A Caminho da RevoluçãoA Caminho da Revolução

Por

Manuel Carvalho

7 de Novembro de 2017, 22:25

Surpresa vermelha na Estação da Finlândia

Segunda-feira de manhã, o Instituto Smolny estava fechado. À sua frente, um grupo de idosos com feições asiáticas acabado de desembarcar de um autocarro gesticulava, apontado para a estátua de Lenine que apontava para eles, tirando fotografias, animando diálogos incompreensíveis, dando o ar de um bando de adolescentes impossibilitados de chegar ao chocolate. Terça-feira de manhã, o Instituto Smolny estava fechado. No dia do centenário da Revolução havia ainda mais gente a tirar fotografias, a apontar a estátua de Lenine que apontava para eles, a dar ares ainda mais insatisfeitos pela barreira das grades e dos seguranças. Afinal, por que razão não se podia visitar a sede de onde os bolcheviques articularam todo o golpe naquela noite fria, intensa e angustiosa de seis para sete de Novembro de 1917? Porque não se podia ver o gabinete de Lenine ou as salas onde se reuniam os futuros comissários do Povo, os líderes do Comité Revolucionário Militar ou o Comité Central do partido?

Mistério por esclarecer. Do outro lado das grades, os guardas diziam “niet”, “close”, “tomorrow close”, “close, close, ‘da’ (sim)” e encolhiam os ombros quando o seu russo esgotava o stock de palavras de inglês. No dia em que a Revolução fazia 100 anos, o que resta da memória do computador central da operação estava desligado. Não será por estes dias que as excursões de povos da ex-URSS, de russos nostálgicos ou de repórteres curiosos poderão imaginar essas horas loucas que o jornalista norte-americano John Reed descreveu com nervos à flor da pele, caos com a papelada, nuvens impenetráveis de fumo de tabaco e cheiro de comida e urina.

O Smolny fechou talvez quando voltou a ter no triângulo da sua fachada neoclássica a águia bicéfala da Rússia histórica. Parece hoje mais a escola para as meninas da alta aristocracia que foi nos tempos do czar do que o lugar onde os bolcheviques urdiram as manobras que consagrariam o espírito revolucionário e a estratégia de sedução que cativou várias gerações ao longo da História.

Sem o Smolny, podia-se ao menos tentar ver o que sobrava da Revolução em torno da chama sagrada que a URSS mandou erigir em memória dos seus mártires num jardim bem perto do Palácio de Inverno. É preciso caminhar de regresso ao metro uma meia hora entre avenidas largas e de ar desolado ao jeito soviético. É preciso voltar a tirar a mochila para que passe no raio X da estação, descer uma vez mais nas escadas rolantes que só parecem acabar no centro da terra e encontrar lugar.

Nunca se perde tempo no metro de São Petersburgo, como não se perdia no de Moscovo. Porque é divertido encontrar nos seus utentes uma propensão altamente qualificada para a arte de cochilar nos transportes públicos – que, como se sabe, é uma das mais inteligentes e enternecedoras manifestações do génio humano. Cochilar no metro é felizmente banal em todo o mundo, mas os russos praticam-no com um rigor imbatível. Há quem entre numa estação, feche os olhos e saia na estação seguinte depois de os abrir meio segundo antes de o metro parar.

São Petersburgo é uma cidade irremediavelmente bela. Tão bela que parece que toda a Rússia teve de trabalhar para que os czares, os príncipes e os aristocratas pudessem fazer uma cidade tão boa ou melhor que a melhor cidade europeia, com os seus oito mil prédios tombados, os seus palácios esplendorosos, os seus jardins românticos e as suas igrejas ora belas, ora ostensivas. Neste quadro pensado para homens de peruca e mulheres de saia rodada, a Revolução podia fazer pouco sentido.

A pouca distância da belíssima igreja de Nossa Senhora do Sangue Derramado (erigida no lugar onde o czar Alexandre III foi assassinado por um radical do grupo “Vontade Popular”), fica o campo de Marte, e no meio do campo de Marte lá estava a chama eterna. Uma mulher e uma criança tiravam fotos. Houve quem se desse ao trabalho de colocar uns cravos. O lugar fora ajeitado pouco antes – seguramente por militantes da causa. As autoridades de São Petersburgo ainda não têm o poder de fechar o campo nem de mandar apagar uma chama que arde há tanto tempo como a vida dos habitantes mais velhos da cidade. Mas não deve ter a vontade para o embelezar.

Revolução havia no Hermitage, o museu que em tempos foi o Palácio de Inverno dos czares. Foi afinal por entre as suas escadarias e colunas de mármore, os seus lustres prodigiosos, o seu pé direito colossal e espantosos detalhes de decoração que irromperam os revolucionários para prender os ministros do Governo provisório e passar o óbito à sua “democracia burguesa”. Uma magnífica exposição em quatro das suas salas revela documentos da época, trajes de soldados vermelhos ou das princesas da corte, o decreto de resignação do czar,  ordens do comité dos sovietes, filmes e fotografias que mostravam o tumulto popular nas ruas da então Petrogrado ou o rasto de destruição que operários, soldados e camponeses revolucionários deixaram na sua passagem por salas cuja imponência dificilmente conseguiriam imaginar.

Ainda antes de entrar, enquanto esperava Mikhail, um russo de São Petersburgo que me acompanhou na visita, pareceu ecoar no ar a palavra Montalegre. Vinha de um homem alto, que poucos minutos antes dera ares de extravagante ao dedicar-se a ler um livro no pequeno jardim na praça interior do Palácio, apesar do frio da tarde deste dia da Revolução. Sim, era de Braga, trabalha numa companhia de Seguros, e estava com dois amigos na Rússia por causa do centenário. Foi ele que me disse o que nenhuma autoridade, nenhum amigo russo, nenhum jornalista foi capaz de me dizer: que, lá para o final da tarde, haveria uma manifestação de comunistas junto à Estação da Finlândia. Fui para lá sem convicção nenhuma. E dei com milhares de bandeiras empunhadas por gente de vários países a gritar palavras de ordem. Cem anos depois, os comunistas não param de nos surpreender.