negros e indígenas seguiu o anúncio do Supremo e aplaudiu as declarações do presidente, Carlos Ayres Britto: “Toda política de promoção racial que se dote de proporcionalidade e de razoabilidade deita raízes e repousa no regaço da Constituição brasileira. O princípio de unidade da Constituição chancela as políticas de promoção racial. A partir desta decisão, o Brasil tem mais um motivo para se olhar no espelho da história e não corar de vergonha.”

Quanto às vantagens e desvantagens da discriminação positiva, os peritos dividem-se. Há quem defenda que as cotas raciais geram mais discriminação e que a cor da pele não pode ser um critério. E há quem defenda que as cotas são necessárias para reequilibrar uma desigualdade produzida historicamente, em que muito poucos negros ingressaram no ensino superior.

Um dos membros do STF defendeu a possibilidade de serem criadas cotas para baixo rendimento e não de acordo com a raça.

Cerca de 70 universidades públicas das 98 que existem no Brasil já aplicam algum tipo de discriminação positiva.

 

(Pìblico, 28-4-2012)

Gilberto Velho (1945–2012): na selva das cidades, no Brasil como em Portugal

 

No fim dos anos 60, o antropólogo Gilberto Velho foi morar em Copacabana, num daqueles prédios de pequenos apartamentos que serviam as levas recém-chegadas à cidade. Copa, como lhe chamam os cariocas, foi a sua casa e o seu objecto de estudo durante dois anos, e isto resultou num livro chamado “A Utopia Urbana”, publicado em 1973. Para várias gerações de brasileiros e portugueses marcou a descoberta de que a antropologia podia ser também aquilo, a selva da cidade em vez do exótico da selva. E é assim, como um desbravador da vida urbana, e da autonomia dos indivíduos no meio da vida urbana, que várias gerações dos dois lados do Atlântico têm evocado Gilberto Velho desde a sua morte, dia 14, na sequência de um AVC, no Rio de Janeiro. Tinha 66 anos e sofria de problemas cardíacos.

Herdeiro dos investigadores americanos que se debruçaram sobre a cidade, não se limitou a transpôr essa herança para o Brasil. Abriu a universidade a todos os campos possíveis. “A partir dele é que se estudaram prostitutas, militares, bailes funk, astrologia ou políticos”, diz Karina Kuschnir, 44 anos, uma das suas mais próximas discípulas, e autora da fotografia que aqui publicamos, tirada nos jardins do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição onde Gilberto Velho trabalhou durante décadas.

Não só é o fundador da Antropologia Urbana no Brasil como é talvez a voz mais importante da Antropologia Urbana em língua portuguesa, o seu expoente máximo”, resume Graça Índias Cordeiro, 51 anos, professora no ISCTE, em Lisboa. “Foi o fomentador de uma rede de relações entre Portugal e Brasil ao longo de várias gerações.”

A tal ponto que Graça fala em orfandade, lembrando como Gilberto Velho dava aos amigos o melhor que tinha: “Uma inteligência brilhante, uma perspicácia e exigência penetrante, um sentido de humor implacável, uma sensibilidade muito fina e subtil feita de imensa sabedoria e experiência. Todos os que estávamos mais próximos dele nos sentimos verdadeiramente orfãos, neste momento.”

Numa longa entrevista de vida conduzida por investigadores brasileiros e portugueses (http://cpdoc.fgv.br/cientistassociais/gilbertovelho), Gilberto Velho fala do avô paterno transmontano e da emoção que viveu ao avistar finalmente o castelo de Bragança. Isto para explicar a origem da sua relação com Portugal.

Cronista semanal do “Globo”, Hermano Vianna conta na sua última coluna como Velho “procurava o complexo onde menos se esperava”, do prédio em Copa aos consumidores de droga da classe média. “Foi esse olhar atento para o não convencional que me levou a fazer antropologia”, escreve Vianna, que se doutorou com uma tese sobre funk em 1986, quando o funk era uma aberração para a classe média brasileira. Velho ligava de manhã cedo a ver se os orientandos estavam a trabalhar. “Mas seu controle era paradoxal: no lugar de buscar resultados previsíveis, a disciplina deveria produzir o inesperado.” E acompanhou o então doutorando a bailes funk.

O inesperado também se aplicava aos jantares que Velho organizava, lembra Vianna, onde nunca estavam os convidados que ele dizia. Mas um dia prometeu investigadoras portuguesas de rap e Vianna conheceu mesmo investigadoras portuguesas de rap, conta no “Globo”.

Uma delas foi a antropóloga Teresa Fradique, 40 anos, e Gilberto Vellho acabou por prefaciar a sua tese. “Deu aulas no mestrado que eu fazia e veio do Brasil para fazer a arguição da tese. Iniciou-se aí um diálogo interessantíssimo. Ele tinha uma visão muito aberta e criativa, fez as interpelações correctas. Tinha a capacidade de ver no espaço mais vasto e fragmentado os processos culturais que a antropologia aplica a territórios circunscritos e exóticos.”

Teresa também recorda um controle rigoroso dos orientandos. “O choque que tive quando tentei negociar o prazo de entrega de um artigo e ele foi peremptório! Fiquei espantadíssima. Mas assim que recebeu o artigo foi incrível na resposta. Era leonino no acompanhamento, na vontade que as pessoas cumprissem um programa para depois haver espaço para um debate mais profundo.”

 

Inédito para Portugal

 

A antropóloga portuguesa Cristiana Bastos, que viveu no Rio de Janeiro e mantém laços fortes com investigadores brasileiros, recorda o “humor embutido” que encontrou em “A Utopia Urbana”, ao vaguear nas livrarias aí por 1980.

O que li nessa altura ficou-me guardado e sai de vez em quando no modo como trabalho, como me atiro a coisas menos convencionais sem medo. Alguém me inspirou, deu o tom, e eu continuei a música. Anos mais tarde conheci-o em pessoa, quando fiz um estágio no Museu Nacional. Continuava criativo, estimulante, original, e ficámos muito amigos. Tinha uma relação muito interessante com os alunos e colegas, parecia que estava sempre a gozar mas ia instigando a que criássemos coisas novas, e levava-as a sério, publicava livros compilando capítulos de trabalhos dos alunos.”

Como professor era inigualável, tinha um carisma e uma capacidade de comunicação oral única”, lembra Karina Kuschnir, que o conheceu quando era mestranda em 1991, e depois se tornou sua assistente. E como autor, os seus livros — além de “A Utopia Urbana”, por exemplo “Desvio e Divergência”, “Individualismo e Cultura” ou “Nobres & Anjos”, sobre a elite carioca consumidora de droga — contam várias edições, “são intensamente lidos”.

Portugal “estava incluído no horizonte dele de forma natural”, diz Karina. “Acho que ele não via isso compartimentado.” O derradeiro exemplo é que o último trabalho de Gilberto Velho vai ter a sua primeira publicação no próximo número da revista “Sociologia, Problemas e Práticas”, editada pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa.

Foi ele que teve a iniciativa de escrever este artigo e propor a sua publicação, o que aceitámos, evidentemente, com o maior gosto”, explica o sociólogo António Firmino da Costa. “O texto é sobre as empregadas domésticas no Brasil. Nele Gilberto Velho aborda, da maneira profundamente inteligente e sensível que caracteriza a sua obra, comportamentos humanos e relações sociais, interligando a vida das pessoas e as formas de sociedade. É um texto, ao mesmo tempo, muito pessoal e lucidamente analítico, mais um contributo especialíssimo do autor para o conhecimento do universo social em que vivemos, dos seus vários mundos e das pessoas que transitam neles e entre eles.” Poderá ser lido “dentro em breve, logo que o processo de composição e impressão fique concluído”.

Professor do Museu Nacional, onde trabalhou ao lado de Gilberto Velho, e Vice-presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Luiz Fernando Dias Duarte conhece bem o manuscrito. “Estava dirigido ao público português. E tratava de examinar uma dimensão muito interessante da relação entre patrões e empregados domésticos, o que permitia fazer um exame da relação de classes.”

Quem conheça a sociedade brasaileira sabe como essas relações são vividas de uma forma extra-hierarquizada que já não é comum na Europa. Mas Gilberto Velho vai além do aspecto clássico da dominação. “Ele usa a experiência com a sua empregada de várias décadas, a Dejanira, a quem ele chamava Deja. O artigo está dedicado a ela. Estava já aposentada e ele fala do que significou a perda da relação com ela. Todos nós [colegas de Gilberto no Rio] a conhecemos muito bem. Uma empregada doméstica tem um projecto de vida diferente de um professor universitário, mas há espaço para uma mediação. Não se trata de dourar a pílula das relações mas de compreender a sua complexidade.”

Tendo sido um dos primeiros professores de Luiz Duarte, Gilberto Velho influenciou as suas teses de mestrado e doutoramento, sobre classes populares. “Ele era mais um especialista em classes médias, mas tudo isto tinha a ver com a construção social da pessoa, a ideologia do individualismo. Depois fomos colegas 30 anos em salas vizinhas e ele estava muito presente na vida de todos os orientandos e amigos, um esteio constante nos problemas académicos, de família, de saúde.”

Partilharam, por exemplo, a participação na reforma psiquiátrica brasileira. “Tratava-se de denunciar as formas autoritárias de lidar com o fenómeno da perturbação mental, de preservar a capacidade de acção dos sujeitos. A questão da autonomia, da liberdade, era muito importante para o Gilberto. Então temas como drogas, violência ou doença mental eram muito importantes para ele. A Antropologia Urbana é indissociável do Gilberto, mas a questão dos projectos de vida, da complexidade da vida social e das mediações são mais importantes que o facto dele ter criado uma área”.

Num texto de homenagem escrito no dia a seguir à sua morte, a portuguesa Graça Cordeiro resumiu assim o legado de Gilberto Velho do ponto de vista de quem trabalhou com ele: “Aulas, seminários, conferências, lançamentos de livros, projectos de investigação, jantares, conversas, passeios, excursões; onde já não se sabia quem era o historiador, o sociólogo, o antropólogo, o arquitecto, num confortável e bem-humorado diálogo em que todos eram pares.”

Ponte entre Portugal e Brasil será isto.

 

(Público-27–4-2012)

Congresso brasileiro aprova lei que favorece desmatamento mas Dilma deve vetar

A chamada bancada ruralista de deputados, ligada aos grandes proprietários agrários, celebrou quarta-feira mais uma vitória no Congresso brasileiro, ao conseguir aprovar, por 274 votos a favor e 184 contra, um conjunto de polémicas alterações ao Código Florestal, que na prática favorecem o desmatamento na Amazónia.

Uma derrota para o governo de Dilma, que defende o projecto anterior a estas emendas. Com o argumento de que as emendas aministiam desmatadores, a presidente deverá exercer o seu direito de veto para impedir o novo código.

Entre várias mudanças controversas, os deputados aprovaram que deixe de ser obrigatório reflorestar margens de rios com mais de 15 metros de largura em pontos onde haja áreas agrárias consolidadas. As margens são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP), que assim ficam em risco. E incentivados pelo resultado de ontem, os ruralistas pensam já propor que acabe também a obrigatoriedade de reflorestar margens de rio com largura até dez metros. “Esta é a lei que podemos fazer agora”, declarou ao “Globo” o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Moreira Mendes. “Tenho a certeza de que as gerações futuras subirão nesta tribuna para mudar essa legislação, arrependidos dessa história de reserva legal, de APP, que é só conversa fiada, porque na verdade o que importa é a produção de alimentos.”

Outra mudança é a diminuição de terrenos considerados APP, e portanto protegidos. Áreas salinas junto a manguezais, por exemplo, deixam de ser APP, para permitir a criação de camarões. Segundo as emendas dos ruralistas, deixa também de ser obrigatório um mínimo de 20 metros quadrados de área verde por habitante em áreas que têm sido urbanizadas.

Há mais de 10 anos que o novo Código Florestal está em discussão, mas só em 2011 foi aprovado pelos deputados. Entretanto passou ao Senado, onde foram feitas alterações e por isso teve de ser votado novamente. Os partidários de Dilma realçam que a vitória dos ruralistas desta vez foi menor que no ano passado, quando os votos a favor foram 410, para apenas 63 contra.

(Público, 27-4-2012)

Nuno de Mello Bello, novo cônsul geral de Portugal: “O problema dos portugueses ilegais no Brasil é uma realidade”

Vindo de Roma, onde era número dois da embaixada, Nuno de Mello Bello, 50 anos, é o novo cônsul geral de Portugal no Rio de Janeiro. Chega à cidade no momento de maior pujança económica das últimas décadas, de uma nova onda de imigração portuguesa e nas vésperas do Ano de Portugal no Brasil/Ano do Brasil em Portugal. Toda a gente lhe fala no problema dos vistos de trabalho, que faz com que tantos portugueses estejam ilegais.

Entrevista no Palácio de São Clemente, pensado como uma verdadeira embaixada, com todos os materiais trazidos de Portugal no começo dos anos 60: salões faustosos, jardins invejáveis, em pleno centro do Rio. A maioria dos cariocas nem sabe que existe. Nuno Bello diz que quer abrir as portas a tudo o que possa ser bom para a imagem de Portugal. Mas não tem orçamento e o único conselheiro cultural está em Brasília.

 

Tem números de quantos portugueses terão chegado ao Rio no último ano?

 

No consulado só temos o número de novas inscrições consulares, que não são tantas. Mas diria que cerca de 20 mil pessoas terão chegado. É um aumento significativo. E o consulado é diariamente consultado por portugueses interessados em vir.

 

Conhecia bem a cidade?

 

Não, tinha vindo com 17 anos. Tenho 50.

 

O que mais o surpreendeu?

 

Falavam-me sempre da questão da segurança, e acho que esta política de pacificação das comunidades, o que conhecemos por favelas, está a ter resultados concretos. É um esforço fanto. De facto, como consul geral aqui ando de carromnos onde devemos andar e niculdades burocr do mundo, todos estes eventos que oástico das autoridades.

 

Diz isso porque também anda sem motorista, sem carro?

 

Como cônsul, ando de carro, mas também já andei sozinho no fim de semana. E uma pessoa anda normalmente na rua. É uma cidade com tendência para uma vida muito informal, o diálogo estabelece-se com muita facilidade. E se nos anos anteriores o Rio sofreu com a comparação com São Paulo, cada vez mais há investimentos e empresas no Rio. Não só é o antigo centro político do Brasil e um centro cultural como está numa fase ascendente através do petróleo e destes eventos, [Rio+20, Mundial de Futebol 2014, Olimpíadas 2016].

E em qualquer contacto, mesmo com autoridades estaduais, me dizem que o avô era português, a avó, a mãe. Há um capital de relação familiar que faz com que eu sinta enorme capacidade local para laços com Portugal, económicos ou culturais.

 

O contraponto são as dificuldades burocráticas da instalação de portugueses, e antes disso os vistos. Em termos diplomáticos é uma resposta às dificuldades que os brasileiros também enfrentaram em Portugal. Tem noção do problema dos ilegais? Chegam-lhe casos?

 

Chegam, tenho essa noção. Não tenho números, mas se toda a gente me fala é uma realidade. O facto é que vêm dezenas de aviões de Portugal por semana para o Rio, e de certeza não é para toda a gente fazer turismo. Qualquer pessoa que queira vir trabalhar para o Brasil tem que vir com visto de trabalho, que só se obtém em Portugal se já tiver um contrato.

 

É uma pescadinha de rabo na boca: só consegue o contrato se tiver um visto, só consegue o visto se tiver um contrato.

 

Exacto. Mas há pessoas que podem estar aqui períodos de 90 dias, fazer alguns contactos, regressar, e se através desses contactos puderem apresentar um contrato conseguem obter um visto.

 

É complexo, a empresa tem de provar que não existe nenhum brasileiro que possa desempenhar aquelas funções.

 

É complexo, mas há jovens quadros que estão a vir com o visto. Todas as outras soluções mais ou menos imaginativas têm o grave problema de serem trabalho ilegal.

 

Que em muitos casos está a beneficiar a economia brasileira com trabalho especializado, arquitectos, engenheiros. No ano passado, quando veio a Brasília, o primeiro-ministro português disse que a questão dos vistos estaria na agenda entre os dois países. Está em curso algum esforço?

 

Estão a decorrer negociações para a cimeira bilateral no início de Setembro, e sei que dentro dessa agenda há duas subcomissões que me parecem focadas para abordar essas questões, uma para os assuntos consulares, outra para o reconhecimento de graus académicos e acesso a profissões.

A consciência destas questões existe em Lisboa, aliás quando vim eram as preocupações na nossa agenda bilateral: tentar minimizar ou resolver as dificuldades burocráticas.

 

Não são só os vistos. Um português que queira abrir umna empresa aqui no Brasil, por pequena que seja, tem de ter um determinado capital e um sócio brasileiro.

 

Do que estou certo é que pode contar com a Câmara de Comércio Luso-Brasileira do Rio de Janeiro, que está neste momento focada em apoiar todo o tipo de empresários, de quadros, para troca de experiências, para pôr em contacto pessoas. Mais do que o consulado, isso é um trabalho feito pela Câmara de Comércio.

Semanalmente recebo informação de pessoas que querem vir investir no Brasil, em variadas áreas, desde construção de marinas de recreio, a restaurantes, hotéis. E tenho reencaminhado as pessoas ou para as autoridades brasileiras ou para a Câmara de Comércio, porque é esse o meu papel, fazer de ponte.

 

Chega ao Rio no Ano de Portugal no Brasil/Ano de Brasil em Portugal [que começará em Setembro e se estende a 2013]. Os objectivos anunciados são promover as culturas e economias,  estreitar vínculos na sociedade civil e actualizar as respectivas imagens, com um foco num Portugal “aberto, moderno, inovador”. Como vai funcionar a sua articulação com este programa?

 

Desde o início de Março já estive duas vezes aqui com o comissário português, Miguel Horta e Costa. Ele tem feito muitos contactos no Rio e outros locais do Brasil, também através do comissário brasileiro, Antonio Grassi. Está a ser definido um programa, o comissariado português criou um site onde qualquer instituição pode apresentar um projecto e ganhar a chancela Ano de Portugal no Brasil. A ideia é, se o projecto for interessante, ajudá-lo a encontrar financiamentos. Em vez de centralizar, pôr a sociedade toda a funcionar, para obter um efeito multiplicador. Já recebi duas ou três pessoas com ideias, portugueses aqui no Rio.

 

Que tipo de ideias?

 

Desde uma galeria de arte até o World Bike Tour, uma empresa portuguesa que organiza [esse tour] em várias cidades do mundo e organizou no Rio. Ao ver o impacto, com transmissão na Globo, de 8000 pessoas a passearam pela cidade de bicicleta, a minha primeira reacção foi comunicar a Lisboa. Se o conseguirmos associar ao Ano de Portugal, é um bom exemplo de eventos que dão visibilidade.

 

Estamos numa das varandas deste palácio, aqui encostados ao morro, com um jardim magnífico. E na entrada da frente, um dos eixos principais da cidade. Mas o taxista que me trouxe não sabia onde era o palácio e isto acontece constantemente. Frequentadores habituais do meio cultural carioca nunca aqui entraram. Como é que esta casa, que é um rosto de Portugal, pode ser posta ao dispor dessa mudança de imagem?

 

De facto, Portugal tem umas instalações privilegiadas no Rio, que têm de ser aproveitadas por todas as áreas…

 

Talvez não tenha outras assim no mundo.

 

Sim, com esta dimensão, e pensadas para ser uma embaixada, não conheço. Aqui há salões que permitem sentar à mesa 50 pessoas, outra sala que permite sentar à mesa 20, sala de concertos, recepções e uma parte privada muito simpática, completamente separada. A casa está preparada para isso. O que me foi explicado é que há eventos abertos ao público, uns concertos todos os últimos sábados de cada mês, de uma organização, Música no Museu, que faz concertos em vários lugares da cidade.

Desde que cheguei, já tive aqui eventos organizados pela Câmara de Comércio com cerca de 300 pessoas a jantar, onde vieram os grandes empresários portugueses e brasileiros. Tenho previstos até final de Maio dois eventos económicos, seminários de empresas portuguesas que vão utilizar as instalações do palácio.

 

Há orçamento para qualquer tipo de programação?

 

Não.

 

É possível captá-lo? Já que tem a casa, a estrutura?

 

Não tenho meios humanos nem financeiros para uma programação desse tipo. Mas como anfitrião estou perfeitamente aberto a tudo o que sejam eventos portugueses que ajudem a imagem de Portugal no Rio de Janeiro. As portas do consulado estão abertas.

 

Como é que se consegue trazer os cariocas cá para dentro, pôr o palácio no mapa?

 

Se o consulado tivesse, como algumas embaixadas, um conselheiro cultural, naturalmente esse seria o seu papel.

 

Justamente: não deveria existir um conselheiro cultural no Rio de Janeiro?

 

No mundo ideal era óptimo que existisse, não só para abrir as portas do consulado como para dinamizar a pujança cultural que sinto aqui. É um sítio onde um bom conselheiro teria muito trabalho a fazer. Como não existe, o que posso fazer é abrir as portas para ideias e desenvolvimento de eventos.

 

A missão de João Pignatelli [o novo conselheiro cultural em Brasília] estende-se até aqui?

 

Alarga-se ao país, e mais tarde ou mais cedo algum evento da iniciativa do nosso conselheiro cultural em Brasília terá lugar aqui.

Mas a sensação que tenho é que se o mundo económico já percebeu que o Palácio de São Clemente pode ser utilizado, o mundo cultural ainda não.

 

E isso não é uma responsabilidade da diplomacia?

 

É. A minha responsabilidade é dizer que, assim como tem sido utilizado por empresas, terei muito gosto em que seja utilizado por artistas.

 

(Público, 22-4-2012)