Por António Pedro Dores, presidente da Mesa da Assembleia Geral da TIAC
Um corpo em putrefacção é o resultado de um corpo corrompido. Do mesmo modo que uma sociedade em desagregação há-de ser resultado de corrupção, de uma anomia negativa, já que para Durkheim anomia era positiva: uma falha de solidariedade por falta de hábito de viver no novo e complexo quadro da divisão de trabalho próprio da vida moderna.
Hoje já não se acredita no progresso. Mas ainda não se sabe em que se há-de acreditar. A corrupção é hoje menos material (pois há comida e agasalhos em stock para toda a imensa humanidade de mais de 7 mil milhões de almas) do que moral, no sentido de não ter sido possível encontrar uma postura construtiva para fazer encontrar as possibilidades com as necessidades. É a nossa cabeça que não tem juízo e o corpo é que paga, para usar a expressão do poeta.
O progresso fez-se à conta da disciplina: o prestígio do cuidar de si ensinado pelos aristocratas greco-romanos, deixando o trabalho para os escravos, inspirou os trabalhadores modernos, emancipados, para serem auto-disciplinados. O sucesso do movimento operário não só resultou no Estado Social, como também nos fez acreditar que somos donos do nosso destino: disciplinados e organizados vamos onde quisermos ir.
Talvez o nosso problema moral seja recusarmos aceitar a necessidade de adoptar novas perspectivas de filosofia política (também as que nos são oferecidas oferecem são do pior). A corrupção é, pois, uma consequência da nossa voluntária incapacidade de criar novas estratégias de solidariedade, com medo de que não funcionem. Como se a corrupção fosse um funcionamento aceitável, na condição de ser possível manter o status quo.
Desde pelo menos 2001, oficialmente, os governos do país afirmam quererem usar métodos radicais – cada vez mais radicais – para inverter a degradação da situação, que todavia (apesar das medidas cada vez mais radicais) não para de se corromper. Como se a doença tivesse pegado de estaca e o paciente entrasse em negação.
Na verdade, tal como acontece com famílias desestruturadas por doenças graves de um dos seus membros, os que têm mais poder e competências sociais culpam os mais frágeis e isolados dos problemas, diminuindo as hipóteses de os resolver a aumentado as possibilidades de se verificar a degenerescência dos mais desvalidos e, com eles, de todos. É o clássico síndrome do abusador e da vítima, ligados entre si por laços muito difíceis de romper.
Ambas as partes, abusadores e vítimas, se enrolam como um náufrago ao seu socorrista inexperiente, negando ambos a realidade a que acabam por sucumbir, em vez de a combater e ultrapassar.
Todos precisam de luz, de alguém que fale verdade. E a necessidade é tanta que esse alguém pode aparecer e não ser afinal outro que o velho vigarista negacionista com a lição aprendida, parecendo – por algum tempo – o inverso daquilo que efectivamente é.
Ao contrário do corpo humano, a sociedade só desaparece com a extinção das pessoas. A corrupção social, embora faça o corpo social entrar em putrefacção, não é o fim do mundo: é só o fim deste tipo de mundo social. É o fim do predomínio do gosto social por ser ver representado por aldrabões, gente que diz defender a causa pública para defender apenas interesses particulares, esperando e fazendo esperar que no fim tudo acabe por resultar, embora contra todas as previsões racionais.
A Árvore Portugal
Infelizmente, por mais que me afaste da peste não posso deixar de pensar que estamos doentes, e por tal, continuar eternamente a observar sintomas, a diagnosticar causas, mesmo já cansado de os saber até porque sofridos, mas ainda assim, sempre à procurar da possível cura.
A doença e os seus sintomas estão nus, as causas podem observar-se chapadas diariamente para onde quer que olhemos, imagine-se o tanto que ainda está por ver.
Podre, tudo podre, é o que se pode afirmar ao olhar para o tronco, para os ramos, para as folhas e para os frutos.
Se nestes dias vamos sabendo de forma insultuosa, displicente e impune, como se se tratasse apenas dos episódios de uma telenovela e não da nossa realidade, tristíssima realidade desta grande nação, como se pode mantê-la em dias consecutivos?
Se agora que a maior das nuvens passou e deixou a descoberto a mais podre árvore, como poderemos continuar à espera de fruto? Se ele já caiu, podre.
Como poderemos não cortar a mesma pela raiz?
Simples. Mútuo consentimento.
Já não há lenhadores, ou os que ainda estão vivos estão assim, sós.
Não é só o tronco que está podre, todos os possíveis e antigos lenhadores, esses que ouvimos por aí a dizer a miúde, — É só ladrões! — São todos uns ladrões!
Ora, esses mesmos transformaram-se em ramos, mesmo em galhos, evidentemente podres também.
Outro motivo não poderia tê-los deixado tanto tempo calados enquanto assistiam ao apodrecimento do tronco, outro motivo não os pode calar agora, fazem parte da árvore podre, ganharam com isso, e por tal, nada de lenhadores.
Sacodem-se simplesmente, como ramos e galhos comprometidos com a podridão do tronco.
Acabou o bicho que alimentava a podridão de ramos e galhos e o tronco usurpa os poucos que sobram, a quem? Aos antigos lenhadores.
Não há lenhadores, ou os que ainda estão vivos, então sós, sem machado, só uma sopa de letras para jantar e muita dor de cabeça, alma pura e o afastar-se.
Mas a intrínseca vontade de deitar abaixo esta árvore podre, para cumprir o sonho de ver renascer outra árvore, da raiz de onde nasceu a mais valiosa nação, para que surja um rebento, que por novo, será ainda são.
Francisco Félix
Porto, Outubro 2011