A Caminho da RevoluçãoA Caminho da Revolução

Por

Manuel Carvalho

7 de Novembro de 2017, 22:25

Surpresa vermelha na Estação da Finlândia

Segunda-feira de manhã, o Instituto Smolny estava fechado. À sua frente, um grupo de idosos com feições asiáticas acabado de desembarcar de um autocarro gesticulava, apontado para a estátua de Lenine que apontava para eles, tirando fotografias, animando diálogos incompreensíveis, dando o ar de um bando de adolescentes impossibilitados de chegar ao chocolate. Terça-feira de manhã, o Instituto Smolny estava fechado. No dia do centenário da Revolução havia ainda mais gente a tirar fotografias, a apontar a estátua de Lenine que apontava para eles, a dar ares ainda mais insatisfeitos pela barreira das grades e dos seguranças. Afinal, por que razão não se podia visitar a sede de onde os bolcheviques articularam todo o golpe naquela noite fria, intensa e angustiosa de seis para sete de Novembro de 1917? Porque não se podia ver o gabinete de Lenine ou as salas onde se reuniam os futuros comissários do Povo, os líderes do Comité Revolucionário Militar ou o Comité Central do partido?

Mistério por esclarecer. Do outro lado das grades, os guardas diziam “niet”, “close”, “tomorrow close”, “close, close, ‘da’ (sim)” e encolhiam os ombros quando o seu russo esgotava o stock de palavras de inglês. No dia em que a Revolução fazia 100 anos, o que resta da memória do computador central da operação estava desligado. Não será por estes dias que as excursões de povos da ex-URSS, de russos nostálgicos ou de repórteres curiosos poderão imaginar essas horas loucas que o jornalista norte-americano John Reed descreveu com nervos à flor da pele, caos com a papelada, nuvens impenetráveis de fumo de tabaco e cheiro de comida e urina.

O Smolny fechou talvez quando voltou a ter no triângulo da sua fachada neoclássica a águia bicéfala da Rússia histórica. Parece hoje mais a escola para as meninas da alta aristocracia que foi nos tempos do czar do que o lugar onde os bolcheviques urdiram as manobras que consagrariam o espírito revolucionário e a estratégia de sedução que cativou várias gerações ao longo da História.

Sem o Smolny, podia-se ao menos tentar ver o que sobrava da Revolução em torno da chama sagrada que a URSS mandou erigir em memória dos seus mártires num jardim bem perto do Palácio de Inverno. É preciso caminhar de regresso ao metro uma meia hora entre avenidas largas e de ar desolado ao jeito soviético. É preciso voltar a tirar a mochila para que passe no raio X da estação, descer uma vez mais nas escadas rolantes que só parecem acabar no centro da terra e encontrar lugar.

Nunca se perde tempo no metro de São Petersburgo, como não se perdia no de Moscovo. Porque é divertido encontrar nos seus utentes uma propensão altamente qualificada para a arte de cochilar nos transportes públicos – que, como se sabe, é uma das mais inteligentes e enternecedoras manifestações do génio humano. Cochilar no metro é felizmente banal em todo o mundo, mas os russos praticam-no com um rigor imbatível. Há quem entre numa estação, feche os olhos e saia na estação seguinte depois de os abrir meio segundo antes de o metro parar.

São Petersburgo é uma cidade irremediavelmente bela. Tão bela que parece que toda a Rússia teve de trabalhar para que os czares, os príncipes e os aristocratas pudessem fazer uma cidade tão boa ou melhor que a melhor cidade europeia, com os seus oito mil prédios tombados, os seus palácios esplendorosos, os seus jardins românticos e as suas igrejas ora belas, ora ostensivas. Neste quadro pensado para homens de peruca e mulheres de saia rodada, a Revolução podia fazer pouco sentido.

A pouca distância da belíssima igreja de Nossa Senhora do Sangue Derramado (erigida no lugar onde o czar Alexandre III foi assassinado por um radical do grupo “Vontade Popular”), fica o campo de Marte, e no meio do campo de Marte lá estava a chama eterna. Uma mulher e uma criança tiravam fotos. Houve quem se desse ao trabalho de colocar uns cravos. O lugar fora ajeitado pouco antes – seguramente por militantes da causa. As autoridades de São Petersburgo ainda não têm o poder de fechar o campo nem de mandar apagar uma chama que arde há tanto tempo como a vida dos habitantes mais velhos da cidade. Mas não deve ter a vontade para o embelezar.

Revolução havia no Hermitage, o museu que em tempos foi o Palácio de Inverno dos czares. Foi afinal por entre as suas escadarias e colunas de mármore, os seus lustres prodigiosos, o seu pé direito colossal e espantosos detalhes de decoração que irromperam os revolucionários para prender os ministros do Governo provisório e passar o óbito à sua “democracia burguesa”. Uma magnífica exposição em quatro das suas salas revela documentos da época, trajes de soldados vermelhos ou das princesas da corte, o decreto de resignação do czar,  ordens do comité dos sovietes, filmes e fotografias que mostravam o tumulto popular nas ruas da então Petrogrado ou o rasto de destruição que operários, soldados e camponeses revolucionários deixaram na sua passagem por salas cuja imponência dificilmente conseguiriam imaginar.

Ainda antes de entrar, enquanto esperava Mikhail, um russo de São Petersburgo que me acompanhou na visita, pareceu ecoar no ar a palavra Montalegre. Vinha de um homem alto, que poucos minutos antes dera ares de extravagante ao dedicar-se a ler um livro no pequeno jardim na praça interior do Palácio, apesar do frio da tarde deste dia da Revolução. Sim, era de Braga, trabalha numa companhia de Seguros, e estava com dois amigos na Rússia por causa do centenário. Foi ele que me disse o que nenhuma autoridade, nenhum amigo russo, nenhum jornalista foi capaz de me dizer: que, lá para o final da tarde, haveria uma manifestação de comunistas junto à Estação da Finlândia. Fui para lá sem convicção nenhuma. E dei com milhares de bandeiras empunhadas por gente de vários países a gritar palavras de ordem. Cem anos depois, os comunistas não param de nos surpreender.

10 de Novembro de 2017, 08:43

A atracção da Rússia

Depois de passar pelas primeiras torres dos subúrbios de Moscovo, o Sapsan, comboio de velocidade alta que liga os 712 quilómetros entre São Petersburgo e a capital russa em menos de quatro horas, demoraria ainda mais uns 20 minutos até à estação de Leninegrado, no centro. Moscovo é, afinal, uma alegoria da Rússia: uma cidade desmesurada, complexa, misteriosa, difícil de conhecer e ainda mais de entender. Ricardo, um português, vive num dos bairros perto do aeroporto principal e para lá se chegar é necessário viajar durante mais de meia hora de metro e mais uns 15 minutos de autocarro. No seu bairro, feito de torres gigantes coladas umas às outras, vive mais gente do que na sua cidade natal, o Porto, diz ele com espanto e uma certa desilusão.

Um mapa enorme que cobre praticamente toda a parede da sala principal da estação de Moscovo em São Petersburgo mostra a rede de caminho-de-ferro que corresponde ao imaginário da Rússia potencial: a que vai de Varsóvia a Vladivostoque, no extremo da Ásia, de Helsínquia a Astana, na Ásia central. Moscovo é de alguma forma o retrato vivo desse império, com louros e morenos, caucasianos e asiáticos, ortodoxos e budistas, georgianos e calmuques a cruzarem-se diariamente na azáfama do metro que transporta todos os dias dez milhões de passageiros. Construído pela força das armas no tempo dos czares, parcialmente reconquistado na ressaca da II Guerra, o que resta desse império ilustrado no mapa da era soviética representa hoje um recuo que abala a consciência da grandeza da Rússia. Sem os bálticos, sem a Finlândia, sem a Ucrânia ou o Cazaquistão ou a Geórgia e a Arménia, a Rússia é obrigada a redefinir-se pela sua base original.

Discutir valores liberais, direitos individuais ou liberdade de expressão e de manifestação neste contexto geopolítico implica para a maioria dos russos contemporâneos o recurso à condescendência e à relativização. Manter o império unido é um dever sagrado que só se consegue com a mão dura da autocracia. Era assim no tempo dos czares, foi assim na era soviética, é assim com Vladimir Putin. O relaxamento da autoridade do poder central, dizem russos cultos e atentos, implica a disrupção na periferia. Qualquer sinal de fraqueza do Estado para com o exterior, tem como consequência o enfraquecimento da Rússia e o reforço da sua vulnerabilidade perante as supostas ameaças do estrangeiro. Putin é duro cá dento e lá fora e é por isso que a maioria esmagadora dos russos o aprecia. Há necessidades para as quais não há opção, dizem.

Para reforçar essa autoridade central, não há recursos a desperdiçar. Oficialmente, a Rússia olhou apenas de soslaio para o centenário da sua revolução que, há 100 anos, mudou a face da política mundial, apenas porque quer apagar a sua história de subversão revolucionária e ainda mais as marcas de divisão que ainda hoje persistem no país. Putin aliou-se à poderosa Igreja Ortodoxa, mantém relações próximas com os oligarcas, exalta os valores do Exército e da disciplina militar porque sabe que essa é a forma mais eficaz de criar uma espinha dorsal para dominar um país gigante que vive ao lado de muitas feridas abertas pela sua própria história. Em nenhum país da Europa se vêem tantas igrejas em construção e ainda menos tantos militares nas ruas, ou tantos adolescentes fardados de camuflado em visitas a monumentos nas principais cidades.

A Rússia é uma potência europeia desde que Pedro, o Grande decidiu virar as costas a Moscovo e residir em São Petersburgo. Durante o tempo dos czares, fez parte da aliança conservadora que travou os ímpetos liberalizadores da Revolução Francesa. Na Primeira Guerra enfrentou as potências conservadoras porque foi em defesa dos eslavos do Sul (a Sérvia, no caso), dos quais se julga ser protector. Na Segunda Guerra esteve ao lado dos aliados apenas depois de ter sido traída por Hitler. Hoje, a Rússia sente-se isolada perante uma Europa unida, sem ter possibilidade de entrar nos jogos de alianças que ao longo da História lhe permitiram jogar o poder da sua força. É no contexto dessa sensação de isolamento que se enquadram as suas reacções às tentativas da Europa Ocidental e dos EUA de levar a Nato até à Ucrânia ou até à Geórgia. A segurança nas fronteiras é uma questão sensível desde os tempos dos romanos (o limes, o espaço poroso por onde os bárbaros começariam a demolir o império). Para a Rússia contemporânea, essa segurança é absolutamente vital. Jamais prescindirão de estados-tampão, amigos de preferência, nas suas fronteiras.

Com a economia estabilizada apesar das sanções, com a sua população outra vez a aumentar, em boa parte à custa de generosas prestações sociais para quem tem filhos, a Rússia vive confiante em si e desconfiada do mundo. Entrevistar pessoas aqui é um quebra-cabeças. O medo de ser mal interpretado, ou de servir de instrumento a mais uma campanha da imprensa internacional contra a Rússia, é permanente. Mas, aos poucos, o país vai-se abrindo. Os metros têm já o nome das estações em inglês. Os comboios também. O conflito na Crimeia ou na Síria gelaram a aproximação da Rússia ao seu lugar de pertença, a Europa, mas a globalização tratará de, a seu tempo, a descongelar.

Pelo menos a relação da Europa com as cidades. Ir de São Petersburgo a Moscovo num comboio moderno construído pela alemã Siemens não faz muita diferença de viajar entre outras duas capitais europeias quaisquer. As cidades são absolutamente ocidentalizadas, mesmo que conservem a sua identidade euroasiática, principalmente Moscovo.  As pessoas são menos simpáticas ao primeiro contacto, há vodka e a comida é diferente, mas estes são detalhes que configuram a idiossincrasia de cada cidade, o tempero que lhes dá graça.

O pior da Rússia é o que se vê das janelas do Sapsan entre cidades perdidas no meio da floresta esbranquiçada pelo gelo de Novembro. As aldeias de casas de madeira, muitas sem estradas pavimentadas, são o reflexo de um país com dois sistemas aparentemente opostos: de um lado o capitalismo florescente de Moscovo, com os seus restaurantes caríssimos, as suas lojas de jóias a cada esquina ou o seu parque automóvel que faz inveja ao de Paris ou Berlim, do outro a ancestral pobreza do campesinato. Também aqui vale a pena regressar ao passado e perceber que, se em 1917 a revolução se fez com operários e soldados, ela só sobreviveu porque a Rússia profunda dos campos a apoiou com denodo.

Onze dias depois de chegar a Moscovo, depois de viajar até ao limiar do Cáucaso e de passar pela Rússia mais europeia, após dezenas de entrevistas com estudantes, professores, padres, gente normal, políticos ou detentores de cargos oficiais no Estado, fico com a ideia que este país é talvez um dos mais difíceis de entender entre os que conheço. Pela sua história, pela sua cultura refinada, pela relação distinta com que os russos se relacionam com o poder, pela razão do Estado e os seus impactes na política pública. A Rússia é, na verdade, um grande e permanente mistério. É isso que a torna irresistivelmente atraente.

5 de Novembro de 2017, 21:33

Irina depois do mistério

“Bom dia, é a Irina?”. Sim, era a Irina. Pelo menos até saber que falava com um jornalista estrangeiro. Depois, num passe de mágica, deixou de o ser. Nem era Irina, nem trabalhava no Museu da Batalha de Estalinegrado, nem sabia de nada nem queria saber. Tinha sido um engano. Num país onde muito poucas pessoas falam inglês, tinha tido o azar de ligar para uma delas.

Bem me avisaram que fazer contactos na Rússia era um quebra-cabeças. A experiência comprovou-o. Dezenas de e-mails enviados para universidades, partidos, fundações, colegas de jornais, organizações cívicas tinham recebido a mesma resposta: nenhuma. Dezenas de telefonemas acabaram invariavelmente na tentativa infrutífera de aproximar o inglês do russo, logo, no diálogo de surdos. Na Rússia, os estrangeiros são isso mesmo, estrangeiros, estranhos, suspeitos. Depois de quase um século de acosso vindo de fora, depois da trágica experiência do pós-URSS em que a aplicação de terapias ocidentais num corpo euro-asiático resultou numa tragédia de custos deploráveis para milhões de pessoas, depois dos embargos e das pressões internacionais em torno da política externa (e interna) de Vladimir Putin, os estrangeiros são o que os espanhóis foram para os portugueses durante séculos: mau vento e mau casamento. Se forem jornalistas ainda pior.

Mas dizer que essa desconfiança e esse preconceito fazem parte da essência da alma russa é um erro. E uma injustiça. O que é preciso é alguém conhecido que bata às portas, que as abra e nos deixe entrar. Depois, os russos despem-se da antipatia e do distanciamento e tornam-se amigos como os de longa data. Chegam a enternecer. Na procura dos “Caminhos da Revolução”, houve felizmente duas ajudas preciosas para se abrirem essas portas e se desfazerem esses distanciamentos: a de Alexander Briantsev, da Embaixada da Rússia em Lisboa, incansável em promover contactos com entidades oficiais; e a do velho companheiro do PÚBLICO João Seabra, que estudou em Moscovo nos idos de 1980.

Bastam três contactos directos para que depois outros contactos se consigam e outros interlocutores se arranjem, até em lugares remotos e difíceis como Volgogrado. Em Moscovo, Konstantin Mogilevskiy, da Sociedade Histórica da Rússia, fez a ponte com Irina e o Museu da Batalha de Estalinegrado. E Vladimir Legoyda, do Sínodo Sagrado da Igreja Ortodoxa da Rússia, permitiu-me ter a felicidade de conhecer o Padre Serguey Svenkow. A partir destes contactos foi possível chegar à extraordinária história de vida de Stepan Smiridov, ao director do museu, a Elena Vasilievska e à realidade actual de uma cidade estranha, distante e esmagada pela História.

Mas, o que aconteceu com Irina? Quando recebeu a minha chamada, não tinha ainda sido contactada de Moscovo. Reparada a omissão, numa segunda tentativa esta mulher de cabelos dourados e olhos verde de água desfez-se em simpatias. Fez as marcações, levou-me ao director do museu, demorou umas três horas a fazer uma visita guiada pelo terrível espólio da batalha e ofereceu-se para me pagar o táxi. Ainda assim, ficou longe da generosidade e da simpatia de Serguey Svenkov, um jovem padre com quatro filhos, magro, algo tímido mas de uma inexcedível simpatia.

Serguey procurou e descobriu gente para ser entrevistada, guiou-me no Mamayev Kurgan onde uma estátua gigantesca celebra a vitória vermelha em Estalinegrado, levou-me e trouxe-me do hotel, fez questão de me transportar ao aeroporto e ofereceu-me dois belos copos pintados a prata pela mulher. Porquê? A resposta revela a sua extrema generosidade e desinteresse: “Para conhecer um pouco melhor Portugal”. Claro que um homem do Douro vai para estas coisas sempre precavido para gestos assim. Serguey ganhou e mereceu a garrafa de vinho do Porto que viajara desde Portugal.

Depois de me conduzir pela paisagem desolada e ferrugenta da era pós-industrial de Volgogrado, Serguey deixou-me então num aeroporto ainda mais feio e inóspito à partida do que à chegada. É preciso: passar duas vezes as malas pelo raio X; encarar filas intermináveis; resistir à antipatia burocrática das mulheres do check-in; ter paciência para pagar uma pequena fortuna em rublos porque a mala tem mais uns poucos quilos do que o contratado; enfrentar uma nova fila para carimbarem o cartão de embarque. É preciso ainda esperar em pé pelo embarque, aguentar uma longa viagem num autocarro ruidoso, sobrepovoado e a cheirar a gasóleo para depois partir.

Em São Petersburgo regressa-se à Europa. Pelo menos depois de se experimentar a Marshrutka. O pavor dos taxistas russos empurra-nos para os comboios ou os metros. Quando os não há, como e o caso, tentam-se os autocarros. E quando estes são raros, como se provou, vale tudo. As Marshkrutkas são afinal a versão russa das peruas brasileiras: vans que transportam pessoas de um lado para o outro. Não são primores de conforto, corre-se o risco de viajar de pé ou com a mala ao colo, mas são rápidas e custam 80 cêntimos do aeroporto à primeira estação de metro.

São Petersburgo é aquela Europa que costumamos associar aos palácios dos Habsburgos, embora com uma ligeira tonalidade báltica e escandinava. A cidade é belíssima, as avenidas estão cheias de jovens agitados e de mulheres em passo lento com ar de quem vai à ópera, acompanhadas de homens de ar solene na missão ritual do fim da tarde de domingo. É impossível olhar para a azáfama feliz da Avenida Nevsky e não pensar naquele mesmo lugar há exactamente um século atrás, quando soldados amotinados, guardas vermelhos, marinheiros de Kronstad, operários, desempregados, ladrões e prostitutas, agitadores profissionais e sonhadores encartados começaram a gerar o tumulto que, dois dias depois, acabaria na revolução.

É nesse momento que chega uma mensagem ao telefone com cartão russo. Sim Padre Serguey, o voo foi bom e cheguei muito bem. “From Russia with Love” pode afinal querer dizer mais do que um filme do 007.

3 de Novembro de 2017, 23:02

Em Estalinegrado treme-se, só de se pensar

O aeroporto de Gumrak, em Volgogrado, estava condenado a ser apenas mais um desses pontos de chegada e de partida das cidades remotas se não tivesse uma história para contar. Foi dali que, a 23 de Janeiro de 1943, partiu o último Heinkel com 19 feridos, deixando nas costas centenas de milhares de soldados alemães cercados pelo Exército Vermelho e condenados à sua sorte. Nada parece funcionar bem: nem o tempo interminável de espera pelas malas, nem o tapete rolante que avariou umas cinco vezes em 15 minutos, nem a sinalização, nem o conforto, nem sequer a higiene. Mas, chega-se, e treme-se. Estamos perto do lugar onde se travou a mais feroz e sanguinária batalha da História. Em 200 dias de combate pelo controlo da cidade que então se chamava Estalinegrado morreram uns dois milhões de soldados russos e alemães. De uma população de mais de um milhão de habitantes, emergiram de grutas, de caves ou dos escombros apenas 30 mil pessoas no final dos combates. Treme-se, só de se pensar.

Foi um dia longo. Às cinco, hora de sair do hotel e recear a imprevisibilidade do trânsito louco de Moscovo. E a inenarrável vocação dos taxistas para nos aldrabarem. O que me coube começou por errar o alvo e ficar à espera uns metros acima. Depois insistiu num inglês arranhado e impaciente em levar-me ao aeroporto, quando o pedido mencionava como destino a estação da Bielorrússia. Para escapar aos olhares da praça de táxis e disfarçar a sua clandestinidade (ou a sua irritação) deixou-me a uns 150 metros da entrada da estação. Barafustei e ele barafustou, mas desta vez não fui alvo de nenhuma tentativa de extorsão. Paguei 350 rublos (pouco menos de cinco euros), nada mau. Mas entre o atraso e a distância perdi o comboio directo para o aeroporto das seis e meia. E só há partidas de meia em meia hora.

Sentei-me sonolento no extremo de uma fila de cadeiras, ao lado de uma senhora de idade que insistia em falar-me em russo para apenas receber encolheres de ombro, sorrisos de circunstância, respostas instintivas em português ou um frequente “niet russky”. Apenas mais uma nota de destempero para encarar as filas do check-in, onde a lei da selva impera. Passa um, passa outra, passa um casal e perde-se a paciência. Basta, a menina do balcão levanta-se e, em tom autoritário, diz qualquer coisa, mas qualquer coisa eficaz. Acabou-se a balbúrdia.

A uma hora e meia de voo, Volgogrado, ex-Tsaritsin, ex-Estalinegrado entre 1926 e 1961, apareceu parda quase sem luz da manhã. Um nevoeiro húmido deixava ao menos o conforto e a certeza de se saber que o gelo de Moscovo era passado. A cidade vai receber o Mundial de Futebol em 2018, boa notícia para eles, má notícia para quem está de passagem. As obras e a chuva tornaram uma viagem de 35 minutos num calvário que o taxista (este, finalmente simpático, sempre a dizer Portugália/Ronaldo, Portugália/futebol/good, Portugália/Ronaldo 4/Messi 3) furava com súbitas inversões de marcha e rotas que nos levaram aos confins dos bairros secundários da cidade. Uma oportunidade para ver, finalmente, Ladas, Volgas e Moscovitch’s. Depois, o Volga, depois o museu Panorama, depois Estalinegrado.

Há anos que a batalha me persegue. Pela paranóia de dois ditadores, Hitler e Estaline, que decidiram que era ali, naquela tira urbana que se estende por quilómetros na margem direita do rio Volga, que um haveria de mostrar o outro quem seria o macho dominante. Durante dias a fio lutou-se e matou-se pela conquista de uma casa, por uma posição numa colina, por uma brecha até ao rio. Durante seis meses, chegavam todos os dias divisões condenadas à carnificina estúpida, inútil e ignóbil e partiam, quando partiam, homens feridos no corpo e na sua dignidade. Soldados russos eram colocados na rectaguarda para abater soldados russos que ousassem fugir. Snipers como Vassili Zaitsev (o personagem de “Inimigo às Portas”, de Jean-Jacques Annaud, com Jude Law no principal papel) matou 300 alemães nessa loucura.

No final, em Fevereiro de 1943, a cidade estava arrasada. Foi preciso fazer uma nova. Stepanov Svididov, com 90 anos, lembra-se de ver prisioneiros de guerra alemães a apanharem restos de bombas e de balas, pedaços de corpos humanos, fotografias das famílias, vestígios últimos da humanidade que se tinha ali perdido. Depois de perder o VI Exército que conquistara Paris em 1940, os nazis entraram em retirada. A II Guerra Mundial mudara de rumo. Os russos perseguiram-nos com o ódio acumulado nas atrocidades de Estalinegrado. Haveriam de o demostrar em Maio de 1945, quando içaram a bandeira vermelha no Reichtag em Berlim.

Em Estalinegrado, treme-se só de se pensar que aquilo aconteceu mesmo, que a barbárie humana pode ser incontrolada, que o ódio imposto pelas tiranias é cego e brutal e medonho. Aquela cidade é por isso muito mais do que um aglomerado humano. É o testemunho dessa loucura e desse horror. Pensar hoje no que ali aconteceu custa. Esquecer, a prazo custará ainda mais. russ

2 de Novembro de 2017, 10:03

A arte que nasceu da Revolução

Do submundo quente, agitado e tenso da fabulosa rede de metro de Moscovo (um legado dos anos de chumbo de Estaline) à desolação árida e fria das largas avenidas da capital russa traça-se uma fronteira meio real, meio imaginária que separa o conforto do desconforto, a humanização da natureza da natureza crua e violenta. No metro, tira-se o gorro e o casaco; na rua, caminha-se com tremuras nos ombros, o vento agreste e gélido faz-nos lacrimejar, os lábios ficam inertes e vulneráveis até parecerem condenados a rasgar-se. Acredita-se que tudo se resume a uma inadaptação da biologia latina e mediterrânica aos rigores do clima das estepes nórdicas, pelo menos antes de se olhar com atenção para o semblante ríspido dos transeuntes e se descobrir que, nestas latitudes inóspitas e agressivas, sofrer nas ruas faz parte da condição humana. É nesses momentos que um museu nos faz tremer por outras e muito mais deliciosas sensações.

A maioria dos 118 eventos programados pelo comité que organiza as comemorações da Grande Revolução Russa de 1917 são acções de divulgação junto dos mais jovens, iniciativas editoriais, entre as quais consta uma enciclopédia dos acontecimentos desses dias loucos entre Fevereiro e Novembro, ou conferências que reúnem alguns dos mais prestigiados especialistas no estudo do período. Mas em Moscovo há pelo menos duas exposições que bastam para sublinhar a extraordinária dimensão da revolta de donas de casa, soldados, marinheiros, operários, camponeses e estudantes que acabaria por marcar o destino do último século. A primeira, no antigo Museu da Revolução (hoje Museu de História Contemporânea) mostra-nos mês a mês o “Código” que conduziu a sublevação incontrolada das massas populares a uma mudança de regime e, depois, a um regime completamente novo; a segunda, num dos edifícios da Galeria Tretyakov, chama-se “Alguém, 1917” e mostra-nos como a arte se revolucionou com a ajuda da revolução.

No ano de todas as mudanças, Petrogrado (chamou-se assim depois do início da I Guerra para evitar a sonoridade germânica de São Petersburgo) era já uma cidade vanguardista. Vassili Kandinsky descobrira já o abstraccionismo. Kasimir Malevitch lançava nesse mesmo ano o “suprematismo”, pedindo uma revolução para a arte. Se havia artistas tentados a passar ao lado desse turbilhão de emoções, de dissídios, de insubordinações e ousadias, a maioria dos pintores russos mergulharam numa espiral de criatividade que duraria até que o novo regime os pusesse na ordem com os açaimes do realismo socialista. Por isso essa exposição é um bálsamo. Porque levou a arte a ser “realizada em si mesmo não como uma ‘reflexão sobre a realidade’, não como um produto da ideologia, mas como um laboratório de ideias e de projectos sociais”, como se lê no programa. “Alguém” diz o que apenas se pode e deve dizer: não há massas, nem revoluções, nem vanguardas sem a expressão da individualidade de quem pensa, faz ou pinta.

Ver as obras de Marc Chagall no auge do seu talento criativo, de Brodsky, de Ilya Repin ou de Boris Grigoriev a retratarem ladrões e prostitutas, bolcheviques em festa ou a simbolizarem o demónio que tira o pão a crianças esfomeadas, amantes a voar, a realidade despida das formas que conhecemos, o delírio inventivo feito com a desordem das cores ou a ousadia de correr riscos ajuda-nos a perceber esses dias da Revolução. Por uns meses, acreditou-se não haver limites ao poder da vontade ou da criatividade humana. Mesmo que, aqui e ali, subsistissem os sinais de um velho mundo que havia de ameaçar e corromper o novo: um quadro com o retrato de uma figura da alta sociedade em vésperas de fugir para o exílio, o registo de uma pintura de Trotsky que acabaria desaparecida quando Estaline o quis varrer da memória, a figura imponente do Príncipe Yusupov subitamente tornado herói por ter assassinado Rasputin – o místico corrupto que se tornara influente na corte pelo suposto poder que mostrava em controlar a hemofilia do príncipe herdeiro, e odiado nas ruas pelos seus deboches sexuais e pela corrupção continuada sob o beneplácito da czarina.

As revoluções são, por natureza e definição, isso mesmo: turbulências, contradições, expectativas, crenças feitas e convicções desfeitas que, ao contaminarem as ruas, acabam por chegar ao mais íntimo recanto da sensibilidade dos que as viveram de perto. Por isso aqueles quadros nos parecem tão autênticos. Principalmente depois de sermos obrigados a regressar à rua, enfrentar o frio, acelerar o passo entre o cinzento-escuro do dia e repararmos na estátua megalómana e patética que, numa ilhota do rio Moscovo, se ergue entre veleiros de metal para celebrar o czar Pedro, o Grande. Ou ainda mais quando, a escassa distância dali vemos a imponente estátua de Lenine com o braço levantado a apontar um destino incerto no horizonte. Nenhuma obra dos regimes é capaz de emular a força e a sensibilidade que nasce nos homens extasiados com uma revolução. Alguém?

31 de Outubro de 2017, 16:09

Lenine no seu mausoléu

O que se pensa quando no espaço de uma manhã se muda de uma cidade quente e soalheira para uma capital gélida, húmida e enevoada? Que o clima tem uma enorme importância na política e na História da Rússia. Com Novembro à porta sem neve nem gelo e com temperaturas a subirem um pouco para lá dos zero graus, Moscovo estava esta segunda-feira mergulhada numa espessa camada de chuva cinzenta, um cenário provavelmente semelhante como o que em Fevereiro de 1917 levou centenas de milhar de soldados e operários de São Petersburgo a dar o peito às balas das forças de segurança, a instalar o caos anárquico na cidade e a obrigar o czar Nicolau II a abdicar – criando o primeiro capítulo de uma história que, nove meses depois, culminaria com o golpe dos bolcheviques. Na Moscovo destes dias, porém, nem o tempo serviria para mobilizar ardores revolucionários. Porque numa cidade literalmente bloqueada pelo trânsito, seria difícil despontar as mobilizações populares.

Chegar a Moscovo vindo de Lisboa é como deixar de usar os pés e andar com a cabeça ao contrário. Os caracteres cirílicos dão-nos nós nos neurónios. O frio tolhe os músculos. A penumbra do dia suscita amarguras nostálgicas. A grandiosidade da cidade inibe. O olhar absorto e desalmado de milhares de pessoas a descerem as intermináveis escadas rolantes do metro interpela. “A Rússia é um quebra-cabeças embrulhado num mistério dentro de um enigma”, já dizia Winston Churchill.

Moscovo mudou no prazo de uma década. O Aeroexpress que liga o aeroporto à estação da Bielorrússia no centro da cidade não desmerece as melhores ligações de Bruxelas ou Paris. O problema é que, na Gare du Nord ou em Austerlitz, a probabilidade de se encontrar um Grigori na praça de táxis em frente à estação é felizmente mais remota. Grigori arranha umas frases de inglês, anda na vida de taxista há 22 anos e sabe que a melhor maneira de ganhar espaço junto do cliente é dizer o que o cliente (ou seja, eu) quer ouvir. Que Portugal é muito bom, que o trânsito está nas sete bolas vermelhas de uma escala de zero a dez mas ele sabe fugir, que o Ronaldo é o maior que a Irina foi palerma ao deixá-lo, que o vinho faz melhor do que o vodka. Depois vem a conta: 3000 rublos (uns 45 euros) para uma viagem de 20 minutos com a distância de sete quilómetros.

Pois que venha a polícia. Aí, Grigori, percebe que o engodo não funcionou. A mistura estrangeiros/polícia é algo explosivo na capital. Vai daí, a pergunta habitual: “Diz-me quanto pagas que eu assumo o resto do prejuízo com o patrão”. Mil e é muito e assim ficou. Até porque Grigori sendo bom a contar bolas vermelhas de trânsito, revelou-se uma nulidade na História da pátria Rússia. Revolução? Sim, isso foi há 100 anos, certo? Comemorações? “Ah, sim, ouvi dizer. Para Novembro, certo?” Estaline, Lenine, Trotsky hão-se ser para ele jogadores de futebol?

As cidades gigantescas assustam e Moscovo tem um particular dom para exercer este atributo. Procurar aqui os sinais da revolução tem aquele agridoce sabor do desafio imenso. A estrela vermelha, o martelo e a foice ainda dão brilho aos trajes das assistentes da Aeroflot. Nos pináculos do Kremlin, também há estrelas vermelhas. Mas, depois, olha-se à volta numa noite de chuva miúda e vê-se o Museu Histórico do Estado com as suas águias bicéfalas, símbolo da Rússia sagrada que dura desde o tempo dos czares. E, mesmo ao lado, sem luz, sem brilho, sem curiosidade, sem destaque jaz o mausoléu de Lenine, que a Igreja Ortodoxa quer tirar do lugar e os saudosistas da URSS querem preservar. Vazio na sua sumptuosidade, dissonante na forma como rasga a linearidade da Praça Vermelha, o mausoléu é como que um fantasma de mármore a lutar contra a sua própria evanescência. Será a hora de Lenine descansar em paz.