O carrinho… e o país

Por Marcelo Mori­coni, sociól­ogo, inves­ti­gador do CIES-IUL

Slavoj Žižek recorreu muitas vezes à velha história do operário suspeito de roubo. Todas as tardes, quando ele saía da fábrica, o seu carrinho era cuidadosamente inspecionado, mas estava sempre vazio. Um dia, os guardas adivinharam o logro: o que o operário estava a roubar eram os próprios carrinhos.

Portugal (para falar em termos locais) pode estar a sofrer a cegueira do logro: os políticos fazem o papel do operário; aqueles que se preocupam com a corrupção, o papel dos guardas. Já se levantaram as vozes de alerta para advertir que os processos de privatização que estão a chegar podem ser uma fonte de corrupção (e a falta de transparência já ficou clara no caso da EDP). Convém não esquecer o que disse uma vez Joseph Stiglitz: “os resultados de uma privatização nunca podem ser melhores do que a elite que a realiza”.

No entanto, a corrupção não é o verdadeiro problema deste paradoxo. O problema real tem uma profunda raiz teórico-política e está relacionado com o desejo ou não de uma convivência pacífica, a nível democrático, a nível legal, a nível nacional.

Em palavras simples, no meio de uma crise que constrange grande parte da população do país – não só económica, mas também psiquicamente, com as sequelas que isto produz – existe uma desconfiança (fundada) de que o bem-estar da cidadania (e a rápida saída do dilema financeiro) não são o valor central que norteia a ação da classe política.

A pátria é uma comunidade de destino, um desejo no qual opiniões antagónicas devem saber viver juntas e debater pacificamente. Mas o interesse público deve ser um valor fundamental desse debate. Caso contrário, a política (institucional) transforma-se no problema.

Tem sido frequente comparar a política com um jogo de xadrez. A metáfora é válida, mas a política não está em jogar com as peças brancas ou com as pretas, nem com a estratégia de abrir o jogo com o movimento de um peão ou de um cavalo. O grande estadista é aquele que é capaz de chutar o tabuleiro, definir novas regras e saber como legitimá-las. Sem uma mudança nessa direção na política portuguesa, não faz sentido lutar contra a corrupção, porque nunca haverá vontade política para resolver o problema.

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