O combate

Manifestantes em Lisboa

Por Luís Bernardo, membro da TIAC e subscritor do manifesto “Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas”

Subscrevi o manifesto que apelou às manifestações do passado dia 15 de Setembro. Por muitas razões. A principal é aquela que encima o texto. Foi esse o seu propósito. E estive na rua, enquanto cidadão, já não apenas preocupado, mas revoltado. E não estaremos – eu, os outros membros da TIAC, os membros da direção da TIAC, e todas as portuguesas e portugueses – de acordo quanto às motivações, à forma, ao meio ou à linguagem inerente a um ato de revolta e afirmação de vontade (coletiva e individual) como uma manifestação. Muitos concordarão com o Memorando de Entendimento. Se não estou enganado, a TIAC foi a única organização da sociedade civil que enviou um conjunto de comentários à comissão composta pelo BCE, pela CE e pelo FMI. Li o Memorando e discordei das medidas apresentadas, como discordei das avaliações disponibilizadas no website do FMI. Muitos concordarão com a presença da troika. Eu discordo: considero-a nefasta e prejudicial. Foi por isso que decidi sair à rua e manifestar-me. E também não estaremos de acordo quanto à posição política tomada pelas subscritoras e subscritores do referido manifesto. Contudo, não é por isso que partilho, aqui, a minha experiência.

Partilho-a porque vi, nas caras e nas palavras de ordem, que uma das muitas lutas, naquele dia – e para além da luta que figura com maior proeminência no manifesto e que foi o tópico maior das manifestações, a sua razão essencial -, foi a rejeição da corrupção, a rejeição de uma cultura política e empresarial que prima pela chamada “porta giratória”, pela acumulação de posições em órgãos de governo societário (como mostrado por um relatório da CMVM), pelo conflito de interesses e pelo distanciamento entre representados e representantes. Temas que, muitas vezes, não são abordados pelos nossos representantes ou pelas entidades que, numa democracia representativa, deveriam canalizar vontades coletivas e tomar posição. Mas raramente os partidos portugueses tomam uma posição afirmativa contra a corrupção. Abundam as generalidades e também abundam as posições vagas, irrelevantes e desinteressantes. O quadro institucional português não ajuda, é certo. Mas a realidade é que a distância entre aquilo que vi, no Sábado, e as posições ambíguas e pouco claras dos partidos e deputados à Assembleia da República, no que respeita ao combate à corrupção, é demasiado grande. Urge mudar. Urge mudar muita coisa em Portugal, e esta é uma delas.

É importante debatermos estas questões. A TIAC desempenha – e visto a camisola desta organização que ajudei a fundar e ajudo, todos os dias, a suportar e crescer – um papel importantíssimo. Contudo, só por si, e fazendo uma travessia no deserto (ou num mar de tubarões, conforme as sensibilidades), a TIAC não poderá cumprir a sua missão expressa, que diz ser a construção de um Portugal mais íntegro, mais transparente e com um grau menor de corrupção. Penso que nenhuma das cidadãs ou cidadãos participantes nas manifestações de Sábado passado discordará desta missão. E a promoção do bom governo precisa do apoio de todos. Combater a corrupção, que é uma pequena parte da promoção do bom governo, depende de uma mudança estrutural que só ocorrerá caso rejeitemos a má qualidade das instituições, a má qualidade do debate ético e moral na esfera civil e o péssimo estado do debate plural de ideias. Discordaremos de muito, como convém a uma democracia vibrante, de alta intensidade, mas não disto.

No entanto, talvez discordemos a respeito de outras coisas. De que tudo se resolve com prisões e repressão, por exemplo. Da ideia de que os nossos representantes eleitos são todos iguais e da postura fatalista de que temos uma democracia demasiado jovem, demasiado velha ou demasiado podre. Nada disto é verdade. A política é uma criação humana e, portanto, o nosso destino coletivo é moldável. Nem todos os representantes eleitos são iguais ou igualmente corruptos – e não me refiro, como poderia parecer, a espectros ideológicos, porque a integridade e a transparência, creio-o firmemente, podem e devem transcender credos ideológicos (e eu tenho o meu, como parecerá evidente a todas e todos). Devemos combater os conflitos de interesses, a extração de rendas públicas por grupos parasitários e lutar, na rua ou no gabinete, no café ou na escola, pela constituição de estruturas que melhorem a qualidade da nossa democracia e da nossa república. E dizer que “eles” são todos iguais, ou que “a classe política é toda corrupta, sem excepções” não é o caminho.

Também não acredito que “mandá-los a todos para a prisão” ou clamar “pelo fuzilamento de todos os políticos” resolva seja o que for. Não foi por isso que decidi sair à rua no dia 15. Decidi levantar a voz contra fenómenos e processos que considero injustos e iníquos. A corrupção foi um deles. E é também por isso que dedico muito do meu tempo à TIAC e à promoção do bom governo. Essa promoção não se faz através de uma pulsão repressiva que nada pretende mudar; a corrupção combate-se com mais escolas, não com mais prisões para crimes de colarinho azul ou branco. E, embora precisemos de fortalecer a legislação existente, ela servirá de pouco se não soubermos agir – sempre de acordo com aquilo em que acreditamos e sempre com a convicção de que podemos melhorar a vida que temos. Também foi por isso que assinei o manifesto e fui para a rua gritar. Porque também é preciso, embora não baste.

Diz-se, muitas vezes, que o país precisa mais de empreendedores que de investigadores. Eu respondo a estas invetivas desta forma: acima de tudo, o país precisa de pessoas com vontade de debater, mudar, trabalhar e fazer com que o futuro dos nossos filhos seja melhor que o nosso. É isso que define uma sociedade bem-sucedida e é por isso que me encontrarão numa manifestação, a investigar para a TIAC, a debater ideias e a propor soluções.

11 comentários a O combate

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  3. Continuem o bom trabalho. Acho que é esta vontade de combater a corrupção e melhorar o futuro de Portugal para os nossos filhos ou mesmo para o nosso próprio futuro que finalmente vamos avançar…

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  4. Caro Luís Bernardo,

    Revejo-me imenso nas palavras que aqui deixou. Também eu subscrevi o manifesto e estive presente na manifestação de 15 de Setembro, se bem que também não concordo com tudo. E na verdade, aquilo que me levou lá foi o exigir àqueles que nos lideram mais ética, mais seriedade, mais entrega à causa pública e menos corrupção. Tenho andado a ver um ou outro site que tem surgido, e nenhum se mobiliza para organizar um fórum de discussão, sério e do qual saiam iniciativas que possam sensibilizar a sociedade para esta questão. Na verdade, têm sido só verdadeiros muros de lamentações, de catarse que depois nada de útil acrescentam. E é pena. Pois existe muita gente cheia de vontade de agarrar esta questão da falta de ética e seriedade, de querer que o crime de corrupção deixe de ser um crime com culpados-fantasma…

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      • Concordo. Mas tem a noção de que a esmagadora maioria das pessoas nem sabe que o pode fazer, nem tão pouco como se organizar. E não está minimamente mobilizada para isso. Penso que nos tempos que atravessamos, associações destas, com uma estrutura organizada e, pelo que vejo, com trabalho relevante feito, poderiam desempenhar um papel importante na mobilização da sociedade, o que certamente teria acolhimento e, quiçá, a níveis tão surpreendentes como foi a adesão às manifestações de 15/09…

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    • Cara Maria João,

      Compreendo o que diz. E, devo dizê-lo, também me identifico com muito do que refere, especialmente quando releva a necessidade de mais ética, mais seriedade e mais entrega à causa pública. São assuntos muito importantes para mim e, posso dizê-lo, para a Transparência e Integridade. É uma associação que também pretende ser um fórum para todas as pessoas preocupadas com o futuro do país, mas, acima de tudo, e enquanto activista anti-corrupção e pelo bom governo, gostaria de saber que ajudámos a motivar o lançamento de fóruns, de grupos, de outras associações que promovam o bom governo e a dedicação à causa pública.

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      • Caro Luís,

        Acabei de entregar o formulário on-line para me associar à TIAC. Talvez ao participar, caso seja aceite, na v/ organização, tome conhecimento da dinâmica de uma organização cívica e possa ajudar, no futuro, no lançamento de outros fóruns e movimentos de debate (quanta expectativa… ) que comecem a despertar mais consciências.

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    • Já o Carlos Vaz Marques teve a mesma dúvida. Não, não sou – mas tinha piada, não tinha?

      Também não sou o professor de filosofia da Nova, que também se chama Luís Bernardo. Acho que ainda somos uns quantos por aí.

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