Vindo de Roma, onde era número dois da embaixada, Nuno de Mello Bello, 50 anos, é o novo cônsul geral de Portugal no Rio de Janeiro. Chega à cidade no momento de maior pujança económica das últimas décadas, de uma nova onda de imigração portuguesa e nas vésperas do Ano de Portugal no Brasil/Ano do Brasil em Portugal. Toda a gente lhe fala no problema dos vistos de trabalho, que faz com que tantos portugueses estejam ilegais.
Entrevista no Palácio de São Clemente, pensado como uma verdadeira embaixada, com todos os materiais trazidos de Portugal no começo dos anos 60: salões faustosos, jardins invejáveis, em pleno centro do Rio. A maioria dos cariocas nem sabe que existe. Nuno Bello diz que quer abrir as portas a tudo o que possa ser bom para a imagem de Portugal. Mas não tem orçamento e o único conselheiro cultural está em Brasília.
Tem números de quantos portugueses terão chegado ao Rio no último ano?
No consulado só temos o número de novas inscrições consulares, que não são tantas. Mas diria que cerca de 20 mil pessoas terão chegado. É um aumento significativo. E o consulado é diariamente consultado por portugueses interessados em vir.
Conhecia bem a cidade?
Não, tinha vindo com 17 anos. Tenho 50.
O que mais o surpreendeu?
Falavam-me sempre da questão da segurança, e acho que esta política de pacificação das comunidades, o que conhecemos por favelas, está a ter resultados concretos. É um esforço fanto. De facto, como consul geral aqui ando de carromnos onde devemos andar e niculdades burocr do mundo, todos estes eventos que oástico das autoridades.
Diz isso porque também anda sem motorista, sem carro?
Como cônsul, ando de carro, mas também já andei sozinho no fim de semana. E uma pessoa anda normalmente na rua. É uma cidade com tendência para uma vida muito informal, o diálogo estabelece-se com muita facilidade. E se nos anos anteriores o Rio sofreu com a comparação com São Paulo, cada vez mais há investimentos e empresas no Rio. Não só é o antigo centro político do Brasil e um centro cultural como está numa fase ascendente através do petróleo e destes eventos, [Rio+20, Mundial de Futebol 2014, Olimpíadas 2016].
E em qualquer contacto, mesmo com autoridades estaduais, me dizem que o avô era português, a avó, a mãe. Há um capital de relação familiar que faz com que eu sinta enorme capacidade local para laços com Portugal, económicos ou culturais.
O contraponto são as dificuldades burocráticas da instalação de portugueses, e antes disso os vistos. Em termos diplomáticos é uma resposta às dificuldades que os brasileiros também enfrentaram em Portugal. Tem noção do problema dos ilegais? Chegam-lhe casos?
Chegam, tenho essa noção. Não tenho números, mas se toda a gente me fala é uma realidade. O facto é que vêm dezenas de aviões de Portugal por semana para o Rio, e de certeza não é para toda a gente fazer turismo. Qualquer pessoa que queira vir trabalhar para o Brasil tem que vir com visto de trabalho, que só se obtém em Portugal se já tiver um contrato.
É uma pescadinha de rabo na boca: só consegue o contrato se tiver um visto, só consegue o visto se tiver um contrato.
Exacto. Mas há pessoas que podem estar aqui períodos de 90 dias, fazer alguns contactos, regressar, e se através desses contactos puderem apresentar um contrato conseguem obter um visto.
É complexo, a empresa tem de provar que não existe nenhum brasileiro que possa desempenhar aquelas funções.
É complexo, mas há jovens quadros que estão a vir com o visto. Todas as outras soluções mais ou menos imaginativas têm o grave problema de serem trabalho ilegal.
Que em muitos casos está a beneficiar a economia brasileira com trabalho especializado, arquitectos, engenheiros. No ano passado, quando veio a Brasília, o primeiro-ministro português disse que a questão dos vistos estaria na agenda entre os dois países. Está em curso algum esforço?
Estão a decorrer negociações para a cimeira bilateral no início de Setembro, e sei que dentro dessa agenda há duas subcomissões que me parecem focadas para abordar essas questões, uma para os assuntos consulares, outra para o reconhecimento de graus académicos e acesso a profissões.
A consciência destas questões existe em Lisboa, aliás quando vim eram as preocupações na nossa agenda bilateral: tentar minimizar ou resolver as dificuldades burocráticas.
Não são só os vistos. Um português que queira abrir umna empresa aqui no Brasil, por pequena que seja, tem de ter um determinado capital e um sócio brasileiro.
Do que estou certo é que pode contar com a Câmara de Comércio Luso-Brasileira do Rio de Janeiro, que está neste momento focada em apoiar todo o tipo de empresários, de quadros, para troca de experiências, para pôr em contacto pessoas. Mais do que o consulado, isso é um trabalho feito pela Câmara de Comércio.
Semanalmente recebo informação de pessoas que querem vir investir no Brasil, em variadas áreas, desde construção de marinas de recreio, a restaurantes, hotéis. E tenho reencaminhado as pessoas ou para as autoridades brasileiras ou para a Câmara de Comércio, porque é esse o meu papel, fazer de ponte.
Chega ao Rio no Ano de Portugal no Brasil/Ano de Brasil em Portugal [que começará em Setembro e se estende a 2013]. Os objectivos anunciados são promover as culturas e economias, estreitar vínculos na sociedade civil e actualizar as respectivas imagens, com um foco num Portugal “aberto, moderno, inovador”. Como vai funcionar a sua articulação com este programa?
Desde o início de Março já estive duas vezes aqui com o comissário português, Miguel Horta e Costa. Ele tem feito muitos contactos no Rio e outros locais do Brasil, também através do comissário brasileiro, Antonio Grassi. Está a ser definido um programa, o comissariado português criou um site onde qualquer instituição pode apresentar um projecto e ganhar a chancela Ano de Portugal no Brasil. A ideia é, se o projecto for interessante, ajudá-lo a encontrar financiamentos. Em vez de centralizar, pôr a sociedade toda a funcionar, para obter um efeito multiplicador. Já recebi duas ou três pessoas com ideias, portugueses aqui no Rio.
Que tipo de ideias?
Desde uma galeria de arte até o World Bike Tour, uma empresa portuguesa que organiza [esse tour] em várias cidades do mundo e organizou no Rio. Ao ver o impacto, com transmissão na Globo, de 8000 pessoas a passearam pela cidade de bicicleta, a minha primeira reacção foi comunicar a Lisboa. Se o conseguirmos associar ao Ano de Portugal, é um bom exemplo de eventos que dão visibilidade.
Estamos numa das varandas deste palácio, aqui encostados ao morro, com um jardim magnífico. E na entrada da frente, um dos eixos principais da cidade. Mas o taxista que me trouxe não sabia onde era o palácio e isto acontece constantemente. Frequentadores habituais do meio cultural carioca nunca aqui entraram. Como é que esta casa, que é um rosto de Portugal, pode ser posta ao dispor dessa mudança de imagem?
De facto, Portugal tem umas instalações privilegiadas no Rio, que têm de ser aproveitadas por todas as áreas…
Talvez não tenha outras assim no mundo.
Sim, com esta dimensão, e pensadas para ser uma embaixada, não conheço. Aqui há salões que permitem sentar à mesa 50 pessoas, outra sala que permite sentar à mesa 20, sala de concertos, recepções e uma parte privada muito simpática, completamente separada. A casa está preparada para isso. O que me foi explicado é que há eventos abertos ao público, uns concertos todos os últimos sábados de cada mês, de uma organização, Música no Museu, que faz concertos em vários lugares da cidade.
Desde que cheguei, já tive aqui eventos organizados pela Câmara de Comércio com cerca de 300 pessoas a jantar, onde vieram os grandes empresários portugueses e brasileiros. Tenho previstos até final de Maio dois eventos económicos, seminários de empresas portuguesas que vão utilizar as instalações do palácio.
Há orçamento para qualquer tipo de programação?
Não.
É possível captá-lo? Já que tem a casa, a estrutura?
Não tenho meios humanos nem financeiros para uma programação desse tipo. Mas como anfitrião estou perfeitamente aberto a tudo o que sejam eventos portugueses que ajudem a imagem de Portugal no Rio de Janeiro. As portas do consulado estão abertas.
Como é que se consegue trazer os cariocas cá para dentro, pôr o palácio no mapa?
Se o consulado tivesse, como algumas embaixadas, um conselheiro cultural, naturalmente esse seria o seu papel.
Justamente: não deveria existir um conselheiro cultural no Rio de Janeiro?
No mundo ideal era óptimo que existisse, não só para abrir as portas do consulado como para dinamizar a pujança cultural que sinto aqui. É um sítio onde um bom conselheiro teria muito trabalho a fazer. Como não existe, o que posso fazer é abrir as portas para ideias e desenvolvimento de eventos.
A missão de João Pignatelli [o novo conselheiro cultural em Brasília] estende-se até aqui?
Alarga-se ao país, e mais tarde ou mais cedo algum evento da iniciativa do nosso conselheiro cultural em Brasília terá lugar aqui.
Mas a sensação que tenho é que se o mundo económico já percebeu que o Palácio de São Clemente pode ser utilizado, o mundo cultural ainda não.
E isso não é uma responsabilidade da diplomacia?
É. A minha responsabilidade é dizer que, assim como tem sido utilizado por empresas, terei muito gosto em que seja utilizado por artistas.
(Público, 22-4-2012)