O estranho caso do dinheiro fugitivo

Só recen­te­mente as econo­mias mais avançadas do mundo, reunidas no G20, perce­beram a importân­cia de lim­i­tar o poder dos off­shores finan­ceiros. Os paraí­sos fis­cais cus­tam todos os anos mil­hares de mil­hões de euros à econo­mia mundial, porque servem de refú­gio a empre­sas e investi­dores que assim se fur­tam ao paga­mento de impos­tos nos países de onde provém o seu lucro. O resul­tado desta evasão fis­cal é uma cres­cente difi­cul­dade dos países em finan­cia­rem os seus pro­gra­mas soci­ais e o inves­ti­mento público necessário ao desen­volvi­mento de infraestru­turas e ao aumento dos níveis de vida das populações.

Nos últi­mos anos, o G20 tem pres­sion­ado dezenas de paraí­sos fis­cais a assumir uma posição mais coop­er­ante com as autori­dades, fornecendo infor­mações rel­e­vantes para a inves­ti­gação de casos de fraude, bran­quea­mento de cap­i­tais ou fuga fis­cal. O prob­lema, rev­ela um estudo agora pub­li­cado, é que estes esforços não estão a ser bem suce­di­dos. De cada vez que uma praça finan­ceira assina acor­dos de coop­er­ação com um país, o din­heiro deposi­tado nesse off­shore tem tendên­cia a fugir para outro paraíso fis­cal onde esses acor­dos de coop­er­ação não exis­tam. Em resumo, os cap­i­tais ten­dem a procu­rar refú­gio nas praças mais opacas e menos cooperantes.

Segundo conta o jor­nal britânico The Guardian, a reação da OCDE e do G20 a este estudo é cautelosa. Citado pelo jor­nal, Pas­cal Saint-Amans, da OCDE, indica que ainda é pre­ciso esperar mais alguns anos para medir o ver­dadeiro impacto das políti­cas de transparên­cia e com­bate à evasão fis­cal. Ver­e­mos como a situ­ação evolui, e que pas­sos os países mais poderosos do mundo estarão dis­pos­tos a dar para garan­tir a justiça fis­cal no sis­tema financeiro.

Para Por­tu­gal, este assunto não é indifer­ente. O uso de sis­temas fis­cais mais van­ta­josos é prática cor­rente das grandes empre­sas e, como lem­brou aqui no Às Claras João Pedro Mar­tins, o off­shore da Madeira, cujo estatuto está agora no cen­tro do debate, é pre­cisa­mente uma dessas praças que ofer­ece van­ta­gens aos investi­dores — sem no entanto garan­tir bene­fí­cios claros às populações.

Para uma sociedade civil íntegra e vibrante

Por Luís Bernardo, sociól­ogo e inves­ti­gador con­vi­dado do Sis­tema Nacional de Integridade

Estu­dar a capaci­dade de mon­i­tor­iza­ção da sociedade civil, no con­texto do Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade, com­por­tou (e com­porta) um con­junto de inter­ro­gações que, enquanto inves­ti­gador, con­tinuo a colocar-me. Como uma leitura mais atenta do relatório final e dos “pilares” do Sis­tema indi­cará, o papel da sociedade civil é fun­da­men­tal­mente difer­ente de todos os out­ros setores ou dimen­sões em análise. O apar­elho judi­cial ou a admin­is­tração pública pro­duzem políti­cas públi­cas e serão, em teo­ria, pro­du­tores de inte­gri­dade, cujo efeito será o aumento da qual­i­dade, equidade e efi­ciên­cia da pro­dução de bens públi­cos. Nesse sen­tido, a sociedade civil seria sem­pre a ben­efi­ciária final de serviços e bens públi­cos pro­duzi­dos sem dis­torções cau­sadas por práti­cas cor­rup­tas. Por­tanto, a sociedade civil difere de todos os out­ros “pilares” na medida em que se con­sti­tui como englobante — porque uma mag­istrada ou um fun­cionário público são mem­bros da sociedade civil, e precária — porque depen­dente, nos seus con­tornos e vital­i­dade, das insti­tu­ições políti­cas que emergem do seu seio e que procura mon­i­tor­izar, garan­ti­ndo o pri­mado nor­ma­tivo e repub­li­cano do Estado de direito.

Esta ten­são entre a dimen­são empírica, ou seja, a local­iza­ção da sociedade civil nos inter­stí­cios do Estado, do mer­cado e da família (recu­perando algo de Hegel e Arendt), e a dimen­são nor­ma­tiva, ou seja, a assunção de que uma esfera civil é dese­jável, deve ser defen­dida e o seu carác­ter inclu­sivo deve ser alargado, é par­tic­u­lar­mente inter­es­sante no que diz respeito ao Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade. Porque — e entro, aqui, no domínio da reflexão pes­soal — avaliar a cor­rupção tem uma carga sub­je­tiva que trans­forma o processo de inves­ti­gação em algo mais que uma avali­ação tradi­cional. A cor­rupção é impor­tante porque aumenta as desigual­dades e destrói o pri­mado da não-arbitrariedade e não-dominação que define a vida de uma República; a sociedade civil por­tuguesa é, a um tempo, reflexo e catal­isador desses efeitos. E pre­cisamos, enquanto cidadãs e cidadãos, de refle­tir acerca desses efeitos e de tran­scen­der o habit­ual enfoque do com­bate à cor­rupção na cri­ação de “boas condições de inves­ti­mento” ou na lim­i­tação da inter­fer­ên­cia dos poderes públi­cos. Esse foi um dos pon­tos focais deste pro­jeto, em espe­cial a respeito da inclusão de uma dimen­são “sociedade civil”: o recon­hec­i­mento de que os poderes públi­cos servem o inter­esse público e a sociedade civil é a fiel depositária desse inter­esse público; a expressão de uma con­vicção fun­da­men­tada de que a vital­i­dade e capaci­dade inclu­siva da sociedade civil é uma causa necessária e, talvez, sufi­ciente da vital­i­dade de uma democ­ra­cia. Se as nos­sas von­tades cole­ti­vas, man­i­fes­tadas no uni­verso asso­cia­tivo que com­põe a sociedade civil orga­ni­zada, se realizarem na defesa do inter­esse público, ter­e­mos uma democ­ra­cia mais vibrante, igual­itária e próspera. Enquanto pro­jeto dotado de especi­fi­ci­dades metodológ­i­cas e epis­te­mológ­i­cas, julgo que o Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade incor­pora esta visão nor­ma­tiva da democ­ra­cia e, ainda que enfa­tize a con­ste­lação insti­tu­cional do Estado, a sua real­iza­ção perde­ria sen­tido sem a inclusão da sociedade civil como pilar, ben­efi­ciária e guardiã da integridade.

Em Por­tu­gal, essa função con­tinua refém de uma visão incip­i­ente das vir­tudes repub­li­canas. Parafrase­ando Mark Twain, as notí­cias da morte ou do raquitismo da sociedade civil por­tuguesa têm sido larga­mente exager­adas. Con­tudo, a con­cen­tração em pro­gra­mas assis­ten­cial­is­tas e na pro­visão de serviços e bens impediu, durante a vigên­cia do regime democrático, o flo­resci­mento de uma sociedade civil capaz de cumprir a sua pre­rrog­a­tiva de fiel depositária do inter­esse público — as expli­cações abun­dam, mas este pro­jeto não visa concentrar-se em expli­cações cau­sais e mecanís­mi­cas, mas em criar soluções. A sociedade civil por­tuguesa deve diversificar-se e aumen­tar a inten­si­dade do seu papel de mon­i­tor­iza­ção dos poderes públi­cos e do setor pri­vado; observei, com inter­esse, o surg­i­mento de ini­cia­ti­vas que pare­cem indi­ciar um aumento da inten­si­dade de um movi­mento nesse sen­tido. E, man­tendo o reg­isto rel­a­ti­va­mente livre, os tem­pos soturnos e som­brios que Por­tu­gal enfrenta, enquanto República, exigem que dedique­mos mais atenção e recur­sos aos nos­sos papéis enquanto mem­bros ativos da sociedade civil. Este Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade e o pilar “sociedade civil”, em par­tic­u­lar, poderão fun­cionar como ponto de par­tida. Cabe-nos ori­en­tar a nossa bús­sola moral cole­tiva no sen­tido de uma democ­ra­cia de alta inten­si­dade, capaz de rejeitar a cor­rupção e a aceitação de uma República anémica e pas­siva. E só poder­e­mos fazê-lo a par­tir de uma sociedade civil vibrante.

O que tem de mudar no combate à corrupção

O estudo Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade, lançado esta sem­ana pela TIAC, não se limita a apon­tar as fal­has do com­bate à cor­rupção em Por­tu­gal. Para que as coisas mudem, é pre­ciso ado­tar medi­das conc­re­tas, baseadas numa cul­tura de transparên­cia total e de tol­erân­cia zero no com­bate ao crime. Por isso mesmo, o estudo faz dezenas de recomen­dações práti­cas. Estas são as principais:

Sis­tema Político
– A Comis­são de Ética da Assem­bleia da República deve ter um papel mais ativo na fis­cal­iza­ção dos reg­is­tos de inter­esses e con­fli­tos de inter­esse de dep­uta­dos e mem­bros do Gov­erno.
– O Regime Jurídico de Incom­pat­i­bil­i­dades e Imped­i­men­tos dos Tit­u­lares de Car­gos Políti­cos e Altos Car­gos Públi­cos deve ser alargado aos mem­bros dos gabi­netes min­is­te­ri­ais. Deve ainda ser revisto de modo a ter em conta as Parce­rias Público Pri­vadas, que tor­nam obso­leto o período de nojo de três anos para a pas­sagem dos car­gos públi­cos para o setor pri­vado.
– Os perfis/CV (com­ple­tos) dos mem­bros do Gov­erno e demais car­gos públi­cos devem ser disponi­bi­liza­dos na ínte­gra, não incluindo somente as funções públi­cas exer­ci­das, mas qual­quer cargo ou ativi­dade exer­cida no setor pri­vado.
– A lei de finan­cia­mento de cam­pan­has e par­tidos políti­cos deve ser sim­pli­fi­cada, mel­ho­rando a infor­mação prestada pelos par­tidos políti­cos e a sua análise pela Enti­dade das Con­tas e Finan­cia­men­tos Políticos.

Sis­tema Admin­is­tra­tivo
– Deve fazer-se uma ver­dadeira «despar­tidariza­ção» da Admin­is­tração Pública e do setor empre­sar­ial do Estado, alterando o número de car­gos e as regras de nomeação dos diri­gentes.
– Todos os organ­is­mos públi­cos (incluindo insti­tu­tos, fun­dações, empre­sas públi­cas, enti­dades reg­u­lado­ras e pes­soas cole­ti­vas ben­efi­ciárias de din­heiros públi­cos) devem disponi­bi­lizar, num for­mato inteligível e em tempo útil, os seus relatórios anu­ais de ativi­dades, plano e orça­mento e todas as infor­mações ref­er­entes à sua situ­ação finan­ceira, para con­sulta pública.
– O atual sis­tema de coor­de­nação das inspeções-gerais com o Min­istério Público (MP) deve ser refor­mu­lado, criando mecan­is­mos céleres e ime­di­atos de comu­ni­cação de crimes por parte da Admin­is­tração Pública ao MP e de aux­ilio pri­or­itário a este organ­ismo no âmbito dos inquéri­tos crim­i­nais, acom­pan­hados das necessárias sanções dis­ci­pli­nares e/ou crim­i­nais em caso de incumprimento.

Sis­tema Judi­cial
– Deve ser imple­men­tada uma reforma com­pleta da Justiça para o século XXI, com par­tic­u­lar ênfase na pro­moção da transparên­cia e no com­bate à cor­rupção, nomeada­mente pela cri­ação de um web­site abrangente sobre a Justiça Por­tuguesa, incluindo infor­mações sobre a ativi­dade das várias insti­tu­ições envolvi­das (Min­istério Público, Tri­bunais, etc.) e que con­tenha, nomeada­mente, os seguintes ele­men­tos:
1. Estatís­ti­cas mais detal­hadas sobre o anda­mento de proces­sos e da Justiça;
2. Disponi­bi­liza­ção sis­temática e orga­ni­zada das decisões judi­ci­ais (acom­pan­hadas da iden­ti­fi­cação dos arguidos/réus);
3. Disponi­bi­liza­ção sis­temática e orga­ni­zada dos despa­chos finais de inquérito do Min­istério Público;
4. Disponi­bi­liza­ção das decisões de proces­sos dis­ci­pli­nares sobre mag­istra­dos judiciais.

- Os mecan­is­mos de pre­venção devem ser mel­ho­ra­dos, nomeada­mente por uma mel­hor pub­lic­i­tação do web­site de denún­cias da Procuradoria-Geral da República, pela cri­ação de gabi­netes de intel­li­gence, pela análise integrada da infor­mação recol­hida a nível nacional pelo Depar­ta­mento Cen­tral de Inves­ti­gação e Ação Penal e pelo fomento da real­iza­ção de averiguações pre­ven­ti­vas den­tro dos trâmites legais.
– Os organ­is­mos de inves­ti­gação devem ser dota­dos com os meios espe­cial­iza­dos e for­ma­dos necessários a um efi­caz com­bate da cor­rupção.
– O Min­istério Público deve assumir um papel mais ativo na inves­ti­gação de crimes eleitorais, de declar­ações pat­ri­mo­ni­ais de tit­u­lares de car­gos políti­cos e altos car­gos públi­cos e das con­tas de par­tidos e cam­pan­has políti­cas.
– Deve ser feito um inves­ti­mento na reor­ga­ni­za­ção judi­ciária e em tri­bunais espe­cial­iza­dos em cor­rupção e crim­i­nal­i­dade económico-financeira.
– Deve ser descrim­i­nal­izada a difamação, na medida em que con­sti­tui um obstáculo efe­tivo à denún­cia de casos de corrupção.

É tam­bém recomen­dação da TIAC a cri­ação de uma agên­cia espe­cial­izada de com­bate à cor­rupção que reúna com­petên­cias de inves­ti­gação, pre­venção, prosse­cução crim­i­nal e edu­cação. Este novo organ­ismo per­mi­tiria criar uma estru­tura única de com­bate à cor­rupção, com todos os bene­fí­cios daí decorrentes.

Setor Empre­sar­ial, Sociedade Civil e Comu­ni­cação Social
– Deve ser feito um inves­ti­mento na sen­si­bi­liza­ção do Setor Empre­sar­ial para o fenó­meno da cor­rupção e as suas desvan­ta­gens, desde ações visando dire­ta­mente as empre­sas, novas práti­cas de cor­po­rate social respon­si­bil­ity ou até a inserção de cadeiras de ética no âmbito das licen­ciat­uras.
– Deve ser reforçado o papel das estru­turas fis­cal­izado­ras no âmbito da Sociedade Civil (Con­selho Fis­cal e/ou Con­selho Con­sul­tivo e Mesa da Assembleia-Geral); esta­b­elec­i­mento de obri­gação estatutária de pub­li­cação, em suporte dig­i­tal, de relatórios anu­ais; esta­b­elec­i­mento de obri­gação estatutária de pub­li­cação per­iódica de dados e resul­ta­dos opera­cionais; reforço da exigên­cia de prestação de con­tas por todos os stake­hold­ers.
– Devem ser mais bem demar­ca­dos os espaços de inter­venção nos media, para que os con­ceitos de comen­ta­dor e jor­nal­ista se tornem mais claros para o público; aten­dendo à pas­sagem fre­quente de profis­sion­ais da área do jor­nal­ismo para asses­so­rias políti­cas e vice-versa, deve ser insti­tuído um «período de nojo» entre a pas­sagem de um cargo para o outro; deve ser repen­sado o mod­elo de eleição dos mem­bros do Con­selho Reg­u­lador da ERC, de forma a mel­ho­rar a legit­im­i­dade perce­bida dos mesmos.

O com­bate à cor­rupção não se faz com dis­cur­sos e promes­sas vagas. É pre­cisa ação conc­reta, con­cer­tada e efi­caz. É esse o obje­tivo das recomen­dações do estudo Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade. Cabe-nos agora pres­sionar os nos­sos líderes a adotarem as recomen­dações — e pas­sarem final­mente das palavras aos atos.

Os dez pecados do Sistema de Integridade português

O que falha em Por­tu­gal no com­bate à cor­rupção? Muita coisa, rev­ela o estudo Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade, desen­volvido pela TIAC e que anal­isou à lupa 13 pilares da sociedade com respon­s­abil­i­dades dire­tas e indi­re­tas na pro­moção da transparên­cia e na pre­venção e com­bate à corrupção:

- Assem­bleia da República;
– Gov­erno;
– Tri­bunais;
– Admin­is­tração Pública;
– Min­istério Público e Organ­is­mos de Inves­ti­gação Crim­i­nal;
– Comis­são Nacional de Eleições;
– Prove­dor de Justiça;
– Tri­bunal de Con­tas;
– Organ­is­mos Espe­cial­iza­dos de Com­bate à Cor­rupção;
– Par­tidos Políti­cos;
– Comu­ni­cação Social;
– Sociedade Civil;
– Setor Empresarial.

De uma primeira leitura dos resul­ta­dos globais resul­tam duas car­ac­terís­ti­cas trans­ver­sais aos 13 pilares do Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade: 1) existe uma grande dis­crepân­cia entre o enquadra­mento legal em que os vários pilares do SNI operam e a prática real dessas insti­tu­ições; 2) não obstante estes organ­is­mos gozarem, de um modo geral, de níveis sat­is­fatórios de recur­sos e inde­pendên­cia, o seu papel na pre­venção e com­bate à cor­rupção per­manece invari­avel­mente limitado.

Uma análise mais fina do modo como os difer­entes com­po­nentes do SNI se estru­tu­ram, fun­cionam e inter­agem entre si rev­ela uma série de prob­le­mas de fundo que pas­samos a enumerar:

1. Ausên­cia de política e estraté­gia. Na base da inop­erân­cia do SNI está a ausên­cia de uma ori­en­tação política estru­tu­rada, com obje­tivos claros, recur­sos ade­qua­dos para a sua exe­cução e metas a atingir;

2. Pro­lif­er­ação de instru­men­tos e difi­cul­dades de coor­de­nação. Esta ausên­cia de estraté­gia tem um efeito direto no modo como se estru­tura e fun­ciona o SNI. Vão-se mul­ti­pli­cando, num labir­into inde­cifrável, as leis e os organ­is­mos de com­bate à cor­rupção sem que se tenha pen­sado de forma sistémica e orgânica a sua função e os modos de coop­er­ação interin­sti­tu­cional. As medi­das anti­cor­rupção ado­tadas pelos vários gov­er­nos estão dis­per­sas (entre várias leis e instru­men­tos legais) e são incon­sis­tentes (reati­vas a pressão externa cres­cente, ao invés de serem desen­volvi­das de forma proa­t­iva e sus­ten­tada). O aparato insti­tu­cional atual, do lado da repressão, é frag­men­tado e desprovido de capaci­dade de coor­de­nação e apli­cação san­cionatória; do lado da pre­venção, está subdesenvolvido.

3. Má qual­i­dade do processo leg­isla­tivo. O prob­lema de Por­tu­gal não é o número de diplo­mas legais de com­bate à cor­rupção, mas o facto de que, proposi­tada­mente ou por incom­petên­cia do leg­is­lador, boa parte destes diplo­mas con­têm várias lacu­nas e for­mu­lações que com­pro­m­e­tem a sua imple­men­tação efi­caz. Muitas das defi­ciên­cias dos mecan­is­mos de con­trolo resul­tam de proces­sos leg­isla­tivos pouco esclare­ci­dos sobre os prob­le­mas de fundo; pouco inclu­sivos, pro­duto de um debate par­la­men­tar fechado sobre si mesmo, sem con­sulta ou igno­rando os con­trib­u­tos da sociedade civil e dos organ­is­mos respon­sáveis pela imple­men­tação dessas medi­das; pouco fun­da­men­ta­dos sobre os níveis de desem­penho dos mecan­is­mos exis­tentes e os cus­tos e bene­fí­cios das alter­na­ti­vas pro­postas; e sem quais­quer mecan­is­mos de avali­ação posterior.

4. Man­i­festa ausên­cia de resul­ta­dos no domínio da repressão. Por­tu­gal apre­senta um número escasso de con­de­nações por cor­rupção e crim­i­nal­i­dade conexa e um número quase inex­is­tente de sen­tenças com pena de prisão efe­tiva. Emb­ora a repressão não seja um fim em si mesmo, a apli­cação da justiça tem um efeito dis­sua­sor impor­tante e não deve por isso ser minada pela pro­lif­er­ação de exceções à lei, atal­hos e veredas judi­ciárias labirín­ti­cas que, sob a pre­tensa pro­teção das liber­dades e garan­tias dos cidadãos, acabam por con­struir uma teia de infind­áveis recur­sos que os cor­rup­tos mais hábeis, ricos e influ­entes explo­rarão em seu bene­fí­cio, com cus­tos incal­culáveis para a imagem e cred­i­bil­i­dade da Justiça.

5. Défice de espe­cial­iza­ção. A falta de espe­cial­iza­ção faz-se sen­tir a vários níveis, com­pro­m­e­tendo a capaci­dade de resposta do sis­tema judi­cial na pre­venção e com­bate do crime económico, em espe­cial da cor­rupção e do bran­quea­mento de cap­i­tais: inex­istên­cia de um organ­ismo ou um sis­tema de organ­is­mos espe­cial­iza­dos de com­bate à cor­rupção; fraco inves­ti­mento na espe­cial­iza­ção no âmbito dos pro­gra­mas de for­mação ini­cial e con­tínua dos mag­istra­dos judi­ci­ais e do Min­istério Público; fraco inves­ti­mento em unidades de perí­cia forense e de intel­li­gence, junto dos depar­ta­men­tos de inves­ti­gação e ação penal dis­tri­tais, com vista à prestação de assistên­cia prin­ci­pal­mente nas áreas finan­ceira, con­tabilís­tica e urbanís­tica; fraco desen­volvi­mento de bases de dados integradas que per­mi­tam uma gestão efi­caz dos inquéritos-crime e con­sti­tuam uma fer­ra­menta essen­cial de apoio à inves­ti­gação criminal.

6. Ineficá­cia dos mecan­is­mos de super­visão, fis­cal­iza­ção e audi­to­ria do Estado. Por­tu­gal é o país dos bura­cos e der­ra­pa­gens finan­ceiras. Os mecan­is­mos de transparên­cia e acom­pan­hamento da despesa pública são muito rudi­menta­res, ofer­e­cendo ape­nas uma infor­mação con­tabilís­tica estanque, sem indi­cadores de pro­du­tivi­dade e de efi­ciên­cia na prestação de serviços que per­mi­tam quer a com­para­ção de níveis de desem­penho da gestão finan­ceira entre órgãos con­géneres (por exem­plo, entre empre­sas públi­cas, hos­pi­tais ou Câmaras Munic­i­pais), quer a mon­i­tor­iza­ção do ciclo de exe­cução dos grandes con­tratos públi­cos. Cumu­la­ti­va­mente, as fis­cal­iza­ções ou audi­to­rias do Estado são pouco espe­cial­izadas e centram-se sobre­tudo em questões for­mais, em vez de anal­is­arem a boa gestão das con­tas públi­cas e a relação custo-benefício dos inves­ti­men­tos, tendo em conta o seu impacto social e o seu sen­tido de opor­tu­nidade. Tudo isto tem impli­cações neg­a­ti­vas na transparên­cia e rigor orça­men­tal a todos os níveis do Estado.

7. Má definição e pro­teção do inter­esse público nos negó­cios do Estado. Ao nível da pre­venção, a ação do Gov­erno resumiu-se à adoção de códi­gos deon­tológi­cos genéri­cos e sem qual­quer acom­pan­hamento e avali­ação mate­r­ial no seio dos organ­is­mos do Estado, bem como à cri­ação de um Con­selho de Pre­venção da Cor­rupção que se tem rev­e­lado irrel­e­vante. Não só não existe uma definição clara do que é o inter­esse público na maio­ria dos negó­cios do Estado, em par­tic­u­lar no que toca a PPP, con­cessões e out­ros inves­ti­men­tos públi­cos, como a avali­ação ex-ante de riscos e a mon­i­tor­iza­ção da sua exe­cução não é asse­gu­rada. De notar ainda que na mon­tagem, acom­pan­hamento e adju­di­cação dos negó­cios públi­cos existe uma grande per­me­abil­i­dade a teias de influên­cia que ligam grandes escritórios de advo­ga­dos, sociedades de audi­to­ria, insti­tu­ições finan­ceiras, dep­uta­dos, gov­er­nantes, autar­cas e mem­bros dos par­tidos políti­cos. Como resul­tado, por regra, os riscos asso­ci­a­dos a estes negó­cios cor­rem por conta do Estado, leia-se dos con­tribuintes, enquanto os lucros são garan­ti­dos aos pri­va­dos através de fór­mu­las con­trat­u­ais blindadas. A cel­e­bração destes con­tratos ruinosos é facil­i­tada pela com­plex­i­dade das matérias em questão e pelo recurso, por encomenda, a serviços jurídi­cos exter­nos à admin­is­tração – em vez de se optar pela cri­ação de uma unidade téc­nica pública espe­cial­izada. Tudo isto é ainda agravado pela forte promis­cuidade entre as esferas política e empre­sar­ial. Com efeito, as lig­ações empre­sari­ais dos políti­cos fazem-se sen­tir em múlti­p­los setores, e prin­ci­pal­mente naque­les em que a atividade/função do Estado é mais ren­tável, das obras públi­cas ao ambi­ente e à ener­gia, das finanças à saúde.

8. Fraco desen­volvi­mento de um corpo ético na admin­is­tração pública. Emb­ora as várias refor­mas de mod­ern­iza­ção da admin­is­tração pública ten­ham aumen­tado os níveis de efi­ciên­cia e eficá­cia, sobre­tudo através da intro­dução de novas tec­nolo­gias de infor­mação e comu­ni­cação, já ao nível da transparên­cia, da impar­cial­i­dade e da respon­s­abi­liza­ção há ainda muito por fazer. Os códi­gos deon­tológi­cos são meras car­tas de intenções, sem quais­quer mecan­is­mos que garan­tam a sua efe­tiva apli­cação, acom­pan­hamento e con­trolo. As práti­cas de recru­ta­mento e pro­moção sem mérito, ori­en­tadas por inter­esses famil­iares ou par­tidários, não só colo­cam a admin­is­tração pública à mercê de todo o tipo de com­por­ta­men­tos abra­sivos do inter­esse público como despres­ti­giam a noção de «mis­são de serviço público».

9. Pro­ced­i­men­tos de con­sulta pública pouco desen­volvi­dos, quer do ponto de vista legal como da prática. Con­sul­tas em matérias sen­síveis, como a reforma da Justiça ou o com­bate à cor­rupção, ou não exis­tem ou são mera for­mal­i­dade. Não são ape­nas os des­ti­natários das políti­cas que não são ouvi­dos, mas tam­bém os próprios organ­is­mos respon­sáveis pela sua imple­men­tação. Esta sis­temática relutân­cia em tornar o processo de decisão inclu­sivo, sem perder a noção da respon­s­abil­i­dade política dos que estão legit­i­ma­dos para tomar as decisões, tem cri­ado um fosso cog­ni­tivo das políti­cas públi­cas em Por­tu­gal, inclu­sive no que con­cerne o com­bate à cor­rupção. Isto tem con­tribuído para degradar as expec­ta­ti­vas dos cidadãos quanto à real capaci­dade de resposta das insti­tu­ições, provo­cando um dis­tan­ci­a­mento cada vez mais notório entre os eleitores e os eleitos.

10. Inex­istên­cia de méto­dos de mon­i­tor­iza­ção e avali­ação das medi­das de com­bate à cor­rupção. O com­bate à cor­rupção em Por­tu­gal faz-se sobre­tudo ao nível da retórica e numa per­spetiva eleitoral­ista. Os suces­sivos pro­gra­mas de Gov­erno alu­dem ape­nas à neces­si­dade de reforçar o com­bate à cor­rupção, nunca fixando obje­tivos e meios para os atin­gir. As autori­dades com com­petên­cias dire­tas nesta matéria não prestam con­tas dos resul­ta­dos con­segui­dos. A con­se­quên­cia desta falta de mon­i­tor­iza­ção e avali­ação do com­bate à cor­rupção é a total desre­spon­s­abi­liza­ção dos atores e a ausên­cia de indi­cadores obje­tivos que pos­sam infor­mar os proces­sos de decisão e val­i­dar (ou não) as difer­entes opções políticas.

O que é um Sistema Nacional de Integridade?

Por Marcelo Mori­coni, sociól­ogo, inves­ti­gador do CIES-IUL e co-coordenador do estudo Sis­tema Nacional de Integridade

Segundo os dados do Barómetro da Qual­i­dade da Democ­ra­cia apre­sen­tado pelo Insti­tuto de Ciên­cias Soci­ais (ICS-UL), os por­tugue­ses con­sid­eram que a cor­rupção é um dos maiores prob­le­mas da democ­ra­cia nacional e um dos fenó­menos que mais con­tribuiu para que a crise atual se tenha consolidado.

E tal como sen­tem a crise, os por­tugue­ses sen­tem cada vez mais o peso da cor­rupção. Porque desvia din­heiro para fins ilíc­i­tos e infla­ciona o custo das obras e serviços públi­cos, a cor­rupção é um fardo sobre a despesa pública que obriga ao aumento dos impos­tos sobre os cidadãos e as empre­sas. E para além do impacto neg­a­tivo na econo­mia, a cor­rupção degrada a qual­i­dade de vida dos cidadãos, porque dis­torce os sis­temas de redis­tribuição e o acesso aos serviços públi­cos. Num sis­tema per­me­ável aos sub­or­nos, são os mais vul­neráveis que mais sofrem: quem não tem din­heiro para com­prar acesso aos bene­fí­cios públi­cos não tem alter­na­tiva senão sujeitar-se àquilo que lhe sobrar depois dos poderosos se terem servido.

Em teo­ria, as democ­ra­cias têm regras e mecan­is­mos insti­tu­cionais que evi­tam que a cor­rupção se expanda a níveis incom­portáveis: eleições uni­ver­sais, livres e jus­tas; liber­dade de expressão, asso­ci­ação, man­i­fes­tação; plu­ral­ismo par­tidário, com­petição eleitoral e alternân­cia no poder; uma série de con­trape­sos e garan­tias con­sti­tu­cionais; um sis­tema de justiça equi­tativo, impar­cial e efi­caz; mecan­is­mos de audi­to­ria das con­tas públi­cas; organ­is­mos que asse­gurem o respeito dos dire­itos dos cidadãos per­ante a sua admin­is­tração; uma comu­ni­cação social livre e atenta ao exer­cí­cio do poder; um mer­cado reg­u­lado e respon­sável; e uma cidada­nia infor­mada, for­mada e exi­gente. Todos estes mecan­is­mos con­stituem os pilares fun­da­men­tais de um Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade (NIS — National Integrity System).

O NIS é uma estru­tura orga­ni­zada, com­plexa e multi-setorial con­sti­tuída por pilares insti­tu­cionais com um papel rel­e­vante, direta e indi­re­ta­mente, na pre­venção e no com­bate à cor­rupção. Estes pilares são: a Assem­bleia da República; o Gov­erno; os Tri­bunais; a Admin­is­tração Pública; o Min­istério Público e Organ­is­mos de Inves­ti­gação Crim­i­nal; a Comis­são Nacional de Eleições; o Prove­dor de Justiça; o Tri­bunal de Con­tas; os Organ­is­mos Espe­cial­iza­dos de Com­bate à Cor­rupção; os Par­tidos Políti­cos; a Comu­ni­cação Social; a Sociedade Civil e o Setor Empresarial.

Na prática, o fun­ciona­mento destes pilares não tem sido exem­plar, per­mitindo que a cor­rupção con­tinue a manifestar-se com bas­tante vigor e fre­quên­cia, por vezes com con­se­quên­cias dev­as­ta­do­ras para a esta­bil­i­dade e legit­im­i­dade do Estado de Dire­ito democrático.

A avali­ação do Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade por­tuguês surge de um pro­jeto europeu lid­er­ado pela Trans­parency Inter­na­tional (TI) e que se real­iza ao mesmo tempo em 25 países europeus. O estudo adota uma abor­dagem holís­tica de análise e com­bate ao fenó­meno da cor­rupção. Esta abor­dagem visa com­preen­der a cor­rupção não só como um fenó­meno crim­i­nal, con­forme é encar­ado pelas con­venções inter­na­cionais e leg­is­lação sobre o assunto, mas tam­bém como um fenó­meno político, social, económico e cultural.

O obje­tivo geral deste estudo é o de avaliar a exten­são e as causas da cor­rupção num deter­mi­nado país, assim como a eficá­cia dos esforços nacionais de com­bate à cor­rupção, através de uma extensa análise doc­u­men­tal e entre­vis­tas a atores priv­i­le­gia­dos (na acad­e­mia, na admin­is­tração pública, na esfera política, no setor empre­sar­ial, na comu­ni­cação social e na sociedade civil).

O preço da crise: a corrupção grega e o futuro da Europa

As ondas de choque da crise con­tin­uam a fazer-se sen­tir na Gré­cia. Depois da aus­teri­dade, é a Justiça que começa a rea­gir. E a reação mais visível, até agora, foi a prisão do ex-ministro da Defesa, Akis Tsochat­zopou­los, por sus­peitas de cor­rupção na com­pra de sub­mari­nos a um con­sór­cio alemão — note-se que dois rep­re­sen­tantes do con­sór­cio foram con­de­na­dos na Ale­manha por sub­or­nos a políti­cos na Gré­cia e em Por­tu­gal. E se na Gré­cia, o ex-ministro está a con­tas com a Justiça, em Por­tu­gal o caso con­tinua em inves­ti­gação, sem fim à vista.

O retrato da Gré­cia feito pelo New York Times é o de um país habit­u­ado à cor­rupção endémica e aos favores pes­soais pagos com o Orça­mento do Estado. Com a crise veio a falên­cia (lit­eral­mente) dessa cul­tura política, pelo que será inter­es­sante ver que refor­mas, se é que algu­mas, sairão do Gov­erno que os gre­gos escol­hem em eleições par­la­mentares já no próx­imo domingo. Para já, a Trans­parency Inter­na­tional na Gré­cia pub­li­cou um con­junto de 8 recomen­dações, uma espé­cie de programa-base para o com­bate à cor­rupção, com o qual os par­tidos gre­gos ainda não se com­pro­m­e­teram — mais um sinal de que o dis­curso anti-corrupção que sai facil­mente da boca dos políti­cos tarda a traduzir-se em ações concretas.

E esse é, de resto, um prob­lema europeu. Ape­sar do con­senso sobre os danos da cor­rupção e os seus cus­tos para a econo­mia (estima-se que, só na Europa, a cor­rupção custe 120 mil mil­hões de euros por ano), falta uma ação integrada e efi­caz de pre­venção e repressão do crime. A Comis­são Europeia aprovou recen­te­mente um con­junto de medi­das, mas a própria comis­sária respon­sável pela pasta, Cecilia Mal­ström, recon­hece, citada pela Deutsche Welle, que con­tinua a fal­tar von­tade política para uma abor­dagem de tol­erân­cia zero.

O prob­lema é que o custo da cor­rupção não é ape­nas económico. A crise da dívida europeia semeou a dis­cór­dia e a descon­fi­ança entre países e está a enfraque­cer a União. Como notava há dias a repórter do Público Maria João Guimarães, em Ate­nas, a ani­mosi­dade entre gre­gos e alemães está ao nível mais ele­vado desde, provavel­mente, a II Guerra Mundial. E é essa descon­fi­ança que se arrisca a travar a adesão de novos países e o desen­volvi­mento do pro­jeto europeu.

Em nome dessa abor­dagem de tol­erân­cia zero, a TIAC lança na próx­ima segunda-feira o seu estudo Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade, onde diag­nos­ti­camos as forças e fraque­zas das várias insti­tu­ições do Estado, do setor pri­vado e da sociedade civil com respon­s­abil­i­dades no com­bate à cor­rupção. O estudo lista as prin­ci­pais fal­has do sis­tema e inclui um con­junto de recomen­dações claras e conc­re­tas para tornar mais efi­caz a luta con­tra o crime. É altura de deixar­mos de encol­her os ombros e mobi­lizarmos a sociedade para as mudanças que se impõem!

Abuso de privilégio

Por Luís de Sousa, Inves­ti­gador ICS-UL e Pres­i­dente da TIAC

Numa con­jun­tura em que a cor­rupção é tida como a ter­ceira causa de descon­tenta­mento com a qual­i­dade da democ­ra­cia – pre­ce­dida ape­nas pela ineficá­cia e pela falta de veraci­dade dos gov­er­nantes – e os sen­ti­men­tos anti-elites e anti-sistema aumen­tam assus­ta­do­ra­mente, o abuso de priv­ilé­gio, poten­cial ou con­sumado, con­sti­tui mais um sério foco de ten­são numa sociedade à beira de um ataque de ner­vos. Mino­rar este foco de ten­são, trazendo mais transparên­cia à relação entre gov­er­nantes e gov­er­na­dos, mais do que uma obri­gação, é hoje uma questão de prudência.

É incon­ce­bível que num país que atrav­essa uma crise provo­cada por um pro­lon­gado des­gov­erno de din­heiros públi­cos, o Estado imponha critérios de prestação de con­tas mais rig­orosos para o setor pri­vado do que para os deten­tores de car­gos políti­cos ou de con­fi­ança política. É o que acon­tece no que toca a despe­sas de representação.

Enquanto as despe­sas de rep­re­sen­tação por fun­cionários de empre­sas são con­sid­er­adas cus­tos do exer­cí­cio pela admin­is­tração fis­cal, o Estatuto Remu­ner­atório dos Tit­u­lares de Car­gos Políti­cos con­sid­era as despe­sas de rep­re­sen­tação como “abonos extra­ordinários” a somar aos venci­men­tos men­sais dos eleitos. Ora, se as despe­sas de rep­re­sen­tação con­sis­tem, de acordo com o art. 88º do Código do IRC, nos “encar­gos supor­ta­dos com receções, refeições, via­gens, pas­seios e espetácu­los ofer­e­ci­dos no país ou no estrangeiro a clientes ou a fornece­dores ou ainda a quais­quer out­ras pes­soas ou enti­dades” ter­ceiros à empresa, então não se com­preende porque é que a classe política se arroga o dire­ito de enten­der esta verba como um suple­mento salar­ial, uma espé­cie de orde­nado para lá do orde­nado, faça ou não quais­quer despe­sas em rep­re­sen­tação do Estado.

O que é recomendável, à imagem do que já é exigido às empre­sas, é que os abonos para despe­sas de rep­re­sen­tação sejam dev­i­da­mente inte­gra­dos nas con­tas cor­rentes dos min­istérios, que obe­deçam a um teto anual, que ten­ham como base de suporte um doc­u­mento emi­tido de forma legal (isto é, uma fatura do presta­dor de serviços) e que, no verso do doc­u­mento, sejam iden­ti­fi­ca­dos os fun­cionários, bem como os ter­ceiros que inte­grem a despesa efe­t­u­ada, e o jus­ti­fica­tivo da mesma, sendo estas pos­te­ri­or­mente descrim­i­nadas num reg­isto de acesso público.

Esta medida, não sendo a pana­ceia para o uso fraud­u­lento de cartões de crédito e o paga­mento sem suporte con­tabilís­tico de despe­sas de rep­re­sen­tação por parte de min­istros e mem­bros dos gabi­netes min­is­te­ri­ais, ajuda a pre­venir esses abu­sos de privilégio.

Não é a existên­cia de sub­sí­dios para despe­sas de rep­re­sen­tação que está em causa – é prefer­ível que o min­istro pague almoços em rep­re­sen­tação do Estado com din­heiros públi­cos do que sejam os pri­va­dos a oferecer-lhe os almoços – mas o modo como estes são reg­u­la­dos e escrutinados.

Espero que a classe política com­preenda o sen­tido de opor­tu­nidade desta medida e atue no sen­tido de garan­tir uma maior transparên­cia e rigor no uso do din­heiro que todos nós, com acrescido esforço, entreg­amos nas mãos do Estado.

Pub­li­cado na edição impressa do jor­nal Público a 2 de maio de 2012

A integridade ensina-se?

A Escola de Verão sobre Inte­gri­dade, orga­ni­zada pela Trans­parency Inter­na­tional na Lituâ­nia, chamou a atenção do longín­quo Times of India. A cor­rupção tem sido um tema muito pre­sente no debate público indi­ano, com ativis­tas e cidadãos a fazer cada vez mais frente aos abu­sos dos políti­cos, quer a nível regional quer a nível nacional. É por isso jus­ti­fi­cado o inter­esse do jor­nal nas ini­cia­ti­vas de for­mação de novos líderes e ativis­tas na luta con­tra a corrupção.

Percebe­mos há muito que não basta fazer lob­by­ing junto dos gov­er­nos. A pressão pública é fun­da­men­tal para con­tro­lar os políti­cos”, expli­cou Mik­los Marschall, da Trans­parency Inter­na­tional, ao Times of India. “Os jovens deram muito do dese­jado impulso aos recentes protestos anti-corrupção em todo o mundo, incluindo na Índia. Este curso ofer­ece a esses jovens algum rumo e aconselhamento”.

A Escola de Verão da TI decorre de 9 a 14 de julho em Vil­nius, na Lituâ­nia e as can­di­dat­uras devem ser feitas até ao próx­imo dia 7 de maio. A ini­cia­tiva da TI Lituâ­nia reflete a importân­cia de travar a cul­tura da impunidade e da cor­rupção, dando forças aos jovens ativis­tas que lutam por um mundo mais limpo, mais equi­li­brado e mais justo.

Em Por­tu­gal, a TIAC está a preparar a sua própria Escola de Verão, que terá lugar de 3 a 8 de setem­bro, no âmbito do pro­jeto Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade. O obje­tivo é lançar luz sobre o tema opaco da cor­rupção e dar a con­hecer as mel­hores for­mas de pre­venir e com­bater o crime.

A nossa Escola de Verão faz parte do tra­balho de ativismo que fare­mos ao longo de 2012 para reforçar os meios de com­bate à cor­rupção em Por­tu­gal. É uma ini­cia­tiva que surge na sequên­cia do pro­jeto Sis­tema Nacional de Inte­gri­dade — um lev­an­ta­mento com­pleto das frag­ili­dades do país nesta matéria — , cujo relatório final é apre­sen­tado já na próx­ima segunda-feira, a par­tir das 14h30, no Insti­tuto de Ciên­cias Soci­ais, em Lis­boa. Apareçam!

As fragilidades do Tribunal Constitucional

Ainda não está encer­rada a polémica sobre as nomeações feitas pelo PSD, PS e CDS para o Tri­bunal Con­sti­tu­cional (TC). O arranjo entre os três par­tidos foi visto com desagrado pelas estru­turas judi­ci­ais e é crit­i­cado, em entre­vista ao semanário Sol, pelo próprio pres­i­dente do TC. “O que acon­te­ceu frag­iliza o Tri­bunal”, recon­hece Rui Moura Ramos.

Na sequên­cia da con­tro­vér­sia, um dos nomea­dos para ocu­par o posto de juiz do Con­sti­tu­cional retirou já a sua can­di­datura e per­sis­tem dúvi­das sobre as qual­i­fi­cações de outro dos nomes indi­ca­dos. As sus­peitas de ten­ta­ti­vas de par­tidariza­ção do Tri­bunal Con­sti­tu­cional surgem numa altura em que o TC tem sido chamado a apre­ciar a con­sti­tu­cional­i­dade de muitas das medi­das de aus­teri­dade apli­cadas ao abrigo do acordo com a Troika — um acordo apoiado pre­cisa­mente pelo PSD, PSCDS.

Esper­e­mos que os avi­sos de Rui Moura Ramos sejam escu­ta­dos e que este processo, que começou torto, se con­siga endi­re­itar. Como lem­bra o pres­i­dente do Tri­bunal, “As pes­soas são lev­adas a pen­sar que os juízes estão aqui a rep­re­sen­tar par­tidos. Obvi­a­mente que isso não pode ser assim e con­tin­uará a não ser!”.

Quem quer pagar o combate à corrupção?

As Nações Unidas procu­ram dona­tivos de empre­sas para finan­ciar os esforços globais de com­bate à cor­rupção, noti­ciou a Bloomberg. Em entre­vista àquela agên­cia noti­ciosa, o dire­tor exec­u­tivo da agên­cia da ONU que coor­dena o com­bate à droga e ao crime orga­ni­zado, a UNODC, rev­elou estar em con­tac­tos com várias multi­na­cionais, ten­tando um acordo para que cada uma delas doe dois mil­hões de dólares amer­i­canos para finan­ciar o tra­balho da agência.

Estima-se que as ativi­dades crim­i­nosas ren­dam, só em lucros ilíc­i­tos, 2,1 bil­iões (ou seja, 2,1 mil­hões de mil­hões) de dólares todos os anos. A cor­rupção tem um impacto direto na com­pet­i­tivi­dade da econo­mia e penal­iza as empre­sas cumpri­do­ras. “O setor pri­vado está a sofrer com a cor­rupção”, explica à Bloomberg o dire­tor exec­u­tivo da UNODC, Yury Fedo­tov. “Esti­mamos que perto de 10 por cento das receitas de negó­cio se per­cam como resul­tado da corrupção”.

A agên­cia da ONU que visa pro­mover a colab­o­ração entre gov­er­nos no com­bate ao crime orga­ni­zado e acom­pan­har a apli­cação da Con­venção das Nações Unidas con­tra a Cor­rupção está a ser vítima da aus­teri­dade. “Não temos din­heiro porque o nosso orça­mento é finan­ciado por con­tribuições vol­un­tárias”, diz Fedo­tov. “E as capaci­dades dos Estados-membros estão esgotadas”.

A questão é até que ponto os empresários estão dis­pos­tos a col­matar as fal­has. Ape­sar de a cor­rupção cus­tar caro às empre­sas hon­es­tas, a ver­dade é que muitas vezes são as multi­na­cionais que mais se deixam apan­har nas teias do crime. Craig Fagan, da Trans­parency Inter­na­tional, chamou esta sem­ana a atenção para um caso par­a­dig­mático: a francesa Alstom — um gigante da engen­haria com negó­cios em mais de 100 países — chegou a acordo com o Banco Mundial (BM) para resolver ale­gações de cor­rupção em pro­je­tos finan­cia­dos pelo BM na Zâmbia.

O acordo cus­tou à Alstom o paga­mento de uma ind­em­niza­ção de 9,5 mil­hões de dólares ao Banco Mundial. Além disso, duas sub­sidiárias do grupo entraram na lista negra da orga­ni­za­ção e não poderão con­cor­rer a con­tratos do BM, nem de vários ban­cos region­ais de desenvolvimento.

O prob­lema, alerta Fagan, é que este acordo isenta a empresa de rev­e­lar a natureza e a dimen­são das ile­gal­i­dades que terá cometido. Ora, sem saber­mos exata­mente o que acon­te­ceu, como podemos saber se a punição foi pro­por­cional ao crime? E como podemos tomar medi­das, ou pres­sionar a própria Alstom a limpar a casa, sem saber­mos o que cor­reu mal na Zâmbia?

São per­gun­tas impor­tantes, até porque não é a primeira vez que a multi­na­cional se vê envolvida em sus­peitas de cor­rupção — nem é a primeira vez que se vê obri­gada a pagar mil­hões para resolver essas sus­peitas. A Alstom con­tinua a dizer que a cor­rupção não é um prob­lema na empresa, mas o seu com­por­ta­mento não é de todo trans­par­ente. O caso permite-nos per­gun­tar: que con­trib­uto podemos esperar das grandes cor­po­rações no com­bate à cor­rupção transnacional?