O valor de um voto limpo

Por David Marques, membro da TIAC

Por vezes é difícil discernir tudo o que está envolvido numas eleições, um ato tão simples: colocar um papel numa caixa selada com a nossa escolha pessoal e secreta, mas cujo processo pode dizer tanto de uma cidade, região ou país.

Por muitas queixas – e queixas legítimas – que possamos fazer à saúde da democracia portuguesa, essa capacidade de escolher em liberdade os nossos líderes, na segurança de uma cabine de voto, é algo que damos como adquirido mas que está longe de estar garantido em muitos países por esse mundo fora. Foi por isso um privilégio fazer parte da equipa de observadores eleitorais que a Transparency International mobilizou para acompanhar a votação nas eleições legislativas da Geórgia, no início de Outubro.

Para a Geórgia, foi uma eleição importante, que marcou a primeira vez em que uma oposição organizada, reunida em torno do milionário Bidzina Ivanishvili, derrotou o Governo do Presidente Mikhail Saakashvili, cujo partido vinha aumentando o seu controlo sobre as principais instituições do país. Igualmente importante, o Presidente aceitou a derrota e abriu caminho para uma transição de poder ordeira, algo também raro na história das ex-Repúblicas soviéticas.

Em Kutaisi, a segunda maior cidade da Geórgia, onde fui colocado como observador, as salas de voto parecem transparentes, organizadas, calmas. As pessoas comportam-se de forma civilizada e, talvez excluindo a eventual babushka sentada perto das listas de eleitores enquanto anota quais os apoiantes do seu partido que vieram votar, parece decorrer tudo dentro da normalidade. Ao contrário de outras cidades na Geórgia, não existem aqui carros com vidros fumados à espera nas saídas dos locais de voto, e os desacatos parecem limitados a alguns locais de voto nas zonas urbanas mais pobres. Talvez uma situação um pouco peculiar, para uma cidade que até recentemente dizia-se ser uma das “casas” da máfia russo-georgiana.

Noutros pontos do país, a mobilização dos observadores foi um obstáculo direto às manobras das máfias e dos sindicatos de voto. Emitindo atualizações em tempo real, via Twitter, e comunicando problemas de fraude ou de intimidação através de ferramentas online, foi possível garantir uma eleição limpa – no total, os observadores registaram 91 violações à lei, 60 das quais graves. Perto de 50 reclamações oficiais ficaram registadas. Em geral, os resultados da votação refletiram a vontade do povo georgiano. A fraude e a intimidação não venceram.

De facto, as recentes políticas de combate à criminalidade do executivo da Geórgia não só reduziram a criminalidade neste país como, supostamente, eliminaram de vez a máfia russa de dentro da Geórgia. Por esta ou por alguma outra razão, aqui em Kutaisi os cidadãos comportam-se mais civilizada e democraticamente do que nos outros postos de voto do país. Isto pode indicar duas situações: ou que valorizam, agora e mais do que em outras cidades, a capacidade de ser o povo a liderar o seu próprio destino, e não quaisquer elites criminais (sejam elas investidas ou não de poderes ditos “legais”); ou que as redes da máfia ainda estão estabelecidas no âmago destas cidades, levando as redes de influência a funcionar de forma ainda mais oculta do que em situações normais. Junto das pessoas também não é fácil descobrir – a tradicional “hospitalidade agressiva” dos georgianos, que os leva a generosamente agraciar quaisquer visitantes com comida e bebida, funciona como barreira para descobrir o que realmente se passou durante estas eleições.

Mas no fim de contas, o importante é que na prática, a confidencialidade do voto foi respeitada e que, independentemente de qualquer influência que tenham recebido do lado de fora, naquele momento, naquela sala e naquela cabine de voto, as pessoas foram independentes e puderam decidir por si, sem ninguém saber, sem fotos de votos, sem confirmações por terceiros, em quem queriam votar. Na construção de uma democracia sólida e madura, esta foi uma vitória valiosa.

Leia o relato do observador da TIAC Luís Pais Bernardo: «Uma votação em qua­tro línguas»

Leia o relato do observador da TIAC Thierry Dias Coelho: «Era uma vez em Tbilissi»

Leia o relato da observadora da TIAC Susana Coroado: «Como votar na Geórgia profunda»

4 comentários a O valor de um voto limpo

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