Como votar na «Geórgia profunda»

Por Susana Coroado, membro da TIAC

Abasha e Martvili localizam-se numa região rural da Geórgia ocidental, onde a queda da URSS, a guerra civil e o colapso económico empurraram a população para a agricultura de subsistência, deixado várias instalações industriais ao abandono. À exceção das escolas e do centro cultural, que se situam no centro daquelas pequenas cidades, a maioria das secções de voto encontra-se em locais remotos, com estradas de acesso em gravilha, algumas vezes sem saída.

Tradicionalmente fiel ao partido do Presidente, os poucos incidentes ou irregularidades que têm lugar devem-se à natural desorientação de quem lida com procedimentos eleitorais recentemente modificados ou a tentativas quase anedóticas e falhadas de fraude, como o eleitor que rasgou uma folha do caderno eleitoral e fugiu. No entanto, fora das secções de voto, não deixa de se sentir um ambiente estranho. Algo está errado, mas não se sabe bem o quê ou como evitá-lo. São várias as pessoas que se amontoam nas salas de voto, algumas sem a identificação obrigatória. Grupos de sete ou oito pessoas, claramente não pertencentes à mesma família, chegam transportados em carrinhas. Vários homens “esperam” nas imediações. Sondagens à boca das urnas pedem identificação aos eleitores. Ocorrem claras demonstrações de força, como o candidato da oposição que, sem motivo aparente, se passeia à frente de três escolas onde decorre a votação, rodeado de meia-dúzia de musculados seguranças. Pressão à porta e «espreitadelas» à janela durante a contagem dos votos. Se esta pressão teve ou não impacto nas opções de voto, é difícil avaliar.

Enquanto observadora, fui recebida com curiosidade e algumas vezes – poucas – com desconfiança. Um observador internacional, entendido como mais imparcial que os locais, tem sobretudo um papel dissuasor. Mais do que registar incidentes, a sua presença desencoraja atos que ponham em causa o processo eleitoral, uma vez que há menos probabilidades de um observador estrangeiro “fechar os olhos” a irregularidades. A denúncia de fraudes é fundamental para garantir a veracidade dos resultados, mas a simples presença do observador contribui para assegurar o correto desenrolar do processo eleitoral, que é, no fim de contas, o principal objetivo.

Leia o relato do observador da TIAC Luís Pais Bernardo: «Uma votação em qua­tro línguas»

Leia o relato do obser­vador da TIAC Thierry Dias Coelho: «Era uma vez em Tbilissi»

Leia o relato do obser­vador da TIAC David Mar­ques: «O valor de um voto limpo»

4 comentários a Como votar na «Geórgia profunda»

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