Miguel e Elena

Miguel Relvas

Por João Paulo Batalha, membro da Direção da TIAC

Um dos mitos em torno do fuzilamento dos Ceausescu no Natal de 1989 diz que, por cada bala disparada contra Nicolai, foram disparadas dez contra a esposa Elena, a “melhor mãe que a Roménia poderia ter” (título semi-oficial). O fim dos Ceausescu, despachados num julgamento de hora e meia e sumariamente fuzilados, foi uma catarse para os romenos, por patético e vil que todo o espetáculo pareça a olhares distanciados. Quando as fúrias sopram, a justiça é célere.

Dei por mim a pensar no fim de Elena e Nicolai, e no ódio desmesurado que por vezes se reserva aos subalternos, a propósito da queda igualmente inglória, embora um pouco (só um pouco) menos patética de Miguel Relvas. É certo que nos últimos dias a política portuguesa já nos animou com temas mais prementes, mas importa pensar com alguma frieza e distanciamento na figura, e no que a figura diz de nós – e do regime.

Tal como Elena Ceausescu, Relvas foi um protagonista dúplice, vivendo entre a luz e a sombra, vaidoso do seu estatuto mas com mais responsabilidades do que responsabilização – o mesmo é dizer, um político esquivo, cujo dedo nem sempre se via mas adivinhava-se (ou denunciava-se claramente) em muita da ação política do Governo, mesmo quando eram outros, porventura mais sacrificáveis, a dar a cara e a assumir o custo.

Miguel e Elena têm mais em comum. Elena abandonou a escola aos 14 anos, para um trabalho cinzento numa fábrica têxtil. Iletrada e ignorante, não se distinguiu por coisa alguma até entrar para a política, subir no partido e fazer as alianças certas – no caso, através do casamento. Mau grado isso, do dia para a noite apresentou-se como uma brilhante química, publicando inúmeros artigos e sendo bajulada nas sociedades científicas, na Roménia e fora dela. No circo judicial que a condenou, acusada com o marido de destruir a economia e deixar o povo à fome para pagar a dívida externa, não faltou uma acusação por fraude académica. Soa familiar?

Relvas é a nossa Elena. Numa democracia corroída por partidos bolorentos, carcomidos pela corrupção e os conflitos de interesses, Miguel Relvas entrou no nosso imaginário como a primeira dama da trafulhice, do jeitinho, da intermediação entre gajos porreiros, amigo não empata amigo. E é cedo, por muito que os comentadores se animem, para traçar o seu obituário político, até porque num discurso de renúncia em que listou os seus muitos feitos e sacrifícios (bem à Ceausescu, mais uma vez), o ministro reiterou com naturalidade o seu posto no vértice entre partido, Estado e negócios – um triângulo onde ele se criou, e o resto de nós se vai dissolvendo.

Mesmo na polémica licenciatura, se for apenas condenado a cábula poderá Relvas dar-se por feliz. Porque, lido com atenção, o relatório da Inspeção-Geral da Educação e Ciência vai bem além de meros ilícitos administrativos. Não sou jurista nem conheço a definição criminal de favorecimento pessoal, mas que nome se dá a um exame realizado numa amena cavaqueira, à margem de leis e regulamentos, num processo a que nenhum outro aluno teve direito? O famoso relatório está agora nas mãos do Ministério Público – e espero que o Ministério Público lhe dê a atenção devida.

2 comentários a Miguel e Elena

  1. Se o final de Helena se repetisse aqui em Portugal, muita gente teria mais cuidado ao entrar na politica e talvez o país nao estivesse na lástima em que se encontra.

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  2. Meu caro João Batalha,
    Foi com deleite que absorvi a sua escrita.
    Apreensivo, à partida, pela comparação, mas compreensivo, durante a explanação e fundamentação dos factos.
    Haverá por aí alguns Ceosescus mas há, com certeza, muito mais Helenas camufladas no nosso meio político, jurídico e económico.
    Estou convicto que se houvesse um 25 de Abril de um qualquer ano vindouro, com o sofrimento que há anos estamos suportando e com a lembrança do que não fizemos no 25 de Abril de 1974, o nosso povo daria, certamente e com justiça, a todos estes pequenos imperadores, condes e respetivas Helenas, o tratamento adequado. Certeza é só uma: só a morte dos tiranos e traidores impede a continuidade dos seus atos e dos seus malefícios.

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