Crise, corrupção e sociedade

Por António Pedro Dores, pres­i­dente da Mesa da Assem­bleia Geral da TIAC

A TIAC informou o FMI e divulgou publicamente o facto de o solo urbanizável, geralmente feito à medida de interesses do pessoal político local, significar um terço da dívida privada, sendo outro terço custos imobiliários financiados pela banca para que os portugueses tenham no ativo 1,5 casas por família, taxa mais alta da Europa.

Não se trata propriamente de um segredo de Estado, pois embora os números agregados não sejam do conhecimento geral, o ataque político à corrupção nas autarquias já tem anos, iniciado pelo saudoso Saldanha Sanches. Os resultados dessas denúncias é que têm sido escassos ou nenhuns, como muito bem tem frisado publica e insistentemente Paulo Morais, vice-presidente da TIAC. O que faz com que a denúncia da situação à tutela internacional do Estado português possa constituir uma esperança de que alguma coisa mude a este nível.

Está em causa saber como o futuro mais próximo vai dirimir entre as duas teses políticas em presença: a) o Estado vai perder soberania para os poderes locais, em baixo, e para os poderes regionais, em cima; b) o Estado vai continuar a assumir a centralidade da decisão e representação política. Mais certo é o desenho social que irá suportar uma ou outra modalidade de intervenção institucional na política ser muito diferente daquele que ainda hoje representamos nas nossas cabeças.

Os ideais modernos fazem-nos crer que somos sociedades de cidadãos iguais, embora uns mais ricos que outros, uns mais educados que outros. A realidade mostra, porém, que a chamada – com propriedade – classe política (e os “empresários do regime”, incluindo os proprietários dos media) têm utilizado a globalização em desfavor (explorando) dos cidadãos sem contacto com as oportunidades dessa globalização. A venda da nossa agricultura e pescas e as negociações de entrada no euro são os exemplos mais citados nos dias de hoje, de forma unânime, como erros crassos. Ambas as políticas podem ser caracterizadas por beneficiarem muito certas camadas da população e prejudicarem muito outras, cinicamente indemnizadas através de benefícios sociais que agora lhes são atirados à cara, ipsis verbis o eixo franco-alemão faz com a Europa do Sul.

Os nossos ganhos dos poderosos chegaram a um beco sem saída (no país e na Europa) e a “culpa” passa a ser de quem ficou mais prejudicado pela política de solidariedade desenvolvida anteriormente. É a própria definição de vigarice, uma tal dramatização e um tal argumento, próprios de gente corrupta, próprios de gente que tem poder para assim proceder em nome dos povos que está a corromper.

Não se está apenas a fazer uma Europa a duas velocidades. A nova sociedade de que fala o governo português é aquela que resultará do corte definitivo do cordão de solidariedade mínima que cada vez mais tenuemente ainda liga os portugueses entre si. A nova sociedade será uma sociedade de ordens, de lobbies e corporações, uma sociedade medieval a nível global, caso não venha a ser possível dar uma volta no rumo político dos acontecimentos. Numa sociedade assim a corrupção deixará de ser imoral e passará a ser a norma.

 

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Um comentário a Crise, corrupção e sociedade

  1. Perfeitamente de acordo quanto a uma nova forma de organização medieval e diria mais, Sociedade de Castas de poder. Mas tudo isto não passa de um processo que nasceu com a “Revolução no Neolitico”e o desenvolvimento de uma Super-Estrutura que percorreu todos esses milénios, criando a supremacia da Civilização Ocidental e estando essa mesma Civilização a entrar num periodo de “Cristalização”e consequente extinção e morte, para dar origem a novos padrões que forjarão o nosso futuro…

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