Viviane na Cidade de Deus

1. O meu primeiro encontro com Viviane devia ter acontecido na Gávea, bairro carioca com melhor índice de desenvolvimento humano, à porta da PUC, universidade privada onde ela é bolseira. Aconteceu que nessa tarde fiquei hora e meia num engarrafamento e sem bateria no telefone. O trânsito no Rio de Janeiro continua letal, incluindo a violação de uma mulher a bordo de um micro-ônibus desde que escrevi a última crónica. Era brasileira, não americana, e estava na periferia, não em Copacabana, mas foi notícia na BBC e o prefeito Eduardo Paes declarou que ia reforçar a segurança do transporte público, tendo em conta os acontecimentos de projecção internacional que aí vêm. Isto, antes de ir a Nova Iorque combinar mais um acontecimento de projecção, ser anfitrião da Clinton Global Initiative, em Dezembro. Foi com o argumento da projecção (nesse caso, da falta dela) que na semana anterior Paes anunciara o fim do apoio financeiro à OSB (Orquestra Sinfónica Brasileira). Como o anúncio resultou em má projecção, o chamado esculacho público, Paes recuou ainda antes de ir para Nova Iorque. Até o “Globo” o criticara numa das suas colunas político-sociais e quando as críticas ao sistema vêm do sistema é sinal de que o sistema vai mudar. Agora só falta os cariocas no trânsito chegarem vivos à sede da OSB, que aliás ninguém sabe onde ficará. Era para ser na Cidade das Artes, um elefante de betão que demorou 10 anos e 500 milhões a ficar pronto, lá na Barra da Tijuca: o secretário de Cultura diz que sim, o director da Cidade das Artes diz que não. Ocupada demais para este braço de ferro, Viviane vê a Cidade das Artes da janela do 465, como eu vi ao voltar do nosso encontro. É que depois do falhanço no engarrafamento ela remarcou-me para a sua favela, aquela que no cinema foi a cara do Rio de Janeiro e no índice de desenvolvimento humano está em 113º. O que Viviane faz todos os dias é percorrer os 113 escalões cariocas que separam a Gávea da Cidade de Deus.

 

2. Eu nunca tinha ido à Cidade de Deus. Não é um morro que se suba a partir de Copacabana, Botafogo, Ipanema ou Leblon, nem uma daquelas favelas planas que toda a gente vê no caminho do aeroporto. É sem vista, fora da vista, longe pra cacete, e imagino com trânsito. Era uma manhã azul de domingo. Como eu vinha do Jardim Botânico, apanhei um primeiro ônibus para atravessar o túnel até à Rocinha. A “pacificação” na Rocinha, como no Complexo do Alemão, já teve melhores dias. O pós-Carnaval foi de batalha, com ajustes de contas e gente baleada. Mas cá em baixo, junto à passarela de Oscar Niemeyer, tudo fervilhante de tranquilo, filas para vans e para ônibus. E veio o 550 para a Cidade de Deus.

 

3. Há um caminho nas traseiras da Barra que é meio mato, meio baldio, meio favela, e esse é o caminho do 550. Vai ao longo da lagoa da Tijuca, com as torres dos novos-ricos na outra margem, depois mete para o interior e atravessa os barracos do Rio das Pedras, entre cartazes que anunciam Lourinho dos Teclados, Gavião Manhoso, Moleca Sem Vergonha. Bastião das milícias, ou seja, ex-polícias. E ainda vem a Estrada de Jacarepaguá, a subir para a Cidade de Deus.

 

4. Mesmo voando, o 550 levou uma hora até à paragem final, no mercado. Viviane apareceu de shortinho e havaiana, pele escura, óculos de massa, mistura de favela com asfalto, ou antes, ela mesma. Aos 22 anos, pode contar todas as histórias que as garotas aqui contam, orfãs súbitas por doença ou execução. Qualquer vida na Cidade de Deus é foda, enredo de abandonos, a começar pelo estado. Calhou que Viviane deu em ler e alguém estava atento.

 

5. O boteco onde ela organiza o Poesia de Esquina é mesmo junto ao mercado, frente toda aberta para a rua, cadeira de plástico com cervejinha. Viviane convenceu o dono e agora até a filha do dono participa no sarau.

— Até playboy da PUC — ri Viviane.

Aqueles garotos da Zona Sul que pagam dois mil reais por mês de propina. Viviane tem bolsa integral porque fez exame para isso, e fez exame para isso porque os professores do secundário se juntaram para lhe pagar a inscrição no exame da PUC. Agora está a acabar Ciências Sociais e entretanto inventou um sarau mensal na favela. No último houve leituras de Carlos Drummond de Andrade. De resto, quem quer traz a sua, própria.

 

6. Os poemas estavam lá esperando, na cabeça, mais que na mão. Por exemplo, este cavalheiro de leve barba branca que faz lembrar um pouco Luandino Vieira. Diz de cor o que escreve, e cumprimenta beijando a mão.

 

7. Mas nem uma vida de Brasil me podia preparar para o que Viviane então me apresentou, rua fora, depois de muito conhecido: uma diva mulata com mais de 80 anos, cercada por telas que ela mesma pintou, recitando um funk com requebrado para trás, e hum, e han. A graça é poderosa.

 

8. Ruas fora, a Bíblia: José de Arimateia, Ebenézer, Samaritana, Noé. Cidade de Deus, domingo de manhã, com cadeira no passeio, churrasquinho, rádio. Não ouvi missa, não vi arma, nem traficante, nem polícia. As havaianas de Viviane conhecem o caminho, pé solto, cabeça em toda a parte.

 

9. Almoçámos frango assado em casa da avó, que é a casa dela. A irmã comenta o estupro dentro do micro-ônibus. Viviane fala dos Estados Unidos. Teve uma bolsa para um campus da Carolina do Norte, depois foi viajar: Arizona, Las Vegas, Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque. Nunca foi à Europa. Ainda não publicou um livro. Tinha um blogue com poemas mas tirou-o do ar. Talvez mude para prosa, seja como for não é rápida. Custa-lhe escrever. E ler português de Portugal.

 

10. Ela ainda não tinha nascido quando eu tinha a idade dela.

— Melhor voltar no 465, que vai pela Barra, e não por Rio das Pedras.

Acabámos de almoçar, vamos sair. Ao guardar o telefone que ficou a carregar junto à estante reparo n’“O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino.

— Pô, isso é a minha adolescência — diz Viviane.

A minha também.

 

(Público, 12-5-2013)

O dia em que a polícia ocupou a minha favela

1. Site carioca logo pela manhã: “Polícia Militar ocupa favelas do Cosme Velho”. Pulei no lugar. Três-em-uma, as favelas do Cosme Velho são a minha. Sei o dia em que cheguei e o dia em que parti do Cosme Velho. Manhãs de floresta e de bichos, noites de presépio, foguete e missa. Dois anos e dois meses aos pés do morro, e estou com Nelson Rodrigues, amor que é amor não termina.

 

2. A cada dia é mais caro morar na Zona Sul do Rio de Janeiro, incluindo as favelas “pacificadas” da Zona Sul, e isso normalmente quer dizer que as coisas mais interessantes vão acontecer noutra zona, onde alguém queira mais do que ganhar. O Cosme Velho é uma bolha não-imobiliária, casarões que não darão condomínios nem movida. Mas tem a via sacra da subida ao Cristo, de trem, de táxi, de van, a pé, dez mil visitas por dia, incluindo, muito provavelmente, o papa Francisco em Julho. Para usar a linguagem do prefeito Eduardo Paes (que acaba de cortar o apoio à Orquestra Sinfónica Brasileira com o argumento de que o dinheiro público tem de servir o que dá projecção à cidade), não há dúvida de que o Cristo dá projecção à cidade, e imagina na Copa, imagina no papa. Portanto, Cerro-Corá, Vila Cândido e Guararapes, as três favelas do Cosme Velho que eram “as únicas não-pacificadas da Zona Sul”, ou seja, ainda abandonadas pelo poder público, foram ocupadas na segunda-feira por 420 agentes de elite, daqueles com caveiras e capacetes medievais no carro blindado. O “Globo” não foi ao ponto de pôr na capa de terça-feira “O Cosme Velho é nosso”, como fez com a Rocinha. Mas festejou que tudo tenha acontecido em meia hora e sem um tiro. Uma reportagem de unidade municipal, onde ninguém falava de ratos.

 

3. Karine, Carolina e Lucilene falaram-me de ratos mal me sentei com elas nuns degraus da favela, em frente aos batalhões, homens de negro com metralhadoras contra um céu azul, o Cristo dourado. Poster de filme.

— Aqui tem mais rato que gente — dizia Lucilene. — Aí uns seis mil ratos para três mil pessoas.

Claro, nunca ninguém contou. Mesmo gente, irá para três mil somando as três favelas mas é difícil saber. Certo é que vi montanhas de lixo sempre que aqui vim, e rato gosta de lixo, o que se aplica a todo o tipo de ratos, e a todo o tipo de lixo.

 

4. Lixo que demora dias a ir, luz que demora anos a vir, má água, má rua, mau esgoto, má escola, má segurança, má saúde: estado ausente. Ao longo de 26 meses no Cosme Velho o que mais vi subir e descer o morro foram as carrinhas do Hospital Adventista Silvestre, que assiste gratuitamente os moradores das favelas do Cosme Velho, além de os empregar. Várias das entradas dão mesmo para a favela e uma dela é vizinha da Toca de Assis, o convento de onde também sempre vi os franciscanos descerem a ladeira de paralelipípedos a pé, corda à cintura e havaianas. Lá em baixo é o engarrafamento diário, esse Rio-a-caminho-da-Copa cheio de carros e autocarros homicidas, que dois dias depois da ocupação no Cosme Velho matou mais um ciclista.

 

5. Habituei-me a subir a ladeira de paralelipípedos sozinha, dia ou noite. Os garotos na esquina, mototáxis e arrumadores, eram os vizinhos. No Verão choviam mangas, cheirava a mais-que-maduro. De Verão ou de Inverno choviam cachoeiras, depois brilhava. De vez em quando alguém vinha com histórias antigas de desova de corpos, ajustes do tráfico, tiroteios, assaltos. Nunca vi. Só polícia a ameaçar os garotos quando eles se punham a orientar os carros à procura de estacionamento, ganha-pão geral em torno do Cristo. Demorei a subir a ladeira da favela, esquina com a minha, mas quando subi o nome do meu mototáxi era Rafael.

 

6. Esta segunda-feira o meu mototáxi chamava-se Milton. A inclinação é tão aguda, a ladeira tão longa, que toda a gente sobe de mototáxi, dois reais, agora incluindo capacete. Pelo caminho, Milton explicou-me que a investida policial acontecera por causa do papa Francisco que ia dormir do outro lado do morro na sua visita de Julho. Fora isto, fora aquilo, Milton achava que a ocupação ia ser boa para a comunidade. A polícia avisara no fim de semana que entraria, de modo que o tráfico tinha saído, pelo menos da vista. Quanto a droga, um tanto de maconha, nem prisões nem arsenais. Milton desembarcou-me junto à maior concentração de carros e metralhadoras, incluindo um contentor a anunciar a futura UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Não vi Rafael, nem nenhum conhecido, mas havia gente ao sol, a olhar o espectáculo da tropa, e batalhões da Sky TV já a vender assinaturas. Coisas vão vir. Turistas vão subir, a par das rendas. A vista é fabulosa, do Cristo à Guanabara.

 

7. Tudo estava tão tranquilo que o major Busnello, subcomandante do BOPE, num minuto deixou de me interrogar (quem era eu, ali a fotografá-los) e pôs-se a contar histórias do século XVIII, de como a Lagoa Rodrigo de Freitas se chama assim por causa de um cavaleiro português, depois de me ter perguntado porque é que o Cosme Velho se chama Cosme Velho, e onde é que agora eu morava. Por alguma razão o Brasil é o país onde Wagner Moura se tornou galã nacional a fazer de capitão do BOPE, em “Tropa de Elite”.

 

8. Até me custa escrever que já não moro no Cosme Velho. Tive de apanhar um autocarro para lá chegar, segunda-feira. Mas a primeira pessoa que vi ao saltar foi o dono da casa onde morei, ali na esquina como tudo parecia estar: o nicho que lembra uma capela, a hera na subida da ladeira, os graffiti na subida da favela. Era a minha favela, a minha ladeira, a minha cidade. O contrário de uma viagem, ou isso que sendo amor não termina.

 

(Público, 5-5-2013)

Piquenicão no MAR

1. No dia seguinte à minha partida para a China inaugurou, com pompa e protesto, o MAR, Museu de Arte do Rio de Janeiro. A imprensa carioca deu mais conta da pompa. No “Globo” não encontrei sequer referência ao protesto, que pode ser visto no YouTube: uma pequena multidão com apitos, tachos, cornetas e cartazes perguntando “Revitali$ar para quem?” O cifrão tem a ver com os cerca de três mil milhões de euros que estão a ser gastos na revitalização da zona portuária, uma parceria público-privado a que a prefeitura chama Porto Maravilha. Este novo museu anunciava-se como um emblema do Porto Maravilha e a inauguração deu o tom. Ao lado da presidente Dilma Rousseff, o prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral cantaram Parabéns a Você. Tendo em conta o protesto lá fora, Dilma evocou a sua luta contra a ditadura: “Esse barulho das ruas traz a certeza de que este país é democrático, que nós todos aqui achamos perfeitamente natural que haja essa convivência.” Mas um dos argumentos dos contestários é, justamente, que o Porto Maravilha não foi discutido de forma democrática, quando implica parte fundamental da cidade, e é um sintoma do seu destino.

 

2. Entre os museus que vi na China, o mais ufano foi o do Shenzhen, celebração da cidade, do partido e dos seus líderes-em-visita, nomeadamente o defunto Deng Xiaoping, incluindo a mobília do quarto em que dormiu. É um ufanismo ao nível da comédia groucho-marxiana que na democracia brasileira seria impensável, mas lembrei-me do museu de Shenzhen ao percorrer o MAR: propaganda sobrepondo-se a história, feira sobrepondo-se a arte. Estava um céu de cinema, aquele azul-dourado dos meses de Outono, quando no Rio de Janeiro fica uma temperatura digna, como diz a minha amiga Maria. Ela atravessou comigo o coração ainda abandonado do centro, já a prever o que encontraríamos na Praça Mauá: filas intermináveis para entrar no museu, estacionamento improvisado numa ruína a 20 reais, porque neguinho faz pela vida, e era domingo.

 

3. Na primeira fila comprámos bilhete, na segunda subimos de elevador, na terceira entrámos para as exposições, muitas centenas de pessoas, ao todo. O novíssimo museu de arte do Rio de Janeiro atrai um piquenicão de domingueiros. O que não seria problema se o que oferecesse não fosse também um piquenicão: um “digest” da cidade e da arte com tanta coisa espremida que se torna “indigest”.

 

4. Vista de baixo, a cobertura branca ondulada que une os dois edifícios do MAR (um novo e um antigo) é repousante no caos visual da Praça Mauá. Lá em cima, desvenda a Baía da Guanabara e a região portuária com uma amplitude que os cariocas já tinham esquecido. E por isso o projecto de arquitectura (Bernardes Jacobsen) faz-nos subir de elevador ao terraço antes de entrarmos. Mostra como o MAR recupera o que não tinha usufruto público sem que o seu novo volume abuse do contexto. Depois, a partir daqui é literalmente a descer. Dedicado a iconografia do Rio (mapas, fotografias, filmes, pinturas, desenhos, esculturas, cartazes), o terceiro piso torna-se o menos mau porque os pisos abaixo, dedicados a arte, são uma salada entre colecções particulares que dão vontade de fugir (tão avulsa e convulsa é a montagem) e escolhas interessantes na secção O Abrigo e o Terreno. Penetrei um dos penetráveis de Hélio Oiticica, vi os pés no campo de ovos de Anna Maria Maiolino, a instalação de cartão da Dulcineia Catadora, sim, tantas belas coisas mais, mas saturadas, sem espaço.

 

5. O crítico de arte Sérgio Bruno Martins escreveu sobre o MAR (http://www.blogdoims.com.br/ims/o-mar-de-cima-a-baixo-–-por-sergio-martins) um texto que também é sobre o estado do Rio, e por extensão do Brasil, para além dos pólos em que se cristalizaram as reacções: aqueles que vêem o novo museu como mera locomotiva da expansão imobiliária e aqueles que pensam que o importante é ter um museu e pronto. O problema, à partida, é este debate estar excluído da dinâmica do MAR, identifica o crítico, porque o MAR fala em nome da prefeitura, e por definição os porta vozes não discordam das vozes que portam. O MAR reduz-se a uma vocação turística, resume Sérgio Bruno Martins, quando podia ter sido algo irmão do SESC Pompeia concebido por Lina Bo Bardi em São Paulo, um dos espaços urbanos mais emocionantes que vi no Brasil, inteiramente vivido pela comunidade. Em vez disso, enquadrado numa lógica institucional, em que os monitores no terraço anunciam as imagens futuristas do Rio-que-a-prefeitura quer, com os seus arranha-céus espelhados, o MAR é uma espécie de garoto-propaganda do “imaginário triunfalista” desse Rio a caminho da Copa e das Olimpíadas, com o seu Porto Maravilha, o seu Museu do Amanhã de Santiago Calatrava, as suas cinco torres de 150 metros de Donald Trump, o seu hotel de 25 andares que vai rivalizar com o Corcovado. Isto, quando a prefeitura quer demolir a via rápida elevada conhecida como Perimetral porque tapa a vista da Baía da Guanabara, para os cariocas usufruirem da zona portuária. A pergunta, então, passa a ser: vista para quem? Porto Maravilha para quem? Cidade maravilhosa para quem?

 

6. A demolição da Perimetral é um assunto carioca, de boteco, de casa, de mesa. Lembro-me de o discutir com o namorado com quem muito conheci o trânsito do Rio do ponto de vista de uma moto. Parecia-me bem libertar a vista daquele viaduto horroroso. Mudaria a relação com a baía, o horizonte, toda a zona portuária. E aqueles milhões de suburbanos que usavam a Perimetral, perguntava ele? A resposta da prefeitura é que vão passar a ter túneis, e isso é parte dos milhões de milhões em cifrões do Porto Maravilha. A resposta dos críticos é que esses suburbanos vão levar mais horas para voltar a casa e chegar de casa. O que eu não estava a ver é a sombra de tudo o que se projecta em altura nesse mesmo horizonte.

 

7. Não sendo um SESC Pompeia, abriu entretanto no Rio um bom contraponto para o MAR. Chama-se Casa Daros. Fica para a próxima semana. Entretanto, esta foi também a semana em que Rui Chafes inaugurou no MAM e Alexandre Farto na galeria Clark Art Center. Dois portugueses no Rio, no mesmo dia, 25 de Abril.

 

(Público, 28-4-2013)

Seis crónicas chinesas 6: O filho do filho do discípulo de Camilo Pessanha

1. Deixei Macau a ouvir Turtle Giant, 45 minutos de barco até ao aeroporto de Hong Kong, cinco canções. Entre o “check in” e o avião dei outra volta ao disco. A China acabava na voz do filho do filho do discípulo de Camilo Pessanha. Finalmente.

 

2. O dia ia longo de vários dias. Eu acordara às quatro e meia no oeste de Pequim para atravessar toda a cidade até ao aeroporto, no nordeste. Às sete voei para Zhuhai, sul da China, de onde fui para Macau. Macau vai às compras a Zhuhai, Zhuhai vai jogar a Macau e toda a China vai jogar a Macau via Zuhai. A fronteira entre as duas cidades é um centro comercial. No aeroporto de Zhuhai dei um papelinho em chinês ao taxista a pedir que me levasse à fronteira. Quando ele parou no subterrâneo de um centro comercial apontei para o papelinho. Mas o engano era meu: aquilo era a fronteira, subindo as escadas rolantes. E lá em cima, no fim do frenesim, 22 filas para chineses e 2 para estrangeiros, milhares arrastando malas e sacos, do mais falso Louis Vuitton ao mais genuíno azul-Ikea. Do lado de cá China, do lado de lá China, no meio uma fronteira. Pequim-Zhuhai, voo nacional, Pequim-Macau, voo internacional. Aqui yuans, ali patacas, essa moeda de Monopólio que já nem se consegue trocar mal entramos no barco para Hong Kong. Mas o meu barco era só às 20h15, eu ainda tinha toda uma tarde em Macau com o filho do filho do discípulo de Camilo Pessanha, que se chama António, como o pai e o avô, mas a quem toda a gente chama Kiko.

 

3. Quando cheguei a Macau pela primeira vez, em Março, Kiko estava a tocar do outro lado do mundo, no festival South by Southwest. Os americanos apresentaram os Turtle Giant como uma banda de Macau, China. Quase um metro e noventa de barba negra, moreno como um “sikh”, Kiko podia ser “sikh”, afegão, árabe, tudo isto mais do que chinês. Mas tem sangue chinês, como o seu pai António e o seu avô António, que andou no liceu de Macau quando Pessanha lá dava aulas. Não coincidimos nesse começo da minha viagem chinesa: tudo coincidiu para que nos encontrássemos no fim.

 

4. Macau em português é uma aldeia. No começo da minha viagem chinesa, subia eu a Calçada do Tronco Velho quando vi do lado esquerdo uma placa a dizer “Tribuna de Macau”. Andava vagamente à procura dos lugares de Wenceslau de Moraes, achei que num jornal saberiam algo. Então entrei pelo corredor, desci umas escadas, até que da redacção veio uma rapariga de grandes olhos brilhantes. Disse-lhe que andava à procura de Wenceslau de Moraes. Pareceu achar tão natural como se não esperasse outra coisa. Indicou lugares, pessoas, ofereceu o telefone fixo para uma chamada. No fim, sem que nunca lhe tivesse chegado a dizer o meu nome, ela disse que estaria no workshop de jornalismo que eu ia dar.

 

5. Foi assim que conheci a Raquel Carvalho, uma daquelas caras que dão vida a tudo em volta. O “workshop” tinha algumas assim, jovens repórteres portuguesas que chegaram à reportagem quando ela já esperava a ressurreição, e entretanto foram para Macau. Tanto como outro ponto qualquer, Macau podia ser o centro, mas falta gente que venha e vá, discuta e mexa, solta das dependências locais. Depois do “workshop” fomos comer dim sum, aquela espécie de raviolis que escapam dos pauzinhos como enguias, e a Raquel falou porque calhou do namorado que era macaense. Calhava que o namorado era o Kiko, filho de António da Conceição Júnior, neto de António Maria da Conceição, o discípulo de Camilo Pessanha. Estava a tocar no South by Southwest. Talvez o pudesse ver no meu regresso à China, quer dizer, à China continental, dentro de um mês.

 

6. Ao começo dessa noite voltei à Livraria Portuguesa, onde acontecera o workshop, para carregar o telemóvel por uns minutos. Um senhor de barbas brancas dava uma entrevista. A senhora que estava com ele aproximou-se de mim. Disse que sabia quem eu era pela namorada do filho. Claro que essa namorada era a Raquel, e sem que ela nos tivesse conduzido uns aos outros acabei a jantar com o filho e a nora do discípulo de Camilo Pessanha no Noodles Bar daquele Guerreiro das Estrelas que se vê de qualquer lugar de Macau, e é “o” casino de Stanley Ho.

 

7. Pela meia-noite bebíamos chá de gengibre entre fotografias originais de Pessanha e uma cassete em que António Maria da Conceição contava como era Pessanha a dar aulas. Quando os alunos o visitavam para explicações, recebia-os em trajes quase naturais. De resto, andava nu em casa, o que no calor mórbido do Verão macaense antes do ar condicionado seria mais do que compreensível. Depois, Helena, grande guardiã da memória da família Conceição, lembrou-se que conhecia um trineto de Pessanha, e nessa mesma noite arranjou-me o número dele.

 

8. O trineto levou-me à bisneta que me levou ao tetraneto. Pessanhas chinesíssimos, mais ou menos falantes de português, sem uma biblioteca em casa, nem uma “Clepsidra”. Tudo porque ao subir a Calçada do Tronco Velho entrei na redacção da “Tribuna de Macau” e apareceu a Raquel.

 

9. Então um mês depois estou de volta a Macau, para almoçar e passar a tarde com os Conceição, antes do meu barco para Hong Kong e do meu voo para Paris, de onde voarei para Lisboa, de onde voarei para o Rio, sendo que já venho de Pequim, de onde voei para Zhuhai. O império do meio depende de onde estamos. No mapa chinês, Portugal é o fim do mundo, o seu extremo ocidente. Já em Macau podemos comer cozido à portuguesa aos domingos, se formos ao Clube Militar. E é isso que António e Kiko propõem, enquanto Helena anda num passeio guiado: um cozido ao fim do meu mês de arroz-com-bróculos-e-chá.

 

10. Kiko deu-me o disco dos Turtle Giant antes de carregar a minha mala de 28 quilos pelos cinco lances da sua escada, o que me fez pensar que talvez tenha sido a minha última viagem com livros em papel. Sem a família Conceição eu ainda perdia o barco, e com ele dois aviões. Mas deu tudo certo, a começar pela banda sonora para o fim da China. Turtle Giant: três macaenses com sangue chinês, indiano, europeu. A primeira língua de Kiko é português, o lugar que ele conhece melhor é Macau. Se lhe perguntarem quem é, vai dizer que é da Ásia.

 

Seis crónicas chinesas 5. Yao e Li: geração VPN

1. Entro no metro de Pequim para a minha viagem de todas as manhãs de pelo-menos-uma-hora. O átrio cheira a batata doce, porque há um vendedor no passeio, como os de castanhas em Lisboa. É o momento mais caloroso de todas as manhãs. Quando o metro chega já não há lugares sentados, apesar desta estação, Babaoshan, ser a antepúltima do subúrbio oeste, linha vermelha, aquela que corta a cidade na horizontal, com Tiananmen a meio. Cada viagem de metro custa 2 yuans (25 cêntimos), o que permite que milhões andem de metro, o que permite que a cidade funcione. Numa viagem de metro em Pequim temos tempo de inventar mais um conto distópico sobre, por exemplo, o dia em que o metro parou de funcionar. Milhões de filhos de camponeses dentro das carruagens, em breve sem energia nos iPhones e nos samsungs, pela primeira vez a levantarem a cabeça uns para os outros. Milhares de “ratos” no subterrâneo vizinho, onde o céu só é azul nos posters, pela primeira vez sem a vibração habitual das carruagens. Os “ratos” são aqueles que não têm dinheiro para as novas rendas de Pequim, mesmo para as casas velhas, mesmo para um quarto velho num subúrbio ainda mais longe que Babaoshan: chamam-lhes Tribo dos Ratos. Ocupam o labirinto de bunkers que Mao Zedong concebeu para uma guerra nuclear. Agora as autoridades vão expulsá-los porque é insalubre viver assim. Quer dizer, mais insalubre ainda do que viver na China, em geral. E ao fim de uma hora, com apenas uma mudança de linha, chego a Sanyuanqiao, onde vou lutar pela vida para apanhar o autocarro 401.

 

2. Há que lutar pela vida em qualquer lugar da China, porque os chineses são sempre 1,3 mil milhões em qualquer lugar onde estejamos. Pensem nos campos do Alentejo cheios de violetas em Abril, e ninguém, ninguém: a China é o contrário. Estou em Pequim a sonhar com o Alentejo em Abril, mesmo sem saber. Quando me perguntarem como correu esta viagem vou responder que foi um sucesso porque consegui sair da China sem inaugurar o meu registo criminal: conseguirei? Estou em Pequim a ser um péssimo cidadão do mundo, sonho com o Alentejo em Abril e não com Abril na China. Mas também é Primavera na China, até vejo céu azul na paragem do 401, então tudo é possível.

 

3. Dentro do 401 há gente com máscara, como há no metro, ao volante ou na fila do supermercado. Às vezes são máscaras cirúrgicas, mas já vi versões guerra química e versões “hello kitty” (os chineses adoram bonecos). Por vezes são estrangeiros, muito mais vezes são chineses, o único padrão é que há sempre gente com máscara em Pequim, e certamente as partículas fatais vão aninhar-se em nós, os de cara descoberta.

 

4. Conto cinco paragens até sair (um rapaz chinês tinha contado para mim, apontando os caracteres na paragem). Do outro lado da rua há uns algarismos gigantes a dizer 798. Não pensei que tivesse assim o nome à porta, mas o 798 já é uma espécie de Templo do Céu contemporâneo, ou seja, uma instituição. Um conjunto de antigas fábricas ressuscitadas como pólo artístico durante o “boom” da economia-de-mercado-de-orientação-socialista (penso sempre nos bigodes de Marx, Groucho, quando leio esta expressão). A Nova Arte chinesa fez-se aqui, antes de migrar para lugares mais alternativos. E entretanto vieram pizzarias ao som de Joan Baez, cafés com cartazes da P.J. Harvey, souvenires retro com Mao Zedong, muitas más galerias, outras mesmo de fugir.

 

5. Contra uma daquelas paredes de tijolo meio escalavradas do 798, dois soldados da revolução, um ele e uma ela, sorriem para o futuro e para uma câmara digital. É uma cena inteiramente fotogénica, uma fotonovela do século XX chinês, mesmo. Posam de frente para nós, confiantes, e de frente um para o outro, enlevados. Posam a ler uma revista, como se fosse o Livro Vermelho (não comprei nenhum, mas ainda é “o” best-seller). O rapaz da câmara digital orienta a rapariga que segura o reflector, podia ser uma produção de moda. Eu fotografo a fotografia, e atrás de mim já há dois chineses a fotografarem a fotografia da fotografia. Quando a sessão acaba tento falar ao par, e é o segundo momento mais caloroso do dia, porque ele fala mesmo inglês. Ela só arranha, mas é linda, com umas tranças negras e verdadeiras como só as chinesas e as índias podem ter. Ele chama-se Yao, ela Li, respectivamente 25 e 28 anos, a geração dos filhos únicos.

 

6. Todos os filhos únicos com quem falei na China gostavam de ter vários filhos, um até quer ir para a Austrália, onde pode ter 10 filhos, se quiser. Todos os filhos únicos com quem falei dizem que é terrivelmente solitário crescer sem irmãos, os pais todo o dia fora. E estamos a falar de centenas de milhões de filhos únicos.

 

7. A ideia foi de Li, ela, a das tranças: uma produção retro para uma revista de estudantes. Compilaram os elementos da farda.

— Mas não somos fãs de Mao — apressa-se a dizer Yao, ele.

Li não diria isso. Na verdade não pensam a mesma coisa. Ela tira da mochila um livro para explicar melhor. Ele traduz o título: “Porque ler Marx hoje”. Ela quer ler Marx hoje, e não rejeita Mao:

— Admiro as capacidades dele, só não gosto que tenha destruído a cultura clássica chinesa.

Yao é cortante:

— Mao é um ditador. Liderou este país sem lei. Houve muitos desastres causados por ele. A grande fome. O meu tio morreu nesses anos. Outro tio também. Morreram de fome.

A família de Yao é do campo. Como centenas de milhões de chineses, os pais foram do campo para as fábricas, a tal economia-de-mercado-de-orientação-socialista. É a maior migração da história humana: está a ser.

— Mao contribuiu para a guerra contra o Japão — remata Yao.

Quanto a coisas boas é isso?

— É isso.

 

8. Mas nem por isso, ou justamente por isso, Li ou Yao pensam deixar a China.

— Não penso que os países ocidentais sejam um paraíso ­— diz ele.

Nunca saiu da China, mas tem a certeza de que a China da geração dele está muito melhor que a dos seus pais. É a geração VPN, o desbloqueador de Internet. Filhos únicos, que chegaram a adultos com a Internet, e não querem só as versões chinesas do Facebook, do Twitter, do Youtube ou do Blogspot. A censura chinesa não venceu o VPN, ou alguém no partido percebeu que é melhor que tude mude para que alguma coisa fique na mesma. Seja como for, Yao tem uma prova irrefutável de como a China dele é melhor que a dos seus pais:

— Há 20 anos talvez não estivéssemos aqui a falar.

Seis crónicas chinesas 4. A caminho do Tibete

1. Não querendo voar (eu não queria), leva tempo a chegar ao Mosteiro de Labrang. Uns três séculos desde Pequim 2013, onde até os recém-chegados que não falam mandarim dificilmente se perdem no metro, já o maior do mundo, e sempre a crescer. Quase um “rewind” da China, se esse passado não fosse também o presente, ao longo de milhares de quilómetros, cada vez mais para dentro, e para cima. Tentei calcular a distância em quilómetros, mas a Internet que tenho não chega lá.

 

2. O presente da China são os comboios rápidos, com voz “off” em inglês. E é o comboio lento onde quem não consegue bilhete vai de pé, horas em pé, até adormecer, cabeça caída no assento de quem vai sentado. E o comboio ainda mais lento, contemporâneo de Mao, onde mal dormi no beliche de cima, porque as partes mais íntimas percutiam umas contra as outras, já soltas do encaixe original.

 

3. Todas estas horas só me levaram até Lanzhou, uma daquelas cidades no interior da China de que nunca ouvimos falar mas que de um dia para o outro têm três milhões. A praça em frente à estação de comboios era um acampamento de migrantes como eu já vira em outras cidades médias: milhares de camponeses, rosetas, rugas, maus dentes, pele dura, sentados em cima de sacas amarradas a paus, de sacos amarrados com cordas, em pequenos círculos. Vêm da terra para estas cidades instantâneas como os potes de “noodles” que os chineses sorvem em qualquer lugar, basta juntar água quente. Filhos-netos dos que Mao matou à fome.

 

4. Até ao mosteiro ainda faltavam quatro horas de estrada. Era preciso atravessar a cidade, da estação de comboios à estação de autocarros. Foi quando ouvi o primeiro “muezzin”, e comecei a ver a cabeça dos homens coberta por aquele barretinho branco. Lanzhou tanto é caminho para o Tibete como para o Xinjiang, a província muçulmana da China. Se um dia eu voltar à China, há-de ser por lá, contornando aquele dedo de Afeganistão que entra pela China, e faz parte da minha ideia de Marco Polo. Entretanto, entre tentar levantar dinheiro em ATM’s de três bancos diferentes (sem sucesso) e o trânsito de Lanzhou (apesar de ser sábado), partiu o último autocarro que levava a uma cidade próxima da cidade do mosteiro. Restava dormir em Lanzhou, ouvindo os “muezzins” chamarem para a última oração.

 

5. Às sete e meia da manhã já era domingo de Páscoa para os cristãos e havia um autocarro directo para Xiàhé, a cidade do mosteiro. Boa estrada, a subir entre montanhas áridas, cada vez mais remotas. De relance, podia ser quase o interior do Afeganistão, mas logo apareciam fios eléctricos, pedreiras, chaminés, para além do asfalto. O braço do crescimento económico alcança o interior do interior, epicentro da China, se olharmos no mapa. E de um lado e do outro da estrada, de cem em cem metros, mesquitas: todas brancas ou brancas com azul e verde, cúpulas de cebola ou crescentes férteis no cimo de pagodes chineses. Em nenhum país muçulmano me lembro de ver tantas mesquitas de um fôlego.

 

6. Até que pouco antes de Xiàhé surge uma guarita e polícias no meio da estrada. Páram o autocarro, olham as caras a bordo, pedem identidade aos aparentemente-não-chineses. Presente no passado, passado no presente, ou eu achava que ia ser assim tão fácil chegar a um mosteiro tibetano? É um “checkpoint” com todas as letras: estrangeiros chamados à guarita, dados do passaporte anotados numa lista tosca, e todo o autocarro à espera.

 

7. Historicamente, Xiàhé é uma região tibetana. No actual mapa chinês, faz parte da província de Gânsú. Daqui ao Tibete actual (que no mapa chinês também é uma “província”) ainda são muitas horas de viagem, com demorados entraves burocráticos. Mas do ponto de vista tibetano, é já aqui: quando houve levantamentos em Llasa, os tibetanos de Xiàhé também se revoltaram. Viajantes estrangeiros estiveram impedidos de entrar. Resta o checkpoint, just in case.

 

8. Chegando à pousada, a cinco minutos do mosteiro, a rapariga tibetana na recepção também retém os passaportes. É obrigada a levá-los à polícia para registo, apesar de já terem sido registados na guarita. Numa das mesas, o filho da dona faz exercícios a lápis. Levanta a cabeça para me dizer “Hello”, estende-me um caderno com frases em inglês, muito bem desenhadas. As que está a fazer agora são em tibetano, linha por cima da cabeça das letras, letras como um bordado. Olhos de amêndoa gigante, maiores do que qualquer chinês adulto, fala mais inglês do que todos os chineses adultos que encontrei fora das cidades.

 

9. A pousada é uma casa tibetana, com um pano colorido a cobrir cada porta. O restaurante nas traseiras também é uma casa tibetana, com panos azuis e papelinhos vermelhos e chá com leite de iaque. Toda a gente fala tibetano, as mulheres enroladas em panos, longas tranças enroladas na nuca. E por toda a parte há monges de cabeça rapada, enrolados em mantos carmim ou fúcsia. Monges a caminhar entre os muros de terra batida do mosteiro, monges a apanharem táxi, monges a falarem ao telemóvel, a ampliarem a imagem num écrã de iPhone. Fundado em 1709, este mosteiro chegou a ter 4000 monges. A Revolução Cultural (a que agora até chineses em posições oficiais chamam um desastre) ajudou ao “downsizing”. Actualmente são 1400, segundo o monge das visitas guiadas.

 

10. Aos 23 anos, o monge das visitas guiadas ri como um sátiro sempre que não está a debitar o texto decorado sobre o interior dos templos e dos colégios. Sendo um dos seis grandes mosteiros do budismo tibetano, Labrang tem colégios de medicina, teologia, filosofia, ou seja, edifícios onde os monges estudam. Os templos estão repletos de estátuas gigantes de budas, as paredes cobertas com imagens de budas, as colunas forradas de tecidos dourados, e entre as colunas estrados almofadados onde centenas de monges se sentam, cara a cara, para as orações. Toda a luz vem das velas, um claro-escuro bruxuleante com intenso cheiro a manteiga, porque são velas de manteiga de iaque.

 

11. Cá fora, os peregrinos dão voltas e voltas aos templos. Muitos lançam-se ao chão em movimentos repetidos, joelhos enfaixados, palma da mão agarrada a uma pequena tábua que desliza. O mosteiro é como uma pequena cidade, com ruas e muros de terra, portas de madeira esculpida que se abrem para pátios, que levam a templos, de onde se sai para uma outra rua. Os templos estão caiados de branco, ou pintados de castanho, carmim, ocre, azul. Janelas e portas interiores coloridas com aves e feras e paisagens. Por cima das janelas, um rebordo de pano, plissado como uma saia, ondula ao vento, ao som de pequenos sinos. O vento desencadeia a dança e a música, no meio de um silêncio total. Estamos 2920 metros acima do mar e de cada lado ainda há montanhas cobertas de árvores. Na Cidade Proibida ou no Templo do Céu, glórias de Pequim, hordas de turistas dão vontade de fugir. Em Xiàhé somos uns cinco forasteiros registados. Podemos andar dentro do mosteiro sem ver nenhum, sem ver mesmo nenhum chinês. Num domingo de Páscoa assim é mais fácil chegar ao céu.

 

Seis crónicas chinesas 3. Com Yimin Qi em Pequim

1. Ninguém me falou dele, nem o contactei antes, mas 24 horas depois de chegar a Pequim estou a apertar a mão a Yimin Qi em pleno átrio do Beijing Hotel. Na era A.A.C. (Antes da “Abertura” Chinesa) era aqui que o PCC (Partido Comunista Chinês, ou seja “o partido”) hospedava delegações estrangeiras. Fica mesmo ao lado da Praça Tiananmen, embora a expressão “mesmo ao lado” não se possa aplicar à Praça Tiananmen, porque entre a praça e tudo em volta existe um vácuo (com cercas e controle de identidade). Digamos que o Beijing Hotel fica no quarteirão ao lado do topo norte da praça, uma boa caminhada para aquecer. Se Shenzhen era o trópico (literalmente, Trópico de Câncer), em Pequim estão três graus no momento em que escrevo, enrolada numa manta. Tive imensa sorte, dizem os meus anfitriões, há uma semana nevava. E a poluição? Já esteve que não se via o prédio da frente. Tenho imensa sorte: 24 horas depois de chegar, vejo até à lua na noite de Pequim, e cá está Yimin, com o seu livro na mão, “Yu Li: Confessions of an Elevator Operator”.

 

2. O acaso é camarada. Há 10 anos talvez eu não pegasse num livro com este título, mas desde que moro no Rio de Janeiro os operadores de elevador são pessoas de carne e osso que me fazem parar (quem são, quem sou, para onde vamos, e etc). Então lá estava eu numa livraria em Shenzhen, e entre as muitas dezenas de livros em inglês peguei neste por causa do título, estranhando o nome do autor, Jimmy Qi. Entretanto tenho visto como chineses mais habituados a falar inglês oferecem uma variante inglesa do seu nome, com a cortesia com que oferecem os cartões de visita. Se em Shenzhen quase não os achei, em Xangai tanto me voltaram a cara ao ouvir inglês como a vendedora num quiosque de jornais se revelou mais fluente que qualquer estudante. É imprudente escrever algo absoluto em geral, mas na China mais ainda. Mil milhões vírgula três são muitas nuances.

 

3. O livro faz jus ao título: Yu Li, cândido da província, aterra em Pequim para operar um elevador num prédio de luxo, importante missão patriótica, tendo em conta que lá moram um alto quadro e duas estrelas. Yu Li tem de os proteger dos gangsters, mesmo sem saber quem são eles, porque isso é confidencial, o que significa que qualquer pessoa pode ser eles, ou um gangster. E há o problema da arma nuclear dentro das calças de Yu Li, que além de cândido é virgem. Sátira das clivagens da “abertura”, “Confessions of an Elevator Operator” é uma espécie de Voltaire-Kafka-Monty Python “com características chinesas” (para roubar o slogan do PCC).

 

4. Quando acabei o livro, fiz um google a ver se achava a editora de Hong Kong que publicara a (óptima) tradução para inglês. Jimmy Qi morava em Pequim, eu ia para Pequim, queria encontrá-lo. Mas, como ainda ontem me explicaram, existe a Internet e a Chinanet: perante a censura de facebooks, youtubes, twitters, blogspots e etc, os chineses têm as suas próprias redes sociais (além de desbloqueadores). É preciso saber chinês para entrar neste mundo alternativo, de resto ficamos confinados a um Google com uns farrapos em inglês. Em suma, não cheguei ao telefone da editora de Hong Kong, quanto mais ao de Jimmi Qi.

 

5. Eis que mal entro em casa da minha anfitriã em Pequim, lhe falo no livro e ela me estende o cartão do autor. Ela é a Catarina Domingues, jornalista portuguesa a trabalhar na Rádio Internacional da China. No ano passado esteve na primeira edição do Festival Literário de Macau, onde conheceu Jimmi Qi. Eu venho da segunda edição desse festival, e nem sabia que Jimmy fora convidado no ano passado (ou se alguém me disse não fixei). Mas entre todos os lugares de Shenzhen (16 milhões de habitantes), entrei naquela livraria e peguei naquele livro. E entre todos os possíveis anfitriões em Pequim (20 milhões de habitantes), a minha conhecia o autor.

 

6. O cartão diz Yimin, não Jimmy. Ligo mal consigo pôr crédito no meu número chinês. Yimin/Jimmy fala inglês tão bem como o tradutor diz no posfácio, e não pode ser mais simpático. Pergunta-me em que parte de Pequim estou, propõe que nos encontremos ao fim da tarde no átrio do Beijing Hotel. Por acaso reparei nele ao sair de Tiananmen: lembrou-me o hotel de Moscovo onde o PC soviético punha as delegações estrangeiras. Algo de maciço e parte-do-sistema, com um verniz novo. Mas cá está Yimin/Jimmy a sorrir, com o livro na mão para nos reconhecermos.

 

7. Aos 50 anos, Yimin está a estudar cinco horas de russo por dia, sendo que já fala mandarim, cantonês, japonês, inglês e francês. O francês ajuda-o a perceber um pouco outras línguas latinas, incluindo português. É um linguista nato, um conversador nato, e jantar com ele é como viajar no rápido Xangai-Pequim, 1500 quilómetros em menos de 5 horas: ainda estamos a chegar a uma ideia sobre a China (por exemplo, o boom de investidores aqui) e já a China saiu dessa ideia (afinal os investidores estão a mudar para o Vietname ou Indonésia, porque os salários na China deixaram de ser tão baratos). Mas isso tenho visto, como a China está a deixar de ser barata. Em Xangai quase comprei um iogurte por mais de metade do salário de Yu Li, o operador de elevador que Yimin inventou na década passada. Reparei a tempo, na caixa: custava o equivalente a seis euros.

 

8. Como não tenho espaço para todo o jantar, fiquem com a fórmula mágica de Yimin. O sistema que rege estes mil milhões vírgula três de almas é uma combinação de quatro: feudalismo chinês, partido soviético, capitalismo ocidental e meritocracia confucionista (que permite aos mais aplicados dos mais aplicados acederem à elite via exame nacional de educação). Yimin não podia acreditar que ainda existissem operadores de elevador no Rio de Janeiro. Em Pequim, 2013, que ele saiba, foram extintos.Quanto ao pato, tenro, crocante, uma festa. Tivemos de pedir reforço de panquecas.

Seis crónicas chinesas 2. Aos papelinhos en Shenzhen

1. — Posso falar consigo?

Levanto a cabeça do computador. É a chinesa que ontem me ajudou numa conversa impossível ao telefone. Apareceu de repente, tal como agora, um fio de voz e o melhor inglês dos meus dois dias na China Vermelha. Estamos ambas no hostel de Shenzhen, cidade-relâmpago, 16 milhões de pessoas. Indico-lhe a cadeira a meu lado. Ela chama-se Wenji, em inglês Ângela, diz. Tem um namorado americano na América.

— Tanto quanto sei é empregado de mesa.

Fala como se não o conhecesse, mas estão juntos há três anos e meio, à distância porque Wenji ainda não conseguiu um visto. O Plano B dela é Shenzhen, qualquer oportunidade em Shenzhen. Veio de uma cidadezinha tentar a sorte, sem curso universitário nem diploma de inglês.

— Aprendi por mim.

Fala impávida, olhos nos olhos, uma sobrevivente. Lembro-me do que uma portuguesa de Macau contou, sobre as raparigas chinesas não terem paixão. Wenji tem 23 anos, parece menos e ao mesmo tempo mais. Em que posso ajudá-la?

— Como ontem teve problemas de comunicação pensei que podia querer aprender chinês.

Ontem, hoje e as próximas duas semanas da minha vida: nunca estive num lugar em que o inglês fosse tão extraterrestre. Pela primeira vez pensei escrever uma ficção-científica, mesmo não acreditando em ficção: um mundo dominado pelo mandarim, em que os falantes de inglês seriam uma espécie de proscritos como os leitores em “Farhenheit 451″. Mas amanhã vou para Xangai, 18 horas de viagem no comboio rápido. Não posso ter aulas com Wenji, ainda que quisesse aprender mandarim. Digo-lhe isso, ela diz que também vai embora amanhã deste hostel mas ainda não sabe o que fazer em Shenzhen, e eu penso que talvez tenha dormido no hostel para encontrar estrangeiros a quem oferecer ajuda, alguma oportunidade. Em Shenzhen a competição é tão dura como em qualquer capitalismo. Há 35 anos era uma vila de pescadores, veio o capital e “boom”, com os poluentes que Hong Kong não permitia, os salários que Hong Kong não admitia, e tão convenientemente próximo de Hong Kong. Depois, Shenzhen tornou-se tão rica que foi empurrando poluentes e pobres cada vez mais para longe. Hoje, nos seus vários centros, é verde, luxuriante, tropical, high-tec. Ao longo das avenidas há ciclovias cheias de buganvílias. O campus da universidade tem prados e lagos com nenúfares. Os estudantes passam de bicicleta ou mota eléctrica, sem barulho nem fumo. Só não falam inglês, ou não querem falar, ou falam tão mal que não se entende. Não parece fazer diferença, seja como for. Ao pé deles Wenji é Shakespeare, mas não arranja trabalho.

 

2. Árabes, afegãos, africanos ou sul-americanos arranham yes, no, go, welcome, what’s your name, gesticulam, comunicam, já não falando da Índia e outras ex-colónias britânicas. Mas os chineses não parecem ter o gosto nem a necessidade do estrangeiro. Nunca foram colonizados e nunca foram imperialistas. O país é demasiado grande para ser passagem como o Afeganistão, que também nunca foi colonizado mas é um território de atravessamentos, multiétnico, multilinguístico. Os chineses são a maioria da população da terra, todos falam mandarim ou o seu meio-irmão cantonês e a esmagadora maioria nunca viajou nem foi visitada. Na actual bolsa de valores, a China não precisa de uma língua franca com o mundo. O mundo precisa de uma língua franca com a China.

 

3. Então ando literalmente a papelinhos. Nomes, direcções, frases, basicamente tudo. Para ir do ponto A ao ponto B peço no ponto A que me escrevam um papelinho. Fico a ver como todas aquelas mãos de dedos finos, homens ou mulheres, desenham velozmente todas aquelas casinhas. Às vezes dá certo, como quando fui comprar o bilhete para Xangai. Cheguei ao guichet e mostrei o meu papelinho. A trabalhadora não fez o que tendem a fazer os chineses (de acordo com a minha experiência de dois dias) quando lhes mostramos um papelinho: desatarem a falar chinês. Perante o meu papelinho, ela suspeitou bem que eu fosse surda-muda quanto a chinês, portanto chamou uma colega que milagrosamente falava um inglês quase tão bom como o de Wenji.

— Quantos bilhetes?

— Um.

— Por favor dê-me o seu passaporte.

Um autêntico diálogo. E como há estações de comboio em todos os pontos cardeais de Shenzhen, e o meu comboio não sairia daquela estação, escreveu-me um papelinho com o nome da estação certa. À despedida ainda lhe pedi um papelinho com a palavra universidade, porque dali ia para a universidade.

Não deu certo no primeiro táxi. O homem lançou as mãos ao ar e desatou a falar chinês. O segundo sorriu, pegou no telemóvel e passou-mo. Ouvi a voz de uma mulher em inglês e disse-lhe que queria ir para a universidade. Ele desligou orgulhoso.

— Era a minha mulher.

 

4. Às vezes dá mesmo errado. Na universidade, o professor com quem falei escreveu num papelinho o nome de um sítio junto ao mar. O taxista acenou que sim e arrancou buzinando pelas auto-estradas de Shenzhen. Vinte yuans depois parou o carro junto a um terminal de fronteira. Não se via mar em lado algum. Seguiu-se um não diálogo inglês-chinês. Recorri ao telefone, procurei uma fotografia de mar, achei uma da Madeira, ondas brancas. Ele olhou, agarrou para olhar melhor, apertou os olhos intrigado, decifrando a fotografia. E continuou a falar chinês.

 

5. Ainda não apliquei os papelinhos ao problema da alimentação. Estou a tentar fixar em chinês arroz, vegetais, chá, um kit de emergência para quando não há fotografias no menu, ou mesmo para quando há, porque as fotografas não trazem aquele molho que envolve a comida chinesa num enigma tão grande quanto o mar da Madeira para o taxista de Shenzhen. Antes de comer formigas ao tucupi na Amazônia conversei com a cozinheira sobre as formigas. Faz diferença, cria-se uma relação, antecipamos que vão saber a erva-doce. No caso chinês isso não é possível. A mesma portuguesa que me falou das suas amigas chinesas em Macau contou-me a história daquele banquete em que lhe deram o privilégio de estrear a iguaria. Ela é gentil e não recusou, como eu faria. Eram escorpiões.

 

Seis crónicas chinesas 1. Macau for sale

1. Vejo a luz num país perdido: Louis Vuitton, Chanel, Prada. Altares na noite de Cotai, Macau, China do Sul. Os portugueses de Macau dizem que vão à China quando passam a fronteira. Os chineses de Macau acham-se na China e oficialmente têm razão. Um país, dois sistemas: lá yuan, aqui pataca; lá comunismo, aqui casino. Eu deslizo para o maior hotel-casino do mundo, suspensa sobre uma avenida. É uma passagem aérea em mármore polido. Os saltos das garotas percutem no fim das pernas, saltos de drag queen, pernas de colegial com os joelhos para dentro, saídas de micro-calções (Armani, Calvin Klein, Miu Miu). Por baixo de nós tudo era água ainda ontem. Agora é um aterro entre duas ilhas de Macau, a Cotai Strip. Qual Las Vegas-Dubai-Disneylândia. Só o hotel-casino à minha frente tem três mil suites, 3400 slots machines, 800 mesas de jogo e pandas a dançarem funk na fachada do Palácio Ducal. Chama-se The Venetian, versão mega do casino americano com o mesmo nome. Os chineses já não precisam de comprar Veneza, vendem-na em Macau, o mesmo país perdido em que esta tarde roubei flores brancas para deixar a Camilo Pessanha, no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

 

2. A Ponte de Rialto aparece à direita, quase no fim da passadeira rolante. Lá fora é o começo da Primavera, cá dentro  aquela eterna estação dos 17 graus, ar condicionado com drum’n’ bass em fundo. Caminho até à janela para ver a Torre de São Marcos, os canais por baixo, as gôndolas cobertas, porque passa das dez da noite. Já não vou a tempo de averiguar se os gondoleiros são tão venezianos como na publicidade, pelo menos não esta noite. Todos os rapazes parecem ter cabelos soprados pelo vento para um dos lados, óculos vintage de massa, iPhone na orelha. Todas as raparigas parecem ter menos de 40 quilos, obsessão nacional. Todos parecem saídos do Chunking Express, ou dos anúncios em volta. Faço a minha entrada no Venetian entre colunatas: Moschino à direita, Cerruti à esquerda, e por aí fora: Diane von Furstenberg, Valentino, Versace, Givenchi, Kenzo, Boss. Desço as escadas rolantes, seguindo sempre as setas que indicam o hotel: Bank of China à direita. Muito apropriado, tendo em conta que a esmagadora maioria dos jogadores vem de toda a China.

 

3. Esta tarde mesmo, antes de roubar flores para Pessanha, estive num templo taoísta-budista onde garotas com sacos de marca acendiam paus de incenso para as oferendas. Vêm pedir prosperidade, contaram-me. Na China, o dinheiro é uma virtude disuasora, ou vice-versa, tal como o capitalismo alimentar o comunismo. Quanto mais prósperos, menos Tiannanmens.

 

4. Do varandim avisto um estendal Dior no piso de baixo. Como as setas do hotel apontam para lá, desço respeitando a direita. O trânsito inglês também se aplica aos peões. O estendal Dior afinal é multimarcas, mil e uma hipóteses de maquilhagem e ainda não avistei o lobby do hotel. Em versão chique, é a lógica dos hipermercados, fazer-nos atravessar tudo o que não precisamos. Continuo a seguir as setas, agora entre orquídeas brancas. As flores na China são tão perfeitas que parecem falsas. Flores e folhas: nem uma pontinha queimada nem uma pétala murcha. Viçosas, firmes, com cores de rebuçado que nunca vi na natureza. Talvez flores do futuro, como as maçãs sem mossa e as laranjas sem mancha deixadas nos templos.

 

5. Tissot, Tag Heuer, Omega, estamos nos relógios, daqui a nada nas jóias, e mais Dior, mais Louis Vuitton, até que o corredor desemboca nuns biombos. À esquerda, casas de banho reluzentes com torneiras cor de ouro, dezenas de portas. Do lado de lá, o começo do casino.

 

6. Eis então a maior sala de jogo do mundo, banda sonora de slot machines com roletas gigantes, apitos, escalas, explosões, apocalipses electrónicos. Lolitas de olhos espantados convivem com provincianas de bigode, fatos de treino com tailleurs, novatos com viciados. É a grande democracia do dinheiro no bolso: ninguém pergunta nada, nem a mim que tomo notas sem disfarçar. Toda a gente é bem vinda porque toda a gente pode vir a gastar. Só nos dois primeiros meses de 2013 os casinos de Macau ganharam mais de cinco milhões de euros, mais 11 por cento que no ano anterior. A casa nunca perde, lembrou-me um jogador de poker, frase que podemos aplicar à banca em geral. E crise é no outro lado da terra, lá no sol posto.

 

7. Na lógica 24 sobre 24 horas, 365 dias por ano, não há janelas, é sempre dia. Mas para descansar os olhos temos o tecto, uma autêntica Capela Sistina. Roleta, baccarat, black jack debaixo de céus renascentistas, como aquele que também cobre os canais, lá fora.

 

8. Vencendo milhares de jogadores, chego enfim ao átrio do Venetian, repleto de candelabros, espelhos, gravuras, e, à saída, Canalettos. Cá fora, está a fachada do Palácio Ducal. Passeio ao longo do canal, observando a cabeça de dragão numa das gôndolas. Eis senão quando uma chuva de luz e cor começa a cair na fachada do Palácio, com música ribombante. Os pandas do funk aparecem quase no fim. A plateia de pé empunha iPhones e iPads. Desço para a avenida: “A 3D light and sound spetacular”, diz uma placa. O nome do “show” é Prosperity.

 

 

Jailson de Souza e Silva: o novo carioca

Quando Jailson de Souza e Silva, 53 anos, abre a porta de sua casa, a primeira coisa que aparece é uma estante cheia de livros. Entrando, há mais livros (e uma parede azul-petróleo, a contrastar com o branco das estantes). É a casa de um académico: doutorado em sociologia, professor na UFF, a universidade federal do outro lado da Baía da Guanabara.

Para um carioca branco de classe média seria um destino não surpreendente. Mas Jailson é mulato, neto de empregada doméstica, criado numa favela do Complexo da Maré. Foi a excepção numa sociedade hierarquizada, que continua a ter elevadores diferentes para empregados e patrões. Jailson usava  o elevador de serviço quando visitava a avó. Hoje é uma referência do que está a mudar no Rio de Janeiro. Fundador do activo Observatório de Favelas, impulsionou recentemente o livro “O Novo Carioca”, conjunto de ensaios e propostas.

Na noite em que nos encontramos, neste espaçoso apartamento do Flamengo, Zona Sul, ele acaba de enfrentar o trânsito da ponte Rio-Niterói, a que às sete da manhã voltará. Mas senta-se com um copo de vinho branco a explicar o que é isso do novo carioca.

Vivemos o tempo do sujeito reduzido a consumidor, trabalhar oito horas, mais férias, para ter acesso a bens de consumo. Viver para consumir e ser consumido. O novo carioca é a afirmação de um outro tipo de sujeito, que disputa um imaginário e reconhece a importância da diferença.” Na linha da autenticidade de Rousseau: “Cada um tem o direito de ser quem é, homem, mulher, homossexual, negro, criança. Cada um tem uma dimensão singular. E uma dimensão ecológica, integra-se no planeta.”

A base do novo carioca é a cidade e a sua característica é “a extrema mobilidade”. Ou seja, não está confinado a periferias e a zonas de elite, anda por toda a parte. “O que defendemos é o direito de ter a cidade toda, rompendo com os guetos. O novo carioca aprende a conviver consigo e com as diferenças.”

Isto implica questionar velhas polarizações esquerda-direita. “A igualdade só económica foi um fracasso. O fundamental é haver um patamar mínimo de dignidade. Eu adoraria viver numa sociedade pós-capitalista, mas numa visão realista o capitalismo vai manter-se na próxima conjuntura: nós estamos no capitalismo. O desafio é como a gente cria condições para trabalhar. O capitalismo naturaliza a desigualdade, tenta depreciar a igualdade como dinossáurica e transforma a diferença em desigualdade.”

Historicamente, diz Jailson, a esquerda tentou mudar as instituições, criar sindicatos, novas formas. O que não evitou que em vez da instituição estar ao serviço do sujeito seja o sujeito a estar ao serviço da instituição. “O grande desafio é esse, que a instituição sirva o sujeito.”

 

São Paulo/Rio

 

Numa cidade como São Paulo, “a segregação geográfica é maior”, compara. “Tem muito pouco encontro de diferentes galeras [grupos]. Há menos novos paulistas que novos cariocas. Lá não tem praia, que obriga a uma mobilidade. Aqui você anda na Zona Sul e vê favela. É mais difícil separar. Eu posso ter aliados em vários campos. Tem gente que mora em favela que é racista, sexista, homofóbica. E tem gente que mora em áreas nobres e tem compromisso com a democracia. Não estou subestimando as questões de classe, que existem. Mas os novos cariocas são os aliados de um projecto de cidade. Podem estar na favela ou na Zona Sul. O que os distingue é a mobilidade.”

Eles querem apropriar-se da cidade. “O novo carioca não vai à favela fazer turismo e não vai ao CCBB [Centro Cultural do Banco do Brasil] porque achou bacana [chique].” Olha para quem está à sua frente como um indivíduo. Jailson exemplifica: “Eu vejo você antes de tudo como pessoa, sem perder de campo que você é branca, portuguesa, da Zona Sul. Eu sou negro, intelectual da periferia, carioca, tricolor [fã do Fluminense]. Mas meus pertencimentos não me impedem de lidar com o outro. E isso é uma coisa muito específica do Rio de Janeiro.”

Jailson cita parceiros de percurso, alguns dos quais co-autores de “O Novo Carioca”: Écio Salles, um dos organizadores da Flupp, a primeira feira literária das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora, baseadas nas favelas); Marcus Faustini, encenador, dinamizador de redes transversais; José Júnior, líder do AfroReggae (ONG a trabalhar nas favelas); Celso Athayde, autor, produtor, fundador da Cufa ( Central Única de Favelas).  

Crescemos na periferia e nos projectámos na intervenção na cidade”, resume Jailson. “Você me conheceu na Lagoa [bairro da classe média alta] em casa de Francisco Bosco [ensaísta carioca, prefaciador de “O Novo Carioca”]. Eu estou chegando da universidade. E no livro tem uma foto minha com cinco anos e só fui ter outra com 14. Nada mais pobre que não ter imagem. O pobre tem oralidade, não tem imagem. Não tínhamos equipamento para captar a nossa imagem. Os outros captavam a nossa imagem e o nosso discurso. Nós não passávamos de objectos de pesquisa. E hoje temos capacidade de produzir pesquisas que os académicos não têm. Este processo é novo no Brasil.”

 

Estado partido

 

Um dos livros marcantes sobre o Rio é “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura, reflexão e histórias a partir do massacre que a polícia fez em Vigário Geral, em 1993. A cidade partida era essa cidade dividida entre o morro e o asfalto, a favela e a Zona Sul. Jailson propõe outra leitura: “A cidade nunca foi partida. O estado é que é partido, ou parte a cidade. Sempre teve gente que circulou a cidade. Ali tem saneamento e aqui não tem? Tem segurança e aqui não tem? Isso é o estado, não a cidade. E dizer cidade partida naturaliza isso.”

Jailson trouxe Zuenir para o debate. “A gente se encontrou na Universidade das Quebradas [projecto que liga mundo académico à produção cultural das favelas], e foi óptimo. Ele não vê uma contradição connosco.” Trata-se apenas de refocar a abordagem. “É como falar que o homem destrói a Amazónia. Dizer isso é dizer que todos destruímos a Amazónia. Então as empresas e as hidreléctricas deixam de ser as responsáveis.”

Mas como é que esta nova leitura da cidade convive com o Rio da explosão imobiliária, e dos mega projectos, em vésperas de Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016? “O projecto que domina hoje o Rio é a cidade-empresa, atraente para o grande capital, com glamour: a global city”, admite Jailson. “O [prefeito Eduardo] Paes é uma figura ambígua. No governo dele tem várias visões. São governos conservadores que negoceiam com perspectivas progressistas. O Paes é um pragmático. Opera no sentido de construir uma cidade-espectáculo que atraia interesses. Não se incomoda com a periferização dos pobres.”

Não os pobres que já estão na periferia, mas os que estão a ser afastados das favelas da Zona Sul com belas vistas, que depois da chegada da polícia pacificadora passaram a ser atraentes para gente da classe média, artistas, estrangeiros. “A UPP do Vidigal ou do Morro dos Cabritos pode provocar uma substituição dos nativos pelos ricos. Isso é um risco hoje. E não está na agenda do prefeito evitar isso.”

Como poderia evitar? “Regulando a propriedade. Hoje o [bilionário] Eike Batista pode chegar no Vidigal e comprar barracas. A prefeitura não tem legislação que impeça isso. No Leblon [bairro de classe média alta] tem áreas de preservação cultural [APAC]. Eu quero APAC no subúrbio e na favela.” A gentrificação acontece progressivamente, “sem nenhum estímulo para os moradores permanecerem, sem discussão”. Em suma: “Está-se esperando que o mercado defina. E se o mercado tiver chance vai destruir as favelas da Zona Sul. É um espaço valiosíssimo, e isso é uma disputa central na cidade hoje: garantir a polaridade do centro. Se você expulsar população para a periferia não vai ter uma cidade mais rica. O estado tem de operar para garantir diversidade. No Rio isso é uma disputa política. Se nada for feito, o grande capital será a referência para o ordenamento do território. E nós seremos cada vez mais a cidade-empresa.”

Eduardo Paes quer um Rio-global, como Paris, Nova Iorque, Tóquio ou Berlim, cidades-desejo, diz Jailson. Mas “se isso acontecer sem complexidade vai haver uma periferização”, quando “a identidade dessa cidade global é o encontro”.

É aqui que os novos cariocas podem funcionar como “um activo”. “O que os turistas mais gostam é de circular pelos ambientes. Para ver aqui o que tem em Paris é melhor ficar em Paris. O Rio não pode ser provinciano a esse ponto. Tem que ser uma cidade de referência a partir do que tem de melhor.”

 

A bolha

 

Não vai sair barato ser um novo carioca. Jailson levou “a vida inteira” para conseguir comprar este apartamento de 180 metros quadrados, numa das ruas nobres do Flamengo. Custou 685 mil reais (264 mil euros). “Agora jamais o poderia comprar. Vale um milhão e 700 mil.” 655 mil euros. “Em três anos valorizou o triplo. O Rio vive numa bolha de especulação. Na Maré foi vendido um barraco de 50 metros quadrados por 200 mil reais [77 mil euros], numa área degradada, esquina com uma boca de fumo [ponto de venda de droga]. O cara demoliu e está fazendo uma construção. Um galpão que era alugado a dois mil [770 euros], está sendo alugado a dez mil [3850 euros]. Vai chegar num limite.”

Tudo isto não tira que o Rio e o Brasil vivam um grande momento, crê Jailson. “Quem vê a grande mídia, parece que o governo é um desastre, quando a presidente é a mais popular da história. A grande mídia perdeu a base social.” Onde Lula-Dlma menos avançaram, foi “em termos de participação política, de reforma agrária e em questões de comportamento”, ressalva. “Continua sendo crime que uma mulher faça um aborto. Não tratamos da questão das drogas. O Brasil tem grandes desafios políticos e de comportamento.”

Para já, no Rio, a expectativa é que o Complexo da Maré seja o próximo conjunto de favelas a ter uma UPP. A Maré é a paisagem favelada que os recém-chegados avistam ao vir do aeroporto internacional para a cidade. Mas há anos que o Observatório de Favelas e outras redes, trabalham com a comunidade, o que veio ao de cima quando as autoridades anunciaram a intervenção. “Já conversámos com a cúpula da Polícia Militar e com o Secretário de Segurança. A UPP é uma acção positiva embora tardia. Mas tem de haver um controle social da polícia. Se não se tomar cuidado pode ser uma ditadura. É isso que a gente tem de evitar.”

 

(Público, 24-03-2013)