Uma votação em quatro línguas

Por Luís Pais Bernardo, membro da TIAC

Dia de eleições. A Ford Transit que transporta a equipa móvel, na qual estou integrado, palmilha caminhos decrépitos, onde a gravilha dá lugar a borbotões rochosos e a casas modestas. Paramos numa aldeia. É a única aldeia arménia em todo o país, dizem-me. Dois rapazes, de ar discreto e ligeiramente desconfiado, tentam passar ao largo da carrinha. Impossível. O motorista, cujo nome me escapou (e explicarei a razão para tal dentro de instantes), pergunta o caminho para a mesa de voto mais recôndita da região que monitorizamos. Só estamos a cinquenta quilómetros de Tbilisi, mas entramos noutro mundo, onde a Geórgia é apenas mais uma referência. Em Klevmo Kartli, não se pode falar, sem esperar um conflito verbal (com alguma sorte e imprudência), da República do Nagorno-Karabakh. Porque, aqui, a maioria da população é de etnicidade azeri, o Azerbaijão está ali ao lado e também cá dentro, com as bombas de gasolina da petrolífera estatal (as quais, segundo me é sibilado em voz baixa, estão a gerar celeuma por ameaçarem o monopólio da distribuição, que pode, ou não, estar ligado ao presidente em funções). E porque também há uma minoria arménia relevante nesta região, a poucas dezenas de quilómetros da fronteira com a Arménia. Este mundo, com a geopolítica à flor da pele (ouve-se falar da Abkházia e, apesar de muita gente falar russo, a Rússia é vista como potência imperial; os ecos da anexação e ocupação soviética são materiais e imateriais).

Os dois rapazes aproximam-se. Retorquem à primeira pergunta, feita em georgiano, com um encolher de ombros. Também não percebem azeri. Em russo tão-pouco. À quarta, em arménio – porque o motorista fala todas as quatro línguas, um prodígio que me recorda o fascínio desta zona, o Cáucaso Sul, a entrada para a estepe da Ásia Central -, respondem. É preciso percorrer mais borbotões de rocha, lá ao fundo, entre vales, e uma estrada dará lugar a outra. Até que, por fim, encontramos a mesa.

Olhares desconfiados e grupos de homens sentados em bancos corridos ladeiam a porta para a mesa. Olho-os de frente e não desviam o olhar. Aprecio a franqueza. Lá dentro, um caos subtil. Pequenas estranhezas que me lembram quão discretas foram as minhas experiências enquanto eleitor. Representantes de partidos observam a identificação dos eleitores. Pergunto porquê, aponto o dedo e finjo escrever no telemóvel. Sorrateiramente, afastam-se. Talvez pudéssemos apresentar uma reclamação à Comissão Central de Eleições, mas aprendemos que até a observação eleitoral deve ser mediada por uma sensibilidade cultural. De outro modo, teria passado o dia inteiro em reclamações. Porque a bizarra identificação de eleitores através de raios UV apontados a dedos sujos de tinta invisível, numa zona rural, dá azo à recusa de qualquer luz roxa apontada à pele. Porque alguém havia circulado o rumor de que seria prejudicial à saúde e as eleitoras e eleitores de Marneuli, Tsugrugasheni, Rachisubani ou Bolnisi precisam de ir trabalhar. Três eleitoras, aparentemente da mesma família, entram em fúria para a zona de voto e tentam resolver algo entre si. Os membros da mesa, vestidos de verde, tentam gerir a situação.

Entre as nove e dez da manhã, telefonemas contínuos. Faltam duzentos boletins numa mesa. Duzentos noutra. Alguém ronda uma mesa e fala em tom ameaçador à presidente. Em zonas de baixa densidade demográfica onde a economia local é pouco especializada, toda a gente se conhece. O candidato maioritário, Koba Nakopia, pede para me cumprimentar. Sou o internacional. Ali, sou o guardião da transparência de uma eleição importante. Transformo-me numa marioneta política por instantes e sorrio com um ligeiro desdém. São práticas políticas que não me parecem estranhas; aliás, parecem-me conhecidas, demasiado conhecidas.

Alguém vai votar sem identificação. Uma reclamação é escrita. Noutra mesa, uma sondagem à boca da urna reveste-se de uma aura caricatural que me faz cruzar os braços e ficar a olhar para os dois rapazes. Só abordam mulheres. A coordenadora da equipa móvel telefona para o advogado da TI Geórgia e percebe que não podemos fazer nada. Ao lado, dois grupos, claramente divididos entre partidários do Movimento Nacional Unido, do atual presidente, e partidários do Sonho Georgiano de Bidzina Ivanishvilli, bebem vinho. Um deles levanta-se, periodicamente, e circula. Olha para mim com ar ameaçador até reparar na identificação internacional. Esbugalha os olhos. Talvez nunca tenha visto um nome tão esquisito como o meu. Talvez seja como o responsável pelo registo das entradas na mesa que ouve falar em Portugal e, em seguida, profere “Luís Figo”. Experiências curiosas num mundo que eu, cuja família tem origem na Serra da Estrela, penso ter conhecido há muito tempo.

E, apesar de todos os problemas, reparo que nenhum deles é um mundo estranho; é uma democracia a tentar erguer-se, com os problemas associados à competição partidária ultra-polarizada que definiu o processo eleitoral. Está longe de ser uma democracia consolidada, mas foi a primeira transição de poder mais ou menos pacífica no Cáucaso Sul. Embora o sistema eleitoral e a estrutura institucional não garantam a criação de consensos mínimos, os passos mais difíceis estão a ser dados. Demos o nosso contributo. E a vontade coletiva dos povos residentes na Geórgia singra.

Leia o relato do obser­vador da TIAC Thierry Dias Coelho: «Era uma vez em Tbilissi»

Leia o relato do obser­vador da TIAC David Mar­ques: «O valor de um voto limpo»

Leia o relato da obser­vadora da TIAC Susana Coroado: «Como votar na Geór­gia profunda»

5 comentários a Uma votação em quatro línguas

  1. Pingback: TIAC

  2. Pingback: Como votar na «Geórgia profunda» – Às Claras

  3. Pingback: O valor de um voto limpo – Às Claras

  4. Pingback: Era uma vez em Tbilissi – Às Claras

  5. Pingback: Da fria Geórgia, uma lição de democracia – Às Claras

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>